Comunicação e Tecnologia, por Dominique Wolton

by - outubro 11, 2012


Dominique Wolton 
"Nunca é dito nada de negativo sobre a internet;
 quando alguém ousa lançar ressalva,
é logo tachado de reacionário"
           
         Argumentando sobre a tecnologia, a informação e a comunicação, Wolton (informação verbal)[1] afirma que durante três séculos a humanidade lutou por liberdade, uma liberdade democrática. Falava-se em emancipação. Porém, o pensador ressalta que não existe liberdade de informação, sem liberdade política.  Neste século XXI, argumenta Wolton, vivemos uma dificuldade de informação, pois recebemos uma quantidade extraordinária de informação, o que não significa que nos comunicamos: eis a complexidade da comunicação. Não é pelo fato que a cada dia temos a nossa disposição um número maior de canais de comunicação, que nos compreenderemos mais e melhor, pois "as técnicas não mudam o homem". Wolton destaca que há uma diferença crescente entre a evolução da técnica e a evolução da compreensão, da comunicação. Para o pensador francês, "a mudança do homem é uma mudança política e não uma mudança técnica", sendo que, "em 20 anos, não fizemos nenhuma evolução a respeito da compreensão do homem". Já a técnica, teve drásticas mudanças e evoluções neste período.

Wolton destaca que é preciso respeitar as diferenças culturais, as diferentes línguas, as diferentes culturas. É preciso viver em uma democracia, em uma "sociedade que admite que as pessoas posicionem-se de forma diferente". Mas como nos comunicarmos diante das diferenças? "Podemos coabitar?" "Será que eu aceitarei coabitar com pessoas que não tem nada a me dizer?". A técnica, como já afirmou Wolton, não interfere em nossas comunicações e compreensões, visto que, segundo ele, "há povos estritamente equipados, tanto de tecnologia, quanto de ódio".

O grande problema da humanidade, para Wolton, é "fazer o homem se entender". Mas nós acreditamos que as técnicas irão nos salvar. Doce ilusão, afirma o autor. Infelizmente, de acordo com Wolton, "os homens estão ficando altistas", porque é "mais fácil ficar 12 horas na frente de um computador do que em uma interação humana". A incomuniação é crescente, mesmo com uma comunicação cada vez mais disponível, segundo Wolton. E por que essa dissonância acontece? Um dos motivos é porque "falar é um risco", pois "quando não falamos não nos arriscamos". 

Tais questões também são analisadas na obra Internet, e depois?, onde Wolton (2003, p. 10-13) preocupa-se em entender se a internet configuraria uma real ruptura entre as mídias massivas e as novas mídias ou, segundo ele, essas “mídias individuais coletivas”. Wolton (2003, p. 11-14, grifo do autor) acredita que pensamos ingenuamente ao crer na onipresença do computador. Pensamos ingenuamente quando acreditamos, por meio de um determinismo tecnológico, que a internet é “uma verdadeira revolução que fará surgir uma ‘nova sociedade’, simplesmente porque supõe que a tecnologia vai mudar diretamente a sociedade e os indivíduos”. Desta forma, vivemos “doces utopias”, segundo Wolton (2003, p. 85-86), sendo que nessa perspectiva, “a web torna-se uma figura de utopia”. Uma “utopia igualitária e uma utopia social”, pois acreditamos que na web, todos somos iguais e que a sociedade, estando em maior contato, conversará e se entenderá.

Segundo os preceitos de Wolton (2003, p. 84-89), alguns pensadores estariam apenas repetindo promessas já feitas com outros meios, afirmando que a internet nos possibilitaria viver em uma “sociedade em rede”. Porém, o que Wolton (2003) percebe, é que rumamos para um “movimento de individualização de nossa sociedade”.  A web, então, mesmo tornando-se “um suporte dos eternos sonhos por uma nova solidariedade”, não evitaria a “defasagem entre a qualidade destas utopias e as atuações terrivelmente eficazes dos mercados”.  Wolton (2003, p. 187) acredita que atribuímos à técnica, uma importância exacerbada, e funções que não lhe cabem, pois esse afirma que “o essencial é a maneira com a qual os homens se comunicam entre eles e como uma sociedade organiza suas relações coletivas”. O pensador francês conclui: “as novas tecnologias, como de resto as mídias de massa, remetem à mesma sociedade, a sociedade individualista de massa, com vocações particulares de umas e de outras”. Para Wolton (2003, p. 189), as novas mídias não concorrem com as mídias de massa, mas atuam como um complemento a essas, “em relação ao modelo da sociedade individualista de massa”.

