Comunicação e Tecnologia, por Dominique Wolton
Dominique Wolton
"Nunca é dito nada de negativo sobre a internet;
quando alguém ousa lançar ressalva,
é logo tachado de reacionário"
Argumentando sobre a tecnologia, a
informação e a comunicação, Wolton (informação verbal)[1]
afirma que durante três séculos a humanidade lutou por liberdade, uma liberdade
democrática. Falava-se em emancipação. Porém, o pensador ressalta que não
existe liberdade de informação, sem liberdade política. Neste século XXI, argumenta Wolton, vivemos
uma dificuldade de informação, pois recebemos uma quantidade extraordinária de
informação, o que não significa que nos comunicamos: eis a complexidade da
comunicação. Não é pelo fato que a cada dia temos a nossa disposição um número
maior de canais de comunicação, que nos compreenderemos mais e melhor, pois
"as técnicas não mudam o homem". Wolton destaca que há uma diferença
crescente entre a evolução da técnica e a evolução da compreensão, da
comunicação. Para o pensador francês, "a mudança do homem é uma mudança
política e não uma mudança técnica", sendo que, "em 20 anos, não
fizemos nenhuma evolução a respeito da compreensão do homem". Já a
técnica, teve drásticas mudanças e evoluções neste período.
Wolton destaca que é
preciso respeitar as diferenças culturais, as diferentes línguas, as diferentes
culturas. É preciso viver em uma democracia, em uma "sociedade que admite
que as pessoas posicionem-se de forma diferente". Mas como nos
comunicarmos diante das diferenças? "Podemos coabitar?" "Será
que eu aceitarei coabitar com pessoas que não tem nada a me dizer?". A
técnica, como já afirmou Wolton, não interfere em nossas comunicações e compreensões,
visto que, segundo ele, "há povos estritamente equipados, tanto de
tecnologia, quanto de ódio".
O grande problema da
humanidade, para Wolton, é "fazer o homem se entender". Mas nós
acreditamos que as técnicas irão nos salvar. Doce ilusão, afirma o autor.
Infelizmente, de acordo com Wolton, "os homens estão ficando
altistas", porque é "mais fácil ficar 12 horas na frente de um
computador do que em uma interação humana". A incomuniação é crescente,
mesmo com uma comunicação cada vez mais disponível, segundo Wolton. E por que
essa dissonância acontece? Um dos motivos é porque "falar é um
risco", pois "quando não falamos não nos arriscamos".
Tais questões também
são analisadas na obra Internet, e
depois?, onde Wolton (2003, p. 10-13) preocupa-se em entender se a internet
configuraria uma real ruptura entre as mídias massivas e as novas mídias ou,
segundo ele, essas “mídias individuais coletivas”. Wolton (2003, p. 11-14,
grifo do autor) acredita que pensamos ingenuamente ao crer na onipresença do computador.
Pensamos ingenuamente quando acreditamos, por meio de um determinismo
tecnológico, que a internet é “uma verdadeira revolução que fará surgir uma
‘nova sociedade’, simplesmente porque supõe que a tecnologia vai mudar diretamente a sociedade e os indivíduos”.
Desta forma, vivemos “doces utopias”, segundo Wolton (2003, p. 85-86), sendo
que nessa perspectiva, “a web torna-se uma figura de utopia”. Uma “utopia
igualitária e uma utopia social”, pois acreditamos que na web, todos somos
iguais e que a sociedade, estando em maior contato, conversará e se entenderá.
Segundo os preceitos de
Wolton (2003, p. 84-89), alguns pensadores estariam apenas repetindo promessas
já feitas com outros meios, afirmando que a internet nos possibilitaria viver
em uma “sociedade em rede”. Porém, o que Wolton (2003) percebe, é que rumamos
para um “movimento de individualização de nossa sociedade”. A web, então, mesmo tornando-se “um suporte
dos eternos sonhos por uma nova solidariedade”, não evitaria a “defasagem entre
a qualidade destas utopias e as atuações terrivelmente eficazes dos
mercados”. Wolton (2003, p. 187)
acredita que atribuímos à técnica, uma importância exacerbada, e funções que
não lhe cabem, pois esse afirma que “o essencial é a maneira com a qual os
homens se comunicam entre eles e como uma sociedade organiza suas relações
coletivas”. O pensador francês conclui: “as novas tecnologias, como de resto as
mídias de massa, remetem à mesma sociedade, a sociedade individualista de
massa, com vocações particulares de umas e de outras”. Para Wolton (2003, p.
189), as novas mídias não concorrem com as mídias de massa, mas atuam como um
complemento a essas, “em relação ao modelo da sociedade individualista de
massa”.
