A comunidade virtual
by
Tauana Jeffman
- outubro 30, 2012
Considerado
o primeiro autor a conceituar o termo “comunidade virtual”, Howard Rheingold
(1996, p. 18) afirma que tais comunidades são “agregados sociais que surgem da
rede[1],
quando uma quantidade suficiente de gente leva adiante essas discussões
públicas durante um tempo suficiente, com suficientes sentimentos humanos, para
formar redes de relações pessoais no ciberespaço”. O autor acredita que o seu
mundo tornou-se diferente do que era na época do “pré-moden”, pois agora ele conhece um amplo número de pessoas, de
culturas, de línguas e de costumes por meio das comunidades virtuais. Estas
experiências online se mostram diferentes
de quando Rheingold (1996, p. 19-23) ainda não “navegava” no mundo da internet.
A
noção de “bens coletivos”, proposta por Marc Smith, é uma das bases da
comunidade virtual para Rheingold (1996, p. 26-27). Segundo este, “num mundo
competitivo emergem grupo de indivíduos que cooperam entre si por reconhecerem
que há coisas que só podem ganhar através da união”. Sendo que, “determinar os
bens coletivos de um grupo é um modo de procurar os elementos que transformam
elementos isolados numa comunidade”. Segundo os preceitos de Smith, os bens
coletivos são compostos por três categorias: o capital social, o capital
intelectual e a comunhão. A inteligência coletiva também foi percebida por Rheingold (1996, p. 141), porém, este a nomeou
de “mentes coletivas”, onde a integração de um organismo multifacetado gera uma
“sabedoria coletiva”.
Rheingold
(1996, 13) publica o original de seu livro no ano de 1993, quatro anos antes do
surgimento da primeira rede social online.
O autor abordou a questão sobre comunidades virtuais devido ao seu envolvimento
e ao seu fascínio pela WELL, “um sistema de teletransferência por computador
que permite aos utentes espalhados pelo globo a participação em conversas
públicas e a troca de correspondência privada via correio eletrônico”. Desta
forma, no ano que desenvolveu sua obra, Rheingold (1996, p. 219-221) conhecia
comunidades virtuais onde os indivíduos geralmente utilizavam identidades
falsas e se apresentavam ao grupo através de um pseudônimo. Além disso, como
tais conversações não exibiam as fotos dos internautas, contendo poucas
informações sobre estes, o autor argumenta que os participantes das conversas
em comunidades virtuais poderiam se cruzar na rua e não se reconhecerem.
Contudo,
em 2000, o autor publica um capítulo adicional à sua obra, com o propósito de
repensar as comunidades virtuais, visto que suas teorias foram confrontadas por
outros teóricos, e porque muita coisa mudou no cenário tecnológico, em apenas
sete anos. Rheingold (2000, online)
explana sobre alguns críticos, como Peter Ludlow, onde este afirma que as mudanças
sociais propiciadas pelo desenvolvimento da tecnologia alienaram a sociedade e
a fizeram perder seu sentido verdadeiro de comunidade. No entanto, este
acredita que “cada vez mais, torna-se possível recriar essa comunidade perdida
no ciberespaço, através da formação de comunidades de interesse que não estão
vinculados pelos acidentes da geografia”. No entanto, Ludlow (1996 apud
RHEINGOLD, 2000) questiona se podemos chamar de vizinho, alguém que não
conhecemos. Clifford Stoll (1995 apud RHEINGOLD, 2000) nota que “as redes de computadores nos isolam
um do outro, ao invés de nos unir”. McClellan (1994 apud RHEINGOLD, 2000)
também acredita que vivemos em pseudocomunidades, e que o ciberespaço está nos
tornando solitários, contribuindo para o declínio da verdadeira comunidade. Este
teórico afirma que, “assim como a TV produz batatas de sofá, de certa forma, a
cultura online cria batatas do mouse,
pessoas que se escondem da vida real e passam a vida inteira jogando conversa
fora no ciberespaço”.
