Interação mediada por computador: comunicação | cibercultura | cognição
by
Tauana Jeffman
- outubro 08, 2012
Em suma, nesta obra - fruto de sua tese de doutorado amplamente premiada, Alex Primo traz à discussão, a visão de diversos autores conceituados sobre a problemática do: "o que é interação". Primo também espelha-se nos pensamentos de Piaget e Freire para compreender como se dá o processo de conhecimento humano, e a partir daÃ, compreender como se dá tal processo, por meio da interação mediada pelo computador. Um conceito interessante que o autor nos apresenta, é entender o sujeito da interação como "interagente", e não como "usuário", pois este último, predispõe um uso, onde o sujeito usa algo e não alguém.
Resumo de parte da obra
A tão conhecida fórmula emissor > mensagem > meio receptor acaba sendo atualizada no seguinte modelo: webdesigner > site > internet < usuário. Os termos são outros, foram “modernizados”, mas trata-se da mesma e caduca epistemologia. A diferença é que se destaca que não apenas se recebe o que o pólo emissor transmite, mas também se pode buscar a informação que se quer. O novo modelo, então, seria: webdesigner > site > internet < usuário. Essa seria a fórmula da chamada “interatividade”. 11
Ainda que o termo “usuário” venha a substituir “receptor”, ele não representa grande avanço. Se para a indústria da informática a palavra “usuário” descreve bem seu cliente [...], do ponto de vista comunicacional o termo é reducionista. 11-12
O usuário usa algo, não alguém. Em outras palavras, posso falar em dois usuários do programa MSN, mas não pensar que o diálogo através desse sistema seja o intercâmbio entre “usuários”. 12
[...] interação será aqui entendida como a “ação entre” os participantes do encontro (inter + ação). Sendo assim, é preciso lembrar que interação não é o mesmo que interação social. Esta última é uma forma interativa, mas não a própria definição de interação. 13
O diálogo na interação face a face apresenta uma “multiplicidade de deixas simbólicas”, ou seja, as palavras vêm acompanhadas de informações não-verbais como piscadelas e gestos, franzimento de sobrancelhas, variações na entonação etc. [...] 20
Já nas interações mediadas, como em cartas ou em conversas telefônicas, o diálogo ocorre, mas remotamente no espaço e/ou no tempo. Por serem mediadas por um meio técnico, decorre um estreitamento das deixas simbólicas possÃveis. [...] As informações contextuais aà presentes também apresentam caracterÃsticas singulares, como o cabeçalho de uma carta [...] ou a identificação inicial em uma conversa ao telefone. 20
Finalmente, a interação quase mediada, se refere aos meios de comunicação de massa – como livro, jornal, rádio, televisão etc. – dissemina-se no espaço e no tempo, mas é monológica, isto é, o fluxo da comunicação é predominantemente de sentido único. Thompson (1998, p. 79) afirma que o leitor de um livro é um “receptor de uma forma simbólica cujo remetente não exige (e geralmente não recebe) uma resposta direta e imediata”. 20
Lippman [...] “ambientes sociais globais” – uma interação recÃproca que une as pessoas. 33
Não resta dúvida de que um leitor de um hipertexto digital ou dos textos permutáveis analógicos de Queneau e Saporta difere do leitor de um romance convencional. A permutabilidade espera pela ação desse leitor. 44
A partir da observação do relacionamento entre os interagentes, dois tipos de interação serão propostos: mútua e reativa. 56-57
[...] a interação mútua é aquela caracterizada por relações interdependentes e processos de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e cooperada do relacionamento, afetando-se mutuamente; já a interação reativa é limitada por relações determinÃsticas de estÃmulo e resposta. 57
A palavra “mútua” foi escolhida para salientar as modificações recÃprocas dos interagentes durante o processo. Ao interagirem, um modifica o outro. 57
Tornou-se lugar-comum dizer que a interação mediada por computador se afasta do modelo “um-todos”, caracterÃstico da comunicação interpessoal e grupal, respectivamente. Por outro lado, como se pôde ver no capÃtulo 1, os teóricos da interação mediada por computador, tão logo terminam de fazer aquela afirmativa, despencam para modelos que podem fazer sentido apenas nos estudos de comunicação irradiada. 71
Não é demais repetir que interagir não é algo que alguém faz sozinho, em um vácuo. Comunicar não é sinônimo de transmitir. Aprender não é receber. Em sentido contrário, quer-se insistir que interação é um processo no qual o sujeito se engaja. Essa relação dinâmica desenvolvida entre os interagentes tem como caracterÃstica transformadora a recursividade. E para que isso seja compreendido, é preciso observar o próprio conhecer como relação. 72
Weber (1987, p. 45), um dos pilares da teoria sociológica, apresenta o conceito de relação social como “a situação em que duas ou mais pessoas estão empenhadas em uma conduta onde cada qual leva em conta o comportamento da outra de uma maneira significativa, estando portanto orientada nesses termos”. 76
[...] uma leitura atenta da obra de Piaget logo revela sua defesa de que o conhecimento não se encontra totalmente determinado pela mente individual. Central em sua obra é a concepção de que nenhum conhecimento, mesmo que através da percepção, é uma simples internalização ou cópia do real. 85
Paulo Freire (2001, p. 78) [...] “Existir humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes a exigir deles um novo pronunciar”. 94
As interações mútuas apresentam uma processualidade que se caracteriza pela interconexão dos subsistemas envolvidos. Além disso, os contextos sociais e temporais conferem à s relações construÃdas uma contÃnua transformação. 101
Os relacionamentos são construÃdos e modificados socialmente através das ações recÃprocas dos membros relacionais. 117
Fisher (1997, p. 209) sugere que para que se compreenda a comunicação interpessoal, vale pensa-la como um processo de negociação. 118
