Cibercultura
Incrível perceber que
Lévy escreveu um livro há 13 anos, e este realiza uma referencia a nossa
sociedade atual. Brilhantemente, o autor advoga em prol do ciberespaço e da Cibercultura.
Afirma que a sociedade se reconecta com ela mesma, onde há uma inteligência coletiva,
advinda da interação e da relação que as pessoas passam a ter, por meio da
internet.
Lévy também questiona
os teóricos que temem a “anarquia” que o ciberespaço poderia proporcionar,
visto que não há hierarquias, nem chefias, ou que o ciberespaço acabará com
outros meios, ou com as relações interpessoais. O autor argumenta que não deve
se temer tais fatos, pois o ciberespaço estimulará as pessoas a desenvolver
conhecimentos, desenvolver aptidões, conhecer-se, conectar-se e interagir, pois
toda a espécie da humanidade se encontra agora, membro de uma mesma sociedade.
Resumo
A hipótese que levanto é que a
cibercultura leva a co-presença das mensagens de volta ao seu contexto como
ocorria nas sociedades orais, mas em outra escala, em uma órbita completamente
diferente. A nova universalidade não depende mais da auto-suficiência dos
textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se
constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio
de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhe
dão sentidos variados em uma renovação permanente. 15
O ciberespaço [...] é o novo meio de
comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela
abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.
Quanto ao neologismo “Cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas
(materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e
de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. 17
O ciberespaço, dispositivo de
comunicação interativo e comunitário, apresenta-se justamente como um dos
instrumentos privilegiados da inteligência coletiva. 29
[...] o crescimento do ciberespaço não
determina automaticamente o desenvolvimento da inteligência coletiva, apenas
fornece a esta inteligência um ambiente propício. 29
[...] a extensão do ciberespaço
acompanha e acelera uma virtualização geral da economia e da sociedade. 49
O virtual não “substitui” o “real”, ele
multiplica as oportunidades para atualizá-lo. 88
A palavra “ciberespaço” foi inventada em
1984 por William Gibson em seu romance de ficção científica Neuromante. No livro, esse termo designa
o universo das redes digitais, descrito como campo de batalha entre as
multinacionais, palco de conflitos mundiais nova fronteira econômica e cultural.
92
O termo foi imediatamente retomado pelos
usuários e criadores de redes digitais. 92
Eu defino o ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela
interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Essa
definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos [...], na
medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou
destinadas à digitalização. Insisto na codificação digital, pois ela condiciona
o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real,
hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação que é, parece-me,
a marca distintiva do ciberespaço. 92.93
A emergência do ciberespaço é fruto de
um verdadeiro movimento social, com seu grupo líder [...], suas palavras de
ordem [...] e suas aspirações coerentes. 123
Se a internet constitui o grande oceano
do novo planeta informacional, é preciso não esquecer dos muitos rios que a
alimentam: redes independentes de empresas, de associações, de universidades,
sem esquecer as mídias clássicas (bibliotecas, museus, jornais, televisão, etc).
É exatamente o conjunto dessa “rede hidrográfica”, até o menor dos BBS, que
constitui o ciberespaço, e não somente a internet. 126
Símbolo do principal florão do
ciberespaço, a internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção
cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por
baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais.
126
[...] três princípios orientaram o
crescimento inicial do ciberespaço: a interconexão, a criação de comunidades
virtuais e a inteligência coletiva. 127
Uma comunidade virtual é constituída sobre
as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um
processo de cooperação ou de troca, tudo isso independente das proximidades
geográficas e das filiações institucionais. 127
A Cibercultura é a expressão da
aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre
links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre as relações de
poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesse comuns, sobre o
jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa,
sobre processos abertos de comunicação. 130
A desterritorialização da biblioteca que
assistimos hoje talvez não seja mais do que o prelúdio para a aparição de um
quarto tipo de relação com o conhecimento. Por uma espécie de retorno em
espiral à oralidade original, o saber poderia ser novamente transmitido pelas
coletividades humanas vivas, e não mais por suportes separados fornecidos por
intérpretes ou sábios. Apenas, dessa vez, contrariamente à realidade arcaica, o
portador direto do saber não seria mais a comunidade física e sua memória
carnal, mas o ciberespaço, a região dos mundos virtuais, por meio do qual as
comunidades descobrem e constroem seus objetos e conhecem a si mesmas como
coletivos inteligentes. 164
O ciberespaço, interconexão dos computadores
do planeta, tende a tornar-se a principal infra-estrutura de produção,
transação e gerenciamentos econômicos. Será em breve o principal equipamento
coletivo internacional da memória, pensamento e comunicação. Em resumo, em
algumas dezenas de anos, o ciberespaço, suas comunidades virtuais, suas
reservas de imagens, suas simulações interativas, sua irresistível proliferação
de textos e de signos, será o mediador essencial da inteligência coletiva da
humanidade. Com esse novo suporte de informação e de comunicação emergem gêneros
de conhecimento inusitados, critérios de avaliação inéditos para orientar o
saber, novos atores na produção e tratamento dos conhecimentos. 167
O ciberespaço é efetivamente um potente
fator de desconcentração e de deslocalização, mas nem por isso elimina os “centros”.
