Getúlio Vargas, o Brasil e os Estados Unidos
by
Tauana Jeffman
- julho 05, 2012
Para Tota (2000, p. 10),
foi em meados dos anos 1942 que a região norte do Brasil recebeu soldados
americanos em virtude da Segunda Guerra Mundial. O autor acredita que “quando o
primeiro tabaréu, observando os aviões e os pilotos americanos com seus gestos,
mimetizou o ‘positivo’, com o dedão para cima, o Brasil já estava
americanizado”. Tota (2000, p. 10) percebe que o convÃvio entre soldados
americanos e nordestinos, iniciou a influência norte-americana em nosso paÃs,
visto que os brasileiros começaram a abandonar o gesto de “apertar o nódulo da
orelha com os dedos”, para comunicar algo de bom e passaram a utilizar o
polegar para cima (thumbs up) para
comunicar concordância, amizade, interrogação, bom dia, boa tarde, entre outras
utilizações. Sublinha Levine (2001, p. 166) que com o fim da Segunda Guerra
Mundial, o Brasil passou a depender mais dos Estados Unidos, e com isso, cada
vez mais “exposto a sua influência cultural”, que chega até nosso paÃs por meio
“da publicidade, do cinema, dos bens de consumo e da ação direta do
comportamento dos milhares de soldados americanos servindo nas bases militares
brasileiras durante a guerra”.
Com a americanização, a
contemplação e inspiração que antes advinha da França, passou para os Estados
Unidos. No século XIX, as culturas francesa e inglesa eram adoradas pelos
brasileiros instruÃdos, e a partir da Segunda Guerra Mundial, principalmente, a
cultura norte-americana começou a influenciar os brasileiros, como já
mencionamos. Os Estados Unidos buscavam uma forma sutil de influência, e ela
veio em 1933, quando o presidente Roosevelt anunciou a “PolÃtica da Boa
Vizinhança”. Através de sua “colaboração”, os Estados Unidos continuariam
exercendo suas pressões nos paÃses Latino-Americanos (SCHMIDT, 1997, p. 283). Assim,
nos anos 40, o Brasil foi bombardeado por mercadorias norte-americanas e os
brasileiros passaram a se deparar com as lâmpadas e rádios General Eletric, o
sabonete Palmolive, a Kolynos, o talco Night & Day, os filmes Kodak, a
aveia Quaker, os enlatados Swift e a Coca-Cola. ![]() |
| Cartaz publicitário da Coca-Cola. |
As mercadorias brasileiras passaram a transmitir também os conceitos norte-americanos, como na figura a seguir, pois percebemos o personagem americano Pato Donald anunciando o Guaraná Antarctica. O que se percebe, é que a cultura dos Estados Unidos influenciou, tanto com seus próprios produtos, quanto nas publicidades de produtos ditos, atualmente, com essência brasileira.
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| Cartaz publicitário do Guaraná Antártica, de 1943. |
O cinema de Hollywood
encantava as multidões, lembrando-nos de que nessa época ainda não existia
televisão no Brasil, e os brasileiros tinham contato com o audiovisual somente
através das telas de cinema. A figura a seguir mostra um cartaz de filme
musical de Hollywood, “contando histórias alegres e num clima de sonho e
fantasia” (SCHMIDT, 2002, p. 125). Os EUA enviavam, gratuitamente, centenas de
documentários para serem exibidos no começo das sessões brasileiras. Através
destes, transmitiam à população do Brasil, a impressão de que era um paÃs perfeito
composto por famÃlias perfeitas. Ficava difÃcil não acreditar que os EUA era um
paÃs digno de ser copiado e admirado. De acordo com Levine (2001, p. 99), no
ano de 1942 “o Escritório de Negócios Inter-Americanos dos Estados Unidos [...]
enviou produtores de filmes, cineastas, grupos de dança e estudiosos ao Brasil,
como parte da polÃtica da Boa Vizinhança”.
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| Cartaz de um musical norte-americano. |
Também através da dita “PolÃtica
da Boa Vizinhança”, Walt Disney elaborou filmes apresentando “as maravilhas do
Brasil”, porém não aparecem baianas negras ou mulatas, e sim o brasileiro
representado pela figura estereotipada do personagem Zé Carioca, estrelando com
o amigo norte-americano Pato Donald.
Segundo Seraphim (2008), o personagem brasileiro foi “criado no começo
da década de 40, pelos estúdios Walt Disney, em uma turnê pela América Latina,
que fazia parte dos esforços dos Estados Unidos para reunir aliados durante a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945)”, através da já mencionada “PolÃtica da Boa Vizinhança”.