Para
Rheingold (2000, online), os críticos
atacaram principalmente o termo “comunidade virtual”, argumentando que a
utilização da palavra “comunidade” degradaria o sentido da comunidade real,
acreditando que as pessoas são “menos humanas entre si no ciberespaço”. O autor
então compreende, que talvez poderia ter evitado tal debate se tivesse
utilizado a expressão “redes sociais online”
ao invés de “comunidades virtuais”. O teórico (1996) acreditava que as
comunidades virtuais desenvolvem-se, basicamente, devido a dois motivos: “à
medida que os espaços públicos ‘reais’ estão diminuindo e, à medida que os entusiastas
percebem a possibilidade de interagir de forma inovadora”. Rheingold (1996, p.
42) argumentava que para Ray Oldenburg, existem três lugares fundamentais: o
local onde vivemos, o local onde trabalhamos e o local onde nos reunimos.
Rheingold (1996) compreendia que “à medida que o modo de vida suburbano baseado
no automóvel, no hipermercado e na comida rápida foi eliminando muitos dos
‘terceiros lugares’ das cidades tradicionais em todo o mundo, o tecido social
das comunidades aí existentes começou a desagregar-se”. Assim, as comunidades virtuais
enquadrar-se-iam nesse terceiro local. No entanto, sete anos após sua
publicação, Rheingold (2000, online)
retifica-se e retira de sua obra original a concepção de que as comunidades
virtuais nasceram devido a “desintegração das comunidades tradicionais de todo
o mundo”.
Cogitamos
que na década de 90, as noções acerca das comunidades virtuais estavam apenas
vivendo seu primeiro momento. Como pioneiro na tarefa de publicar constatações
iniciais, Rheingold (1996) percebeu peculiaridades sobre as comunidades
virtuais que ainda vigoram, mas cometeu alguns equívocos que só puderam ser
percebidos, com o passar dos anos e com o desenvolvimento das noções por ele
trabalhadas. Também foi duramente criticado por autores que argumentavam que as
comunidades virtuais degradariam as comunidades reais, autores convictos de que
no ciberespaço não haveria comunidades, pois os indivíduos estariam tornando-se
cada vez mais isolados, e não membros de um grupo. Como o próprio autor
retificou-se, as comunidades virtuais não sugiram para ocupar o lugar das
comunidades reais, mas sim, para atuarem concomitantemente. Atualmente, também percebemos
que a maioria dos internautas não vivem vidas fictícias nas comunidades, nem se
utilizam de pseudônimos. Com o desenvolvimento das redes sociais na internet,
as pessoas foram incentivadas a criar laços sociais reais, levando para o
ciberespaço as relações que já possuem anteriormente, porém, com a oportunidade
de ampliá-los. Rheingold (1996) é feliz em notar que nas comunidades virtuais
as pessoas se unem por afinidades, gostos em comum, tornando-se membro de um
grupo ao qual se identifica simbolicamente, e não apenas geograficamente. Também
por acreditar que a comunhão é um dos elementos formadores das comunidades
virtuais, noção amplamente defendida por Maffesoli, onde o autor acredita que
nos unimos para a comunhão de elementos em comum, e assim, não estamos nos
isolando, mas unindo-nos. Tencionamos
também que poderia ser um equívoco de Rheingold (2000) acreditar que a
substituição do termo “comunidade virtual” por “redes sociais online” evitaria as críticas
direcionadas à sua obra, fazendo-nos supor que tais noções poderiam atuar como
sinônimos. Contudo, após nossa reflexão sobre as redes sociais na internet, possuímos
o discernimento de que estes dois conceitos são fundamentalmente diferentes.
Comunidade é a “qualidade de comum”[2];
comunidades virtuais, então, são os mundos pequenos formados por pessoas com
afinidades em comum e que se unem por livre escolha, e não por imposições
geográficas. Redes sociais na internet, por sua vez, podem ser entendidas como
a conexão desses vários mundos pequenos, reunindo aglomerados simbólicos que
formam uma rede devido às conexões entre eles. Sendo assim, redes e comunidades
não são sinônimos, pois cada um tem seu fundamento específico no ciberespaço.
[1] Para Rheingold (1996, p. 18), “rede
é o termo informal que designa as redes de computadores interligadas,
empregando a tecnologia de CMC para associar pessoas de todo o mundo na forma
de debates públicos”.
Resumo localizado na internet
Através
de um sistema de teleconferência por computador, é possível que pessoas de todo
o mundo participem de conversas públicas e troquem correspondências através de
correio eletronico. Um desses sistemas de listas de discussão é a WELL - Whole
Earth ‘Lectronic Link.