Ainda pensando a internet, Dominique Wonton (2004, p. 149) afirma: “muitos jovens acreditam de bom grado, porque todo mundo diz, que tudo vai mudar com a internet. Para evitar que eles sejam amanhã uma espécie de ‘geração perdida’, vencida pela técnica, é preciso fazer nascer uma reflexão crítica”. Ou seja, é preciso “pensar a internet” através da perspectiva da técnica, da cultura e da sociedade.

Para Wolton (2004, p. 149-150), o internauta deve estar ciente de que “a internet não passa de um sistema automatizado de informação; de uma forma ou de outra, são os homens e as coletividades que integram esses fluxos de informações em suas comunidades”. Isto é, para o autor, a informação é apenas um segmento, pois quem “faz emergir um sentido”, é a comunicação. Nota o autor, que não é aumentando o número de informações que os homens se compreenderão melhor, pois “são os planos culturais e sociais de interpretação das informações que contam não o volume ou a diversidade dessas informações”. E nesse aspecto, Wolton (2004) alerta: “atenção às solidões interativas!”, afirmando que o internauta deve “sair da comunicação mediatizada” e praticar as interações humanas, naturais, pessoais, presentes. O internauta deve sair para ouvir as vozes e olhar os olhares. 

Sobre a revolução da internet, Wolton (2004, p. 153) argumenta que é preciso relativizá-la. Para o autor, “relativizar é também [...] compreender que a sociedade da informação corre o risco de ser amanhã a sociedade do mesmo, porque ela favorece a ligação entre indivíduos e comunidades que se parecem, deixando de lado a questão da heterogeneidade”. É preciso aprender a conviver com as diferenças, é preciso saber coabitar, e isso é uma questão política, e não técnica. O teórico argumenta ainda, que “o que está em jogo hoje é resistir à segmentação da sociedade em pequenas comunidades para preservar esse mínimo de sentimento de coletividade sem o qual não há sociedade”. Wolton (2004, p. 154) é enfático ao afirmar que:

Se os internautas convencidos de uma Internet democrática querem conservar uma real iniciativa, é preciso uma aliança entre eles e todas as forças culturais, sociais e políticas que compreenderam que a comunicação é um dos maiores desafios da sociedade de amanhã. Isso obriga a revalorizar uma visão humanista das ligações entre informações e comunicação do conceito ‘com’, seguidamente relacionado ao marketing e à manipulação, enquanto a informação é subvalorizada, como se ela permanecesse o gênero raro que era no século das luzes. 

Nessa visão humanista, Wolton (2004, p. 155) destaca que o homem precisa se relacionar mais com a natureza, com o ambiente físico. Enfim, é preciso viver mais ao ar livre, pois o homem necessita dos confrontos das “ligações humanas e com a diversidade das relações sociais na sociedade”. E pensando nessa diversidade, percebemos a perversidade da sociedade da informação, pois “homogeneíza tudo e faz desaparecer o homem por detrás dos fluxos da informação”. Para o autor, é preciso preservar o homem, juntamente com suas forças, suas fraquezas e suas contradições, porque só o homem “sonha o futuro, pensa sua história e dá sentido a sua experiência”. 

A visão de Dominique Wolton nos leva a, no mínimo, duas constatações antagônicas: a primeira é que o pensador é feliz em afirmar que o desenvolvimento tecnológico não significa obrigatoriamente o desenvolvimento social, pois o mesmo necessita também de um desenvolvimento econômico e cultural. A proliferação de informações e o grande acesso a essas, também não nos garante que possamos nos comunicar mais e melhor, pois informação é diferente de comunicação. Comunicação pressupõe compreensão, pressupõe saber e querer coabitar com as diferenças. Nesse sentido, apesar do incrível desenvolvimento da internet e sua disseminação veloz, sabemos que nem metade dos brasileiros, por exemplo, possuem internet em casa, muitos são aqueles que não acessam a internet, ou ao menos tem contato com o computador. Por isso, devemos também considerar que, quando falamos nas modificações que a internet e as redes sociais estão promovendo, devemos nos lembrar de que tais modificações ainda não afetam um amplo número de pessoas. 
            Por outro lado, quando Wolton (2003, p. 91) pensa o “depois” da internet, ele reflete um tempo em que o correio eletrônico é “uma das causas profundas do sucesso da web”. Ou seja, passaram-se quase 10 anos, e não só o e-mail deixou de ser uma das principais atrações do usuário da internet, como foram criadas as redes sociais. No ano de 2003, o Facebook, o Orkut e o Twitter sequer existiam, e é inegável que com a criação e a disseminação dessas três plataformas, entre outras, as configurações sociais na web modificaram-se drasticamente. 










[1] Informação verbal fornecida no dia 22 de junho de 2012, durante o evento 7º Fórum Político Unimed/RS - "Pensar o mundo, olhar a cidade", na cidade de Porto Alegre – RS.

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