Cultura e Arte do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura

by - outubro 02, 2012




Lúcia Santaella

Cultura das mídias. Ela não se confunde nem com a cultura de massas, de um lado, nem com a cultura digital ou a Cibercultura de outro. É, isto sim, uma cultura intermediária, situada entre ambas. Quer dizer, a cultura digital não brotou diretamente da cultura de massas, mas foi sendo semeada por processos de produção, distribuição e consumo comunicacionais a que chamo de “cultura das mídias”. 13

Para compreender tais passagens, que considero sutis, tenho utilizado uma divisão das eras culturais em seis tipos de formações: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura de massas, a cultura das mídias e a cultura digital. Antes de tudo, deve ser declarado que essas divisões estão pautadas na convicção de que os meios de comunicação, desde o aparelho fonador até as redes digitais atuais, embora, efetivamente, não passem de meros canais para a transmissão de informações, os tipos de signos que por eles circulam, os tipos de mensagens que engendram e os tipos de comunicação que possibilitam são capazes não só de moldar o pensamento e a sensibilidade dos seres humanos, mas também de propiciar o surgimento de novos ambientes culturais. 13

Castells (apud SANTAELLA) Em resumo, a nova mídia determina uma audiência segmentada, diferenciada que, embora maciça em termos de números, já não é uma audiência de massa em termos de simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida. A nova mídia não é mais mídia de massa no sentido tradicional do envio de um número limitado de mensagens a uma audiência homogênea de massa. Devido à multiplicação de mensagens e fontes, a própria audiência torna-se mais seletiva. A audiência visada tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentação, intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor. 16-17

Uma diferença gritante entre a cultura das mídias e a cultura digital [...] está no fato muito evidente de que, nesta última, está ocorrendo a convergência das mídias [...], um fenômeno muito distinto da convergência das mídias típicas da cultura da mídia. 17

Como diz Lunenfeld (1999b, p. 3-7), em um período de tempo impressionantemente curto, o computador colonizou a produção cultural. Uma máquina que estava destinada a mastigar números, começou a mastigar tudo: da linguagem impressa à música, da fotografia ao cinema. Isso fez da “cibernética a alquimia do nosso tempo e do computador seu solvente universal. Neste, todas as diferentes mídias se dissolvem em um fluxo pulsante de bits e bytes”. 20

A aliança entre computador e redes fez surgir o primeiro sistema amplamente disseminado que dá ao usuário a oportunidade de criar, distribuir, receber e consumir conteúdo audiovisual em um só equipamento. Uma máquina de calcular que foi forçada a virar máquina de escrever há poucas décadas, agora combina as funções de criação, de  distribuição e de recepção de uma vasta variedade de outras mídias dentro de uma mesma caixa. 20

Cultura, em todos os seus sentidos, social, intelectual ou artístico é uma metáfora derivada da palavra cultura, que, no seu sentido original, significa o ato de cultivar o solo. 29

Se mistura é espírito, como dizia Paul Valéry, e a cultura é a morada do espírito, então cultura é mistura. Embora se apresente como uma simples brincadeira silogística, aí está anunciada uma condição fundamental para se entender o que está acontecendo com a cultura nas sociedades pós-industriais, pós-modernas, sociedades globalizadas deste início do século. 30

[...] a cultura é parte do ambiente que é feita pelo homem. Implícito nisso está o reconhecimento de que a vida humana é vivida num contexto duplo. O habitat natural e seu ambiente social. A definição também implica que a cultura é mais do que um fenômeno biológico. Ela inclui todos os elementos do legado humano maduro que foi adquirido através do seu grupo pela aprendizagem consciente, ou, num nível algo diferente, por processos de condicionamento – técnicas de várias espécies, sociais e institucionais, crenças, modos padronizados de conduta. A cultura, enfim, pode ser contrastada com os materiais brutos, interiores ou exteriores, dos quais ela deriva. Recursos apresentados pelo mundo natural são formatados para vir ao encontro de necessidades existentes. 31

