O Clube do livro do fim da vida
by
Tauana Jeffman
- janeiro 16, 2014
Eu nunca comentei isso aqui, mas eu adoro o Skoob, uma rede social para os amantes dos livros. Acesso tanto o Skoob quanto o Facebook. Tá, talvez o Facebook um pouquinho mais. Pois bem, foi em uma das muitas fuçadas no Skoob que eu descobri esse livro, meio que por acaso. Como estou pesquisando assuntos relacionados a livros (e como adoro essa temática), me encantei só com a capa e a sinopse da obra. Não pensei duas vezes: abri uma outra aba, entrei no Submarino e comprei o livro. Foi uma decisão acertada, muito acertada.
A obra é encantadora, motivadora e inspiradora. Apesar de falar sobre câncer, mortes e perdas, não me passou tristeza. A cada página, eu sentia mais vontade de viver. E de ler. Acredito que fui tocada pela história de Mary Anne (que na verdade se chama Mary Ann, mas adiciona o e porque acha melhor). Mary é mãe de Will, o autor da obra. Will conta-nos, então, o começo do fim da história da sua mãe, pois ela descobre que tem pouco tempo de vida, devido a um câncer no pâncreas.
Will é editor de livros, mas desde de criança já vivia cercado deles. O autor explica como seus pais sempre foram apaixonados pela leitura, como a casa vivia repleta de livros e como eles incentivavam os filhos a ter o mesmo hábito. E deu certo. Will adora livros, tanto quanto os pais, tinha autores preferidos, livros preferidos e sempre se via envolto em histórias fantásticas.
Um dos assuntos preferidos para conversar com sua mãe, era justamente, os livros. Eles então perceberam que, na verdade, eram integrantes de um clube do livro. Um clube do livro com apenas dois integrantes, mas ainda assim, um clube. Will e sua mãe utilizam a literatura para conhecerem, um ao outro. Fala o autor: "Essa é uma das coisa que os livros fazem. Eles nos ajudam a falar. Mas também nos dão algo sobre o qual todos podemos falar quando não queremos falar sobre nós mesmos". Também aproveitam o pouco tempo que resta à Mary, para que ela lhe indique os livros que o filho deveria ler, na opinião dela.
Ao longo dos livros e das histórias, também acompanhamos a evolução da doença de Mary. Uma mulher exemplar, que já atuara em teatros, trabalhava fora e tinha 3 filhos em uma época que isso era reempreendido por outras mães. Fora presidente de diversas comissões, entre elas, a comissão feminina de refugiados. Tivera em diversos paÃses ajudando diversas pessoas. Ela, após alguns anos, confessa que trabalhar, criar 3 filhos, manter uma casa limpa e ainda fazer as coisas que ela gostava não era nada fácil, mas ainda assim, sempre achava tempo para a leitura. Mary comenta: "Acho que me acostumei a estar cansada o tempo todo. Se eu tivesse esperado para ler só quando estivesse descansada, nunca teria lido nada" (p. 218).
Mary é um exemplo de força, determinação e serenidade. Sabia que estava morrendo, sabia que cada dia, cada livro, poderia ser o último. Por isso afirmava que não estava morrendo, estava vivendo. Foi a diversos museus, exposições, viajou, viu pessoas queridas, falou com pessoas queridas e leu os livros que sempre quis. Apesar da dor, nunca reclamava de nada, estava definhando, e ainda assim, dizia à famÃlia que tinha dias "bons" e dias "não tão bons". Tinha feridas, dores, inchaços, prisões de ventre, diarreias, pés inchados e todo tipo de desconforto. Precisava ir frequentemente ao hospital fazer tratamentos, e ainda assim, não se permitia "ficar choramingando". Apesar de tudo, acreditava que tinha sorte. Muita sorte. Tinha uma famÃlia linda, netos lindos, fizera coisas que desejava e a doença, ahh a doença, sempre poderia ser pior. Em algum momento do tratamento, os seus tumores começaram a diminuir, e ela ficara grata com a sorte que tivera. Lembrara então de um conto de um prisioneiro que aguardava julgamento e dissera que não suportaria 5 anos na cadeia. Os outros prisioneiros começaram a receber suas sentenças. Prisioneiro 1: morte. Prisioneiro 2: morte. Prisioneiro 3: morte. Quando chegou a sua vez, recebeu prisão perpétua e se viu grato ao ser condenado a passar o resto da vida preso. Ou seja, para quem escapou da morte, uma prisão perpétua é uma benção, para quem tem um câncer corroendo o seu corpo, a diminuição da doença também é.