Ainda
pensando a internet, Dominique Wonton (2004, p. 149) afirma: “muitos jovens
acreditam de bom grado, porque todo mundo diz, que tudo vai mudar com a
internet. Para evitar que eles sejam amanhã uma espécie de ‘geração perdida’,
vencida pela técnica, é preciso fazer nascer uma reflexão crítica”. Ou seja, é
preciso “pensar a internet” através da perspectiva da técnica, da cultura e da
sociedade.
Para
Wolton (2004, p. 149-150), o internauta deve estar ciente de que “a internet
não passa de um sistema automatizado de informação; de uma forma ou de outra,
são os homens e as coletividades que integram esses fluxos de informações em
suas comunidades”. Isto é, para o autor, a informação é apenas um segmento,
pois quem “faz emergir um sentido”, é a comunicação. Nota o autor, que não é
aumentando o número de informações que os homens se compreenderão melhor, pois
“são os planos culturais e sociais de interpretação das informações que contam
não o volume ou a diversidade dessas informações”. E nesse aspecto, Wolton
(2004) alerta: “atenção às solidões interativas!”, afirmando que o internauta
deve “sair da comunicação mediatizada” e praticar as interações humanas,
naturais, pessoais, presentes. O internauta deve sair para ouvir as vozes e
olhar os olhares.
Sobre
a revolução da internet, Wolton (2004, p. 153) argumenta que é preciso
relativizá-la. Para o autor, “relativizar é também [...] compreender que a
sociedade da informação corre o risco de ser amanhã a sociedade do mesmo,
porque ela favorece a ligação entre indivíduos e comunidades que se parecem,
deixando de lado a questão da heterogeneidade”. É preciso aprender a conviver
com as diferenças, é preciso saber coabitar, e isso é uma questão política, e
não técnica. O teórico argumenta ainda, que “o que está em jogo hoje é resistir
à segmentação da sociedade em pequenas comunidades para preservar esse mínimo
de sentimento de coletividade sem o qual não há sociedade”. Wolton (2004, p.
154) é enfático ao afirmar que:
Se os
internautas convencidos de uma Internet democrática querem conservar uma real
iniciativa, é preciso uma aliança entre eles e todas as forças culturais,
sociais e políticas que compreenderam que a comunicação é um dos maiores
desafios da sociedade de amanhã. Isso obriga a revalorizar uma visão humanista
das ligações entre informações e comunicação do conceito ‘com’, seguidamente
relacionado ao marketing e à manipulação, enquanto a informação é
subvalorizada, como se ela permanecesse o gênero raro que era no século das
luzes.
Nessa
visão humanista, Wolton (2004, p. 155) destaca que o homem precisa se
relacionar mais com a natureza, com o ambiente físico. Enfim, é preciso viver
mais ao ar livre, pois o homem necessita dos confrontos das “ligações humanas e
com a diversidade das relações sociais na sociedade”. E pensando nessa
diversidade, percebemos a perversidade da sociedade da informação, pois
“homogeneíza tudo e faz desaparecer o homem por detrás dos fluxos da
informação”. Para o autor, é preciso preservar o homem, juntamente com suas
forças, suas fraquezas e suas contradições, porque só o homem “sonha o futuro,
pensa sua história e dá sentido a sua experiência”.
A
visão de Dominique Wolton nos leva a, no mínimo, duas constatações antagônicas:
a primeira é que o pensador é feliz em afirmar que o desenvolvimento
tecnológico não significa obrigatoriamente o desenvolvimento social, pois o
mesmo necessita também de um desenvolvimento econômico e cultural. A
proliferação de informações e o grande acesso a essas, também não nos garante
que possamos nos comunicar mais e melhor, pois informação é diferente de
comunicação. Comunicação pressupõe compreensão, pressupõe saber e querer
coabitar com as diferenças. Nesse sentido, apesar do incrível desenvolvimento
da internet e sua disseminação veloz, sabemos que nem metade dos brasileiros,
por exemplo, possuem internet em casa, muitos são aqueles que não acessam a
internet, ou ao menos tem contato com o computador. Por isso, devemos também
considerar que, quando falamos nas modificações que a internet e as redes
sociais estão promovendo, devemos nos lembrar de que tais modificações ainda
não afetam um amplo número de pessoas.
Por
outro lado, quando Wolton (2003, p. 91) pensa o “depois” da internet, ele
reflete um tempo em que o correio eletrônico é “uma das causas profundas do
sucesso da web”. Ou seja, passaram-se quase 10 anos, e não só o e-mail deixou
de ser uma das principais atrações do usuário da internet, como foram criadas
as redes sociais. No ano de 2003, o Facebook, o Orkut e o Twitter sequer
existiam, e é inegável que com a criação e a disseminação dessas três
plataformas, entre outras, as configurações sociais na web modificaram-se
drasticamente.
[1] Informação verbal fornecida no
dia 22 de junho de 2012, durante o evento 7º Fórum Político Unimed/RS -
"Pensar o mundo, olhar a cidade", na cidade de Porto Alegre – RS.

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