Apesar da dificuldade, uma tentativa desse tipo foi feita, em 1953, quando os antropólogos A. L. Kroeber e Clyde Kluchhohn puseram em discussão nada menos do que 164 definições de cultura. De todo esse recenseamento, os autores extraíram seis categorias:
a) descritiva, com ênfase nos caracteres gerais que definem a cultura;
b) histórica, com ênfase na tradição
c) normativa, enfatizando as regras e valores
d) psicológica, enfatizando por exemplo, o aprendizado e o hábito;
e) estrutural, com ênfase nos padrões e
f) genética. 32

essas seis categorias podem ser reduzidas a dois tipos de definições principais: uma definição restrita, restritiva mesmo, que utiliza o termo para a descrição da organização simbólica de um grupo, da transmissão dessa organização e do conjunto de valores apoiando a representação que o grupo se faz de si mesmo, de suas relações com outros grupos e de sua relação com o universo natural; e um segundo tipo mais amplo de definição que não contradiz o primeiro, de acordo com o qual a cultura se refere aos costumes, às crenças, à língua, às ideias, aos gostos estéticos e ao conhecimento técnico, que dão subsídios à organização do ambiente totalmente técnico, que dão subsídios à organização do ambiente total humano, quer dizer, a cultura material, os utensílios, o habitat e, mais geralmente, todo o conjunto tecnológico transmissível, regulando as relações e os comportamentos de um grupo social com o ambiente (Martinon, 1985, P. 873).

É dessas duas concepções que derivam os sentidos de cultura que se tornaram correntes: o sentido lato e o sentido estrito. Tal como é entendido nos estudos de historiadores, sociólogos e antropólogos, o sentido lato descreve todos os aspectos característicos de uma forma particular de vida humana. O sentido estrito é uma província das humanidades, cujo objetivo é interpretar e transmitir às gerações futuras o sistema de valores em função dos quais os participantes em uma forma de vida encontram significado e propósito. Em ambos os sentidos, a cultura pode ser pensada como um agente causal que afeta o processo evolutivo através de meios exclusivamente humanos, na medida em que permite a avaliação autoconsciente das possibilidades humanas à luz de um sistema de valores que reflete as ideias prevalecentes sobre o que a vida humana deveria ser. A cultura é, assim, um recurso indispensável para o crescimento do controle humano sobre a direção em que nossa espécie muda (Honderich, 1995, p. 172). 34

No seu Primitive Culture, em 1871, Tylor definiu a cultura como um todo complexo que incluui conhecimento, crença, arte, lei, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. 36-37

[...] a cultura, como queria Herder, é uma interação incessante de tradição e mudanças as quais, antes de representar forçar polares, são partes de um mesmo continuum. Embora haja tensão entre essas duas forças, a mudança não pode ser explicada sem o reconhecimento da persistência e vice-versa (Barnard, 1973, p. 621)   46

Todas as formações sociais, desde as mais simples até as mais complexas, apresentam três territórios inter-relacionados: o território econômico, o político e o cultural. Embora essa divisão seja simplificadora, tendo em vista a enorme complexidade das sociedades atuais, ela serve para delinear o lugar ocupado pela cultura na sociedade. 51

[...] há duas concepções básicas de cultura, as humanistas, de um lado, e as antropológicas, de outro. As primeiras são seletivas, concebendo como culturais apenas alguns segmentos da produção humana em detrimento de outros considerados não-culturais. As antropológicas são não-seletivas, pois aplicam o termo cultura à trama total da vida humana numa dada sociedade, à herança social inteira e a qualquer coisa que possa ser adicionada a ela. 51

[...] as mídias tendem a se engendrar como redes que se interligam e nas quais cada mídia particular – livro, jornal, TV, rádio, revista etc – tem uma função que lhe é específica. É a cultura como um todo que a cultura das mídias tende a colocar em movimento, acelerando o tráfego entre suas múltiplas formas, níveis, setores, tempos e espaços. 53

Na esteira que nos foi legada por Walter Benjamin (1985), o ponto de vista mais fundamental para se compreender a dinâmica cultural é o produtivo, a cultura vista como um tipo muito especial de produção humana. Esse tipo se divide em quatro níveis indissociavelmente conectados:
a) o nível da produção em si;
b) o da conservação dos produtos culturais, ligados à memória;
c) o da circulação e difusão, ligado à distribuição e comunicação culturais;
d) o da recepção desses produtos, isto é, como são percebidos, absorvidos consumidos pelo receptor.  54-55

[...] a cultura midiática propicia a circulação mais fluida e as articulações mais complexas dos níveis, gêneros e formas de cultura, produzindo o cruzamento de suas identidades. Inseparável do crescimento acelerado das tecnologias comunicacionais, a cultura midiática é responsável pela ampliação dos mercados culturais e pela expansão e criação de novos hábitos de consumo de cultura. 59

[...] revolução digital. No cerne dessa revolução está a possibilidade aberta pelo computador de converter toda informação – texto, som, imagem, vídeo – em uma mesma linguagem universal. 59