Com o livro, compreendemos o poder da leitura, o poder dos livros fÃsicos (que só por existirem já nos tranquilizam). Compreendemos que não lemos para passar o tempo, e muito menos que ler é perda de tempo. Quando lemos, nos conhecemos. Aprendemos que "os livros realmente importam: é com eles que sabemos o que precisamos fazer da vida, e como dizemos isso aos outros, e continuamos próximos" (p. 283). Will conta-nos que, quando o estado de saúde de sua mãe piorara, e ela não saÃa mais da cama, tinha a companhia das pessoas que amava, mas também estava acompanhada dos seus livros. Cada livro era um pedacinho de Mary. Cada exemplar era uma lembrança que Will e sua famÃlia teriam de Mary. Will escreve: "Ela estava cercada de livros - uma parede de estantes, livros no criado-mudo, um livro ao seu lado. [...] As lombadas era de todas as cores, e havia livros de bolso e de capa dura, livros que haviam perdido suas sobrecapas e outros que nunca tiveram uma. Eles eram os companheiros e professores da minha mãe. Tinham lhe mostrado o caminho. E ela podia olhar para eles enquanto se preparava para a vida eterna que sabia que esperava por ela. Que conforto alguém podia ter olhando para o meu leitor digital sem vida?" (p. 278).
A obra conta-nos também a história de uma pessoa incrÃvel, que não se entregou para a doença, que não admitia piedade, nem reclamações de sua parte. Sabia o que iria acontecer e aproveitou cada momento, sendo grata por cada dia, cada livro, cada conversa, cada abraço de amigo. Isso nos faz perceber o quanto reclamamos por coisas idiotas, por dores simples e mal estar passageiros. Como podemos nos sentir um "pobre coitado" por pouca coisa. Mary não se permitia piedade. Uma de suas histórias preferidas era de um menino que havia perdido uma perna, ela então lhe informou as preocupações que outras crianças sentiam pelo menino, mas então ele afirmou: "diga para eles ficarem tranquilos, ainda tenho a outra perna".
Por fim, fiquei pensando como eu reagiria se soubesse que tinha um tempo determinado de vida. O que eu faria? Quem eu veria? Onde eu iria? Que museus e cidades visitaria? Que livros eu leria? Bom, isso eu ainda não sei, só sei que quero muitas pessoas, cidades, museus, livros. Ainda tenho muito o que fazer e muito o que ler. Mas quando não se tem tempo, é preciso primar pela qualidade, é preciso saber o que é importante.
Enfim, o livro é realmente lindo. E como Will lembra-nos, "estamos todos no clube do livro do fim da vida, quer admitamos isso, quer não; cada livro que lemos pode muito bem ser o último, cada conversa pode ser a derradeira" (p. 245).
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| Esta é Mary Anne. |
Trechos lindos:
"Uma das muitas coisas que adoro nos livros impressos é sua mera natureza fÃsica. Os livros eletrônicos vivem fora dos olhos e da mente. Mas os livros impressos têm corpo, presença. É claro que à s vezes fogem de nós, escondendo-se em lugares improváveis: numa caixa cheia de velhos porta-retratos, digamos, ou no cesto de roupa suja, embrulhados num pulôver. Mas, outras vezes, eles nos confortam, e literalmente esbarramos em alguns livros dos quais não tÃnhamos pensado havia semanas ou anos".
"Você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar" Kabat-Zinn (p. 170).
"Eles (os livros) nos lembraram que, onde quer que minha mãe e eu estivéssemos em nossas jornadas individuais, ainda podÃamos compartilhar livros, e enquanto estivéssemos lendo esses livros não serÃamos a pessoa doente e a pessoas saudável; serÃamos apenas uma mãe e um filho adentrando em novos mundos juntos".
"Na saÃda, um amigo cuja a esposa morrera de câncer anos antes disse a ela: "Isto deve ser exaustivo para você." E mamãe não respondeu sim nem não. Apenas sorriu e disse: "É minha última festa".
"Você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar" Kabat-Zinn (p. 170).
"Eles (os livros) nos lembraram que, onde quer que minha mãe e eu estivéssemos em nossas jornadas individuais, ainda podÃamos compartilhar livros, e enquanto estivéssemos lendo esses livros não serÃamos a pessoa doente e a pessoas saudável; serÃamos apenas uma mãe e um filho adentrando em novos mundos juntos".
"Na saÃda, um amigo cuja a esposa morrera de câncer anos antes disse a ela: "Isto deve ser exaustivo para você." E mamãe não respondeu sim nem não. Apenas sorriu e disse: "É minha última festa".
Um breve trecho do livro
Resenhas lindas

