Cultura e Arte do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura
Lúcia Santaella
Cultura das mídias. Ela não se confunde
nem com a cultura de massas, de um lado, nem com a cultura digital ou a Cibercultura
de outro. É, isto sim, uma cultura intermediária, situada entre ambas. Quer dizer,
a cultura digital não brotou diretamente da cultura de massas, mas foi sendo
semeada por processos de produção, distribuição e consumo comunicacionais a que
chamo de “cultura das mídias”. 13
Para compreender tais passagens, que
considero sutis, tenho utilizado uma divisão das eras culturais em seis tipos
de formações: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura
de massas, a cultura das mídias e a cultura digital. Antes de tudo, deve ser
declarado que essas divisões estão pautadas na convicção de que os meios de
comunicação, desde o aparelho fonador até as redes digitais atuais, embora,
efetivamente, não passem de meros canais para a transmissão de informações, os
tipos de signos que por eles circulam, os tipos de mensagens que engendram e os
tipos de comunicação que possibilitam são capazes não só de moldar o pensamento
e a sensibilidade dos seres humanos, mas também de propiciar o surgimento de
novos ambientes culturais. 13
Castells (apud SANTAELLA) Em resumo, a
nova mídia determina uma audiência segmentada, diferenciada que, embora maciça
em termos de números, já não é uma audiência de massa em termos de
simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida. A nova mídia não é mais
mídia de massa no sentido tradicional do envio de um número limitado de
mensagens a uma audiência homogênea de massa. Devido à multiplicação de
mensagens e fontes, a própria audiência torna-se mais seletiva. A audiência visada
tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentação,
intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor. 16-17
Uma diferença gritante entre a cultura
das mídias e a cultura digital [...] está no fato muito evidente de que, nesta última,
está ocorrendo a convergência das mídias [...], um fenômeno muito distinto da convergência
das mídias típicas da cultura da mídia. 17
Como diz Lunenfeld (1999b, p. 3-7), em
um período de tempo impressionantemente curto, o computador colonizou a
produção cultural. Uma máquina que estava destinada a mastigar números, começou
a mastigar tudo: da linguagem impressa à música, da fotografia ao cinema. Isso fez
da “cibernética a alquimia do nosso tempo e do computador seu solvente
universal. Neste, todas as diferentes mídias se dissolvem em um fluxo pulsante
de bits e bytes”. 20
A aliança entre computador e redes fez
surgir o primeiro sistema amplamente disseminado que dá ao usuário a
oportunidade de criar, distribuir, receber e consumir conteúdo audiovisual em
um só equipamento. Uma máquina de calcular que foi forçada a virar máquina de
escrever há poucas décadas, agora combina as funções de criação, de distribuição e de recepção de uma vasta
variedade de outras mídias dentro de uma mesma caixa. 20
Cultura, em todos os seus sentidos, social,
intelectual ou artístico é uma metáfora derivada da palavra cultura, que, no seu sentido original,
significa o ato de cultivar o solo. 29
Se mistura é espírito, como dizia Paul
Valéry, e a cultura é a morada do espírito, então cultura é mistura. Embora se
apresente como uma simples brincadeira silogística, aí está anunciada uma
condição fundamental para se entender o que está acontecendo com a cultura nas
sociedades pós-industriais, pós-modernas, sociedades globalizadas deste início
do século. 30
[...] a cultura é parte do ambiente que
é feita pelo homem. Implícito nisso está o reconhecimento de que a vida humana
é vivida num contexto duplo. O habitat natural e seu ambiente social. A definição
também implica que a cultura é mais do que um fenômeno biológico. Ela inclui
todos os elementos do legado humano maduro que foi adquirido através do seu
grupo pela aprendizagem consciente, ou, num nível algo diferente, por processos
de condicionamento – técnicas de várias espécies, sociais e institucionais,
crenças, modos padronizados de conduta. A cultura, enfim, pode ser contrastada
com os materiais brutos, interiores ou exteriores, dos quais ela deriva. Recursos
apresentados pelo mundo natural são formatados para vir ao encontro de
necessidades existentes. 31
Apesar da dificuldade, uma tentativa
desse tipo foi feita, em 1953, quando os antropólogos A. L. Kroeber e Clyde
Kluchhohn puseram em discussão nada menos do que 164 definições de cultura. De todo
esse recenseamento, os autores extraíram seis categorias:
a) descritiva, com ênfase nos caracteres
gerais que definem a cultura;
b) histórica, com ênfase na tradição
c) normativa, enfatizando as regras e
valores
d) psicológica, enfatizando por exemplo,
o aprendizado e o hábito;
e) estrutural, com ênfase nos padrões e
f) genética. 32
essas seis categorias podem ser
reduzidas a dois tipos de definições principais: uma definição restrita,
restritiva mesmo, que utiliza o termo para a descrição da organização simbólica
de um grupo, da transmissão dessa organização e do conjunto de valores apoiando
a representação que o grupo se faz de si mesmo, de suas relações com outros
grupos e de sua relação com o universo natural; e um segundo tipo mais amplo de
definição que não contradiz o primeiro, de acordo com o qual a cultura se
refere aos costumes, às crenças, à língua, às ideias, aos gostos estéticos e ao
conhecimento técnico, que dão subsídios à organização do ambiente totalmente
técnico, que dão subsídios à organização do ambiente total humano, quer dizer,
a cultura material, os utensílios, o habitat e, mais geralmente, todo o
conjunto tecnológico transmissível, regulando as relações e os comportamentos
de um grupo social com o ambiente (Martinon, 1985, P. 873).