De acordo com Oliveira
(2006), Zé Carioca foi criado em 1942 para atuar no filme Saludo Amigos (Alô Amigos), fazendo tanto sucesso que em 1945,
estrela outro filme sobre o Brasil, Você
já foi à Bahia? (The Threes
Caballeros). Segundo Santos (2002, p. 03), o filme mostra o “pedaço mais
exótico do continente americano”, na visão de Walt Disney. O personagem
apresenta a Bahia para seu amigo americano Pato Donald, sempre de modo
hospitaleiro, afável e alegre. Para Santos (2002, p. 3), Zé Carioca é a
“personificação do ‘homem cordial’, o brasileiro ‘boa praça’, animado, que
trata os amigos com efusão e desprendimento”.
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Capa do filme da
Disney, Você já foi à Bahia? - 1944.
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Através dos filmes e do
próprio personagem Zé Carioca, percebemos que nessa época o Brasil e o povo
brasileiro eram relacionados ao carnaval, boemia, festas, samba e cachaça. Além
do Zé Carioca, a portuguesa naturalizada brasileira, Carmem Miranda, também
encantava o mundo com seu rebolado e seu chapéu ornamentado com frutas, tanto
nos momentos em que se apresentava para o grande público com suas músicas como O que é que a baiana tem, quanto em seus
filmes como Yes, nós temos bananas.
IntuÃmos que, de uma forma geral, o contexto da “nacionalidade brasileira”
estava muito presente e ganhando cada vez mais proporções, tanto pela
fomentação do governo, quando por outros meios, apesar da demanda de produtos
norte-americanos que chegavam ao Brasil. Um paradoxo se compreendermos que o
Brasil vivia uma americanização nacionalista.
PolÃticos e
intelectuais americanos também começaram a interessar-se pelo Brasil. Antes do
Presidente americano Franklin Roosevelt visitar o Brasil através da “PolÃtica
da Boa Vizinhança”, o Presidente americano Herbert Hoover, no perÃodo de 1928,
visitava os paÃses latino-americanos com a pretensão de modificar “alguns
aspectos importantes da polÃtica externa americana”, segundo Tota (2000, p.
28). Hoover não foi muito bem recebido em alguns paÃses, como Argentina e o
Uruguai. Já o Brasil, recebeu o então presidente americano com uma calorosa
recepção, no dia 21 de dezembro de 1928. Os Estados Unidos era um dos
principais importadores de café do Brasil, chegando a comprar cerca de 28% da
produção cafeeira brasileira.
Alguns anos depois, em novembro
de 1936, o Rio de Janeiro recebe a visita de outro presidente americano,
Franklin Roosevelt. Nesta ocasião, Franklin Roosevelt falava em seu discurso,
que Getúlio Vargas era “uma das pessoas que tinham inventado o New Deal”. O
presidente americano atribuÃa também a Getúlio Vargas o mérito de ter inventado
a série de programas implementados nos Estados Unidos, que significa “novo
acordo” e objetivava recuperar e reformar a economia americana, após a Grande
Depressão. Assim como o presidente americano, Getúlio Vargas sabia tirar
proveito da polÃtica da “Boa Vizinhança”, pois era um “operador polÃtico
astuto”, nota Levine (2001, p. 166).
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| Getúlio Vargas e Roosevelt no Rio de Janeiro, em 1936. |
No
inÃcio do ano de 1943, Getúlio Vargas recebe novamente o então presidente dos
Estados Unidos, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte.
Para Levine (2001, p. 24), Getúlio Vargas e seus “contemporâneos
corporativistas e populistas” tinha em comum com os Estados Unidos, o objetivo
de endossar “amplos programas governamentais para atender ao bem-estar social”.
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| Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt na cidade de Natal em janeiro de 1943. |
De acordo com Ribeiro
(2001, p. 341), o presidente americano Franklin Roosevelt enviou ao Brasil o
escultor Jo Davidson para fazer o busto de Getúlio Vargas, no ano de 1941. Os
Estados Unidos patrocinou o artista para que este esculpisse os bustos dos
presidentes da América do Sul, sendo Getúlio Vargas um dos 11 homenageados. O
busto do Presidente do Brasil foi exposto no ano de 1942, na National Gallery
of Art de Washington, juntamente com outros trabalhos do escultor, dentre elas
os bustos do Presidente americano, Franklin D. Roosevelt, e de seu vice, Henry
Wallace.
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| O escultor americano Davidson confeccionando o busto de Getúlio Vargas. |
Getúlio Vargas soube
barganhar prestÃgio com os Estados Unidos, e com seu presidente. Com o
estreitamento da relação, e com a “PolÃtica da Boa Vizinhança”, soube trazer
vantagens para o Brasil, com sua boa relação com outros paÃses. Dentro deste
contexto de americanização, Tota (2000, p. 193) afirma-nos que um “povo só
incorpora um determinado valor cultural de outro povo se ele fizer sentido no
conjunto da sua cultura”. Ou seja, não apenas copiamos a cultura e o pensamento
daqueles que nos inspiram, mas os recriamos conforme nossas peculiaridades,
pois essa apropriação cultural “não é feita em blocos”.
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| O imperialismo sedutor |