Nesse tipo de rede de comunicação, as pessoas colocam
também as suas emoções na transferência de informações (que se dá em grande
número e tempo real), tornando-se a rede muitas vezes, um meio para se
conseguir muitas amizades. Essa é uma tendência que está ocorrendo em todo o
mundo: formar grupos sociais de discussão por intermédio dos computadores. A
esses grupos de pessoas são dados o nome de comunidades virtuais, os
quais tem crescido assustadoramente em dimensões e número. Nesses grupos, laços
sociais e normas criam-se e alteram-se
ao longo do tempo, à medida que mais pessoas juntam-se aos grupos, dando início
a autoconstrução de uma nova cultura bastante diversificada, pois nessa rede
não há limites impeditivos de tempo, espaço e cultura.
Para muitas pessoas que participam da WELL, a
comunidade virtual pode se confundir com uma comunidade autêntica, a partir do
momento que a WELL começa a pertencer e reproduzir eminentemente o mundo físico
das pessoas.
Nessas comunidades virtuais encontram-se diálogos e/ou
informações dos mais diversos assuntos: intelectuais, políticos, piadas,
correntes de apoio, trabalho, científicas, lazer, mensagens afetivas, etc. Tudo
com uma característica comum: o que foi escrito já está sendo lido em tempo
real, não havendo a possibilidade de se voltar atrás no envio de mensagens e
informações
“Não existe uma subcultura online única e monolítica,
antes um ecossistema de subculturas, umas frívolas e outras sérias”. (p.16)
A tecnologia necessária à criação das comunidades
virtuais é de custo relativamente baixo
e permite que os indivíduos evoluam intelectual, social, comercial e politicamente.
Porém, não é necessário apenas essa tecnologia para que isso aconteça. É
fundamental que “as suas capacidades latentes sejam conduzidas deliberada e
inteligentemente por uma população esclarecida”(p.17). Através dessas
capacidades latentes, o ser humano foi capaz de estabelecer a ligação entre
duas tecnologias que estavam separadas: o computador e a rede de
telecomunicações. Esses dois elementos constituem os alicerces tecnológicos das
comunicações mediadas por computador (CMC).
“ A rede é o termo informal que designa as redes de
computadores interligadas, empregando a tecnologia de CMC para associar pessoas
de todo o mundo na forma de debates públicos.” (p.18)
“ As comunidades virtuais – uma experiência social não
planejada - são os agregados sociais surgidos na Rede, quando os intervenientes
de um debate o levam por diante em número e sentimento suficientes para
formarem teias de relações pessoais no ciberespaço (espaço conceptual onde se
manifestam palavras, relações humanas, dados, riqueza e poder dos utilizadores
da tecnologia de CMC.” (p.18)
“ Sempre que a tecnologia de CMC se torna acessível em
qualquer lugar, as pessoas inevitavelmente constroem comunidades virtuais com
ela, tal como microorganismos inevitavelmente se constituem em colônias”.(p.19)
Atualmente, essas comunidades virtuais parecem
aumentar mais por dois motivos:
a)
à medida que os
espaços públicos “reais” estão diminuindo e,
b)
à medida que os entusiastas percebem a possibilidade de interagir de forma inovadora.
“ Em virtude da sua influência potencial nas
convicções e percepções de um número tão grande de indivíduos, o futuro da Rede
está ligado ao futuro da comunidade, da democracia, da educação, da ciência e
da vida intelectual – algumas das instituições humanas mais prezadas,
independente da importância dada ao futuro da tecnologia da informática.” (p.
19)
Das necessidades de se explorar as capacidades de
comunicação das redes para construir relações sociais através de barreiras
espaço-temporais e reunir informações atualizadas surgiram as conferências
(discussões) por computador.