Espontaneamente, seu principal efeito seria antes o de tornar os intermediários
obsoletos e de aumentar as capacidades de controle e de mobilização direta dos nós de poder sobre os
recursos, as competências e os mercados, onde quer que se encontrem. 190
O termo “ciberespaço”, em contrapartida,
indica claramente a abertura de um espaço de comunicação qualitativamente
diferente daqueles que conhecíamos antes dos anos 80. 193
O ponto fundamental é que o ciberespaço,
conexão dos computadores do planeta e dispositivo de comunicação ao mesmo tento
coletivo e interativo, não é uma infra-estrutura: é uma forma de usar as infra-estruturas
existentes e de explorar seus recursos por meio de uma inventividade
distribuída e incessante que é indissociavelmente social e técnica. 193
[...] o ciberespaço é justamente uma alternativa para as mídias de massa
clássicas. 203
O ciberespaço encoraja uma troca
recíproca e comunitária, enquanto as mídias clássicas praticam uma comunicação
unidirecional na qual os receptores estão isolados uns dos outros. Existe,
portanto, uma espécie de antinomia, ou de oposição de princípios, entre as
mídias e a Cibercultura, o que explica o reflexo deformado que uma oferece da
outra para o público. 203
A Word Wide Web é um gigantesco
documento auto-referencial, onde se entrelaçam e dialogam uma multiplicidade de
pontos de vista. 207
Uma das ideias mais errôneas, e talvez a
que tem vida mais longa, representa a substituição pura e simples do antigo
pelo novo, do natural pelo técnico ou do virtual pelo real. 212
A imagem do homem-terminal, cujo espaço
foi abolido, imóvel, grudado à sai tela, não é mais do que um fantasma ditado
pelo medo e pela incompreensão dos fenômenos em andamento de
desterritorialização, de universalização e de aumento geral das relações e contatos de todos os tipos. 214
O desenvolvimento do ciberespaço não vai
“mudar a vida” milagrosamente, nem resolver os problemas econômicos e sociais contemporâneos.
Abre, contudo, novos planos de existência:
- nos
modos de relação: comunicação interativa e comunitária de todos com todos
no centro de espaços informacionais coletivamente e continuamente
reconstruídos;
- nos
modos de conhecimento, de aprendizagem e de pensamento: simulações,
navegações transversais em espaços de informação abertos, inteligência coletiva.
- nos
gêneros literários e artísticos: hiperdocumentos, obras interativas, ambientes
virtuais, coleção coletiva desenvolvida. 218
Os situacionistas denunciavam o espetáculo, ou seja, o tipo de relação
entre os homens cristalizado pelas mídias: há centros que difundem mensagens
para receptores isolados uns dos outros e mantidos em um estado de incapacidade
de resposta. No espetáculo, a única participação possível é o imaginário. Ora,
o ciberespaço propõe um estilo de
comunicação não-midiática por construção, já que é comunitário, transversal
e recíproco. 224
O movimento da Cibercultura é um dos
motores da sociedade contemporânea. Os Estados e os industriais da multimídia o
acompanham como pode, ao mesmo tempo em que resistem com todas as forças frente
ao que percebem como sendo a “anarquia”. 227
A Cibercultura é propagada por um
movimento social muito amplo que anuncia e acarreta uma evolução profunda da
civilização. O papel do pensamento crítico é o de intervir em sua orientação e
suas modalidades de desenvolvimento. Em particular, a crítica progressista pode
esforçar-se para trazer à tona os aspectos mais positivos e originais das
evoluções em andamento. 229
Tentemos ainda apreender a Cibercultura de
seu interior, a partir do movimento social multiforme que ela gera, de acordo
com a originalidade de seus dispositivos de comunicação, demarcando as novas
formas de laços sociais que ela sela no silencio ricamente povoado do
ciberespaço, longe do calor monótono das mídias. 232
Em certo sentido, a Cibercultura continua
a grande tradição da cultura europeia. Em outro, transmuta o conceito de
cultura. 246
Longe de ser uma subcultura dos
fanáticos pela rede, a Cibercultura expressa uma mutação fundamental da própria
essência da cultura. De acordo com a tese que desenvolvi neste estudo, a chave
da cultura do futuro é o conceito de universal sem “totalidade”. Nessa proposição,
“o universal” significa a presença
virtual da humanidade para si mesma. O universal abriga o aqui e agora da
espécie, seu ponto de encontro, um aqui e agora paradoxal, sem lugar nem tempo
claramente definidos. 247
O que é então a totalidade? Trata-se, em minhas palavras, da unidade estabilizada no sentido de uma diversidade. 247
Ora, a
Cibercultura inventa uma outra forma de fazer advir a presença virtual do
humano frente a si mesmo que não pela imposição da unidade de sentido. 248
Ora, a Cibercultura, terceira etapa da
evolução, mantém a universalidade ao mesmo tempo que dissolve a totalidade. Corresponde
ao momento em que nossa espécie, pela globalização econômica, pelo adensamento
das redes de comunicação e de transporte, tende a formar uma única comunidade
mundial, ainda que essa comunidade seja – e quanto! – desigual e conflitante. Única
em seu gênero do mundo animal, a humanidade reúne toda a sua espécie em uma
única sociedade. 249
Longe de deslocar o motivo da “tradição”,
a Cibercultura o inclina em um ângulo de 45 graus para dispô-lo na sincronia
ideal do ciberespaço. A Cibercultura encarna a forma horizontal, simultânea,
puramente espacial, da transmissão. Só encadeia no tempo por acréscimo. Sua principal
operação é a de conectar no espaço, de construir e de entender os rizomas do
sentido. 249
Eis o ciberespaço, a pululação de suas
comunidades, a ramificação entrelaçada de suas obras, como se toda a memória
dos homens se desdobrasse no instante: um imenso ato de inteligência coletiva
sincrônica, convergindo para o presente, clarão silencioso, divergente,
explodindo como uma ramificação de neurônios. 249-250
LÉVY,
Pierre. Cibercultura. São Paulo:
Editora 34, 1999.

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