No sentido mais estrito, mídia se refere especificamente aos meios de comunicação de massa, especialmente aos meios de transmissão de notícias e informações, tais como jornal, rádio, revista e televisão. Seu sentido pode se ampliar a se referir a qualquer meio de comunicação de massas, não apenas as que transmitem notícias. 61-62

Também podemos chamar de mídia, todos os meios que a publicidade se serve [...]. Em todos os sentidos, a palavra “mídia” está se referindo aos meios de comunicação de massa. 62

[...] hoje estamos no meio de uma revolução nas mídias e uma virada nas formas de produção, distribuição e comunicação mediadas por computador que deverá trazer consequências muito mais profundas do que as anteriores. É nesse sentido que estarei empregando a expressão “mídias digitais” nesta indicação de caminhos heterotópicos para a sua leitura crítica. 64

O crescimento da multiplicidade das mídias, a multiplicação de suas mensagens e fontes foi dando margem ao surgimento de receptores mais seletivos, individualizados, o que foi, sem dúvida, preparando o terreno para a cultura digital, na medida em que esta exige receptores atuantes, caçadores em busca de presar informacionais de sua própria escolha. 68

Todavia, sem as poderosas tecnologias comunicacionais atuais, a globalização não teria sido possível. As consequências dessas tecnologias para a comunicação e a cultura são remarcáveis. Estamos, sem dúvida, entrando numa revolução da informação e da comunicação sem precedentes que vem sendo chamada de revolução digital. 70

Aliada à telecomunicação, a informática permite que esses dados cruzem oceanos, continentes, hemisférios, conectando potencialmente qualquer ser humano no globo numa mesma rede gigantesca de transmissão e acesso que vem sendo chamada de ciberespaço. 71

[...] tem havido duas tendências principais no tratamento crítico das supervias informacionais e da Cibercultura que nelas se gera: a tendência eufórica e a tendência disfórica. 72

O ciberespaço é um fenômeno remarcavelmente complexo que não pode ser categorizado a partir do ponto de vista de qualquer mídia prévia. Nele, a comunicação é interativa, ela usa o código digital universal, ela é convergente, global, planetária e até hoje não está muito claro como esse espaço poderá vir a ser regulamentado. Além disso, a www transforma-se com uma velocidade historicamente sem precedentes. 72

Embora a internet esteja revolucionando o modo como levamos nossas vidas, trata-se de uma revolução que em nada modifica a identidade e natureza do montante cada vez mais exclusivo e minoritário daqueles que detêm as riquezas e continuam no poder. 75

[...] não há uma linearidade na passagem de uma era cultural para a outra, pois elas se sobrepõem, misturam-se, criando tecidos culturais híbridos e cada vez mais densos. 81

Com a introdução dos microcomputadores pessoais e portáteis, que nos anos 80 já estavam penetrando o mercado doméstico, os espectadores começaram a se transformar também em usuários. 81

Estamos entrando numa terceira era midiática, a Cibercultura. 82

[...] uma interface ocorre quando duas ou mais fontes de informação se encontram face-a-face, mesmo que seja o encontro da face de uma pessoa com a face de uma tela. 91

Hoje, “ciberespaço” sedimentou-se como um nome genérico para se referir a um conjunto de tecnologias diferentes, algumas familiares, outras só recentemente disponíveis, algumas sendo desenvolvidas e outras ainda sendo ficcionais. Todas têm em comum a habilidade para simular ambientes dentro dos quais os humanos podem interagir. 100

Lemos (2002ª, p. 137) entende o ciberespaço à luz de duas perspectivas: “como o lugar onde estamos quando entramos num ambiente simulado (RV), e como o conjunto de redes de computadores, ligados ou não em todo planeta, a internet”. 100

Cibercultura. A natureza dessa cultura é essencialmente heterogênea. Usuários acessam o sistema de todas as partes do mundo, e, dentro dos limites da compatibilidade linguística, interagem com pessoas de culturas sobre as quais, para muitos, não haverá provavelmente um outro meio direto de conhecimento. Por isso mesmo, é também uma cultura descentralizada, reticulada, baseada em módulos autônomos. Materializa-se em estruturas de informação que veiculam signos imateriais, quer dizer, feio de luzes e bytes, signos evanescentes, voláteis, mas recuperáveis a qualquer instante. 103-104

Para Lévy (1996, p. 129), o ciberespaço oferece objetos que rolam entre os grupos, memórias compartilhadas, hipertextos comunitários para a constituição de coletivos inteligentes. Um dos orgulhos da comunidade que faz crescer a net é ter inventado, ao mesmo tempo que um novo objeto, uma nova maneira inédita de fazer sociedade inteligente. 106