“Tal como as diversas tecnologias convergiram nos
últimos dez anos para criar as CMC – um novo meio de comunicação com
características próprias - , diversas estruturas sociais online estão a
convergir e a criar uma cultura internacional com características
próprias.”(p.22)
“ Quando a WELL evoluiu para uma ligação de alta
velocidade à internet, tornou-se não só uma comunidade em desenvolvimento, como
um meio de acesso a uma esfera mais ampla, a rede universal”. (p.23)
As CMC poderão vir a veicular e a refletir os nosso códigos culturais, o
nosso subconsciente social e o nosso auto-conceito, como fizeram os meios de
comunicação em massa que os antecederam. As CMC podem mudar as nossas
vidas em três níveis distintos, mas
fortemente interdependentes:
1° - alterando nossas percepções, pensamentos e
personalidades (posto que somos seres humanos individuais), apelando para
nossas necessidades intelectuais, materiais e emocionais.
2° - no desenvolvimento de nossas relações
interpessoais, amizades e comunidades, conferindo uma nova capacidade de
comunicação multilateral, “de muitos para muitos”, porém o seu futuro depende
do nosso sucesso ou insucesso em aplicá-la.
3° - o nível político, que deriva do nível social,
sendo os meios de comunicação importante para a política nas sociedades
democráticas.
“A relevância política das CMC resulta da sua
capacidade para desafiar o monopólio dos poderosos meios de comunicação detidos
pela hierarquia política e talvez assim revitalizar a democracia dos cidadãos.
À medida que o número de possuidores de canais de telecomunicações se reduz a
uma elite, o alcance e o poder dos media que possuem aumenta, constituindo uma
ameaça emergente para os cidadãos. Os “senhores” da media tem o poder de
determinar qual informação que chega à
maior parte da população”(p.28). Nas CMC não há esse monopólio.
“A questão da comunidade é uma questão de emoções,
assim como de razão e de dados. Alguns dos mais importantes ensinamentos terão
necessariamente de ser colhidos nos quatro cantos do ciberespaço, decorrentes
da vivência no seu interior e da observação dos problemas sentidos pela
comunidades virtuais.”(p.30)
Nas comunidades virtuais (do tipo Well) as pessoas
falam dos seus problemas e das coisas que
lhes dão prazer, procuram ajudar, escrevendo palavras de apoio para
aqueles que estão na rede em busca de apoio. Muitas das pessoas que não tem uma
vida social “real” ativa acabam falando muito sobre suas vidas particulares nas
comunidades virtuais. Não revelando, porém, tudo de si próprias para inspirarem
verdadeira confiança nos demais. Muitas pessoas não participam de diálogos
verbalizados, mas sentem-se a vontade para participar de uma conversa na qual
tenham tempo para pensarem antes de intervirem. Por esse motivo, talvez uma
parte significativa da população considere a comunicação escrita mais autêntica
que a verbal. “Quem critica as CMC devido aos casos de utilização obsessiva toca num ponto sensível da questão, mas falha redondamente quando não leva em
consideração o uso desse meio para a interação humana genuína.” (p.41)
“Segundo Ray Oldenburg em ‘The Great Good Place’,
existem três lugares essenciais na vida: onde vivemos, onde trabalhamos e onde
nos reunimos para conviver. À medida que
o modo de vida suburbano baseado no automóvel, no hipermercado e na comida
rápida foi eliminando muitos dos ‘terceiros lugares’ das cidades tradicionais
em todo o mundo, o tecido social das comunidades aí existentes começou a
desagregar-se.”(p.42) É nesse tipo de situação que as comunidades virtuais podem
enquadrar-se nos ‘terceiros lugares’.
As comunidades virtuais são também uma grande
descoberta para aqueles que, por terem defeitos físicos, tem dificuldades de
fazer amizades. Pois nelas não se vêem como são as pessoas que estão do outro
lado do computador. Nas redes, quem tem defeitos físicos são exatamente iguais
aquelas que são fisicamente perfeitas. São seres racionais, transmissores de
idéias e sentimentos, como todos os outros. As CMC são um meio de estabelecer
contato e manter a distância. Nesses casos é possível primeiro conhecer a
pessoa virtualmente, e depois decidir se quer conhecê-la pessoalmente.
Numa comunidade tradicional, procuramos entre as pessoas
conhecidas aquelas que partilham dos mesmos interesses e gostos, trocam-se
idéias, e por último, tornamo-nos amigos. Numa comunidade virtual, pode-se ir
diretamente aos assuntos preferidos, e então conhecer as pessoas que gostam de
partilhar os mesmos assuntos.