Formas de socialização na cultura digital 115
Ora, mídias são meios, e meios, como o próprio nome diz, são simplesmente meios, isto é, suportes materiais, canais físicos, nos quais as linguagens se corporificam e através dos quais transitam. 116

De fato, como nos afirma Lemos (2000ª, p. 92-150), a maior parte dos usos no ciberespaço deve-se a atividades socializantes, nas diversas facetas exibidas pela Cibercultura como nas experiências agregadoras da internet, através daquilo que o autor (p. 157-165) chama de instrumentos comunitários. 117-118

O termo “avatar” foi apropriado do sânscrito, referindo-se originalmente à noção indu de uma deidade que desce à terra em uma forma encarnada.  121

2. As comunidades virtuais

Todos os tipos de ambientes comunicacionais na rede se constituem em formas culturais e socializadoras do ciberespaço naquilo que vem sendo chamado de comunidades virtuais. (Rheingold, p, 1993), isto é, grupos de pessoas globalmente conectadas na base de interesses a afinidades, em lugar de conexões acidentais ou geográficas. 121

Para Brenda Laurel (1990, p. 93), as comunidades virtuais são “as novas e vibrantes aldeias de atividade dentro das culturas mais amplas do computador”. 122

[...] as comunidades virtuais designam-se as novas espécies de associações fluidas e flexíveis de pessoas, ligadas através dos fios invisíveis das redes que se cruzam pelos quatro cantos do globo, permitindo que os usuários se organizem espontaneamente “para discutir, para viver papéis, para exibir-se, para contar piadas, para procurar companhias ou apenas para olhar [...]. 123

[...] as redes nos dotam com o poder de virtualmente atravessar o planeta de ponta a ponta em frações de segundos, de outro lado, na medida mesma em que as conexões se multiplicam, as comunidades que se criam correm o risco de se tornarem cada vez mais aéreas, frágeis e efêmeras. 123

[...] a cultura digital não pode ser vista como uma subcultura on-line única e monolítica, mas como um “ecossistema de subculturas” (Rheingold, 1993), uma mistura de micro, macro e megacomunidades [...]. 123

[...] o ciberespaço se apropria promiscuamente de todas as linguagens pré-existentes: a narrativa textual, a enciclopédia, os quadrinhos, os desenhos animados, a arte do ventríloquo e dos marionetes, o teatro, o filme, a dança, a arquitetura, o design urbano etc. Nessa malha híbrida de linguagens nasce algo novo que, sem perder o vínculo com o passado, emerge com uma identidade própria. Essa reconfiguração de linguagem é responsável por uma ordem simbólica específica que afeta nossa constituição como sujeitos culturais e os laços sociais que estabelecemos. 125

A emergência da cultura digital e seus sistemas de comunicação mediados eletronicamente transformam o modo como pensamos o sujeito, prometendo também alterar a forma da sociedade. Essa cultura promove o indivíduo como uma identidade instável, como um processo contínuo de formação de múltiplas identidades, instaurando formações sociais que não podem mais ser chamadas de modernas, mas pós-modernas. 126-127

Para pensar essas novas formações sociais, a cultura eletrônica privilegia teorias pós-estruturalistas da linguagem, tal como expressa principalmente nas obras de Foucault, Derrida e, deve-se acrescentar, de Lacan, é relevante em especial pela conexão que estabelece entre a linguagem e a constituição do sujeito sob as seguintes premissas:

a) os sujeitos são sempre mediados pela linguagem;
b) essa mediação toma a forma da “interpelação”;
c) nesse processo, a posição do sujeito não está nunca suturada ou fechada, mas permanece instável, excessiva, múltipla.

É através da linguagem que o ser humano se constitui como sujeito e adquire significância cultural. Os tipos de cargas que a sociedade impõe sobre os indivíduos, a natureza dos constrangimentos e domínio com que ela opera produzem seus efeitos na linguagem. 127

O sujeito da oralidade é fluido, mutável, situacional, disperso e conflitante. O sujeito da cultura impressa e o da virtualidade se forma nas interfaces dinâmicas com o computador. 131

A realidade brasileira das redes, da qual apenas um dos aspectos, bastante sério, foi levantado acima, aponta para a relevância da distinção entre tecnologia e forma cultural estabelecida por Williams, segundo a qual uma invenção tecnológica adquire sua identidade apenas quando ela se localiza dentro de um contexto social e, mais especificadamente, institucional. A tecnologia interativa não é uma exceção. 134

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