É dessas duas concepções que derivam os
sentidos de cultura que se tornaram correntes: o sentido lato e o sentido
estrito. Tal como é entendido nos estudos de historiadores, sociólogos e
antropólogos, o sentido lato descreve todos os aspectos característicos de uma
forma particular de vida humana. O sentido estrito é uma província das
humanidades, cujo objetivo é interpretar e transmitir às gerações futuras o
sistema de valores em função dos quais os participantes em uma forma de vida
encontram significado e propósito. Em ambos os sentidos, a cultura pode ser
pensada como um agente causal que afeta o processo evolutivo através de meios
exclusivamente humanos, na medida em que permite a avaliação autoconsciente das
possibilidades humanas à luz de um sistema de valores que reflete as ideias prevalecentes
sobre o que a vida humana deveria ser. A cultura é, assim, um recurso
indispensável para o crescimento do controle humano sobre a direção em que
nossa espécie muda (Honderich, 1995, p. 172). 34
No seu Primitive Culture, em 1871, Tylor
definiu a cultura como um todo complexo que incluui conhecimento, crença, arte,
lei, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo
homem como membro de uma sociedade. 36-37
[...] a cultura, como queria Herder, é
uma interação incessante de tradição e mudanças as quais, antes de representar
forçar polares, são partes de um mesmo continuum.
Embora haja tensão entre essas duas forças, a mudança não pode ser explicada
sem o reconhecimento da persistência e vice-versa (Barnard, 1973, p. 621) 46
Todas as formações sociais, desde as
mais simples até as mais complexas, apresentam três territórios
inter-relacionados: o território econômico, o político e o cultural. Embora essa
divisão seja simplificadora, tendo em vista a enorme complexidade das
sociedades atuais, ela serve para delinear o lugar ocupado pela cultura na
sociedade. 51
[...] há duas concepções básicas de
cultura, as humanistas, de um lado, e as antropológicas, de outro. As primeiras
são seletivas, concebendo como culturais apenas alguns segmentos da produção
humana em detrimento de outros considerados não-culturais. As antropológicas são
não-seletivas, pois aplicam o termo cultura à trama total da vida humana numa
dada sociedade, à herança social inteira e a qualquer coisa que possa ser
adicionada a ela. 51
[...] as mídias tendem a se engendrar
como redes que se interligam e nas quais cada mídia particular – livro, jornal,
TV, rádio, revista etc – tem uma função que lhe é específica. É a cultura como
um todo que a cultura das mídias tende a colocar em movimento, acelerando o
tráfego entre suas múltiplas formas, níveis, setores, tempos e espaços. 53
Na esteira que nos foi legada por Walter
Benjamin (1985), o ponto de vista mais fundamental para se compreender a dinâmica
cultural é o produtivo, a cultura vista como um tipo muito especial de produção
humana. Esse tipo se divide em quatro níveis indissociavelmente conectados:
a) o nível da produção em si;
b) o da conservação dos produtos
culturais, ligados à memória;
c) o da circulação e difusão, ligado à
distribuição e comunicação culturais;
d) o da recepção desses produtos, isto
é, como são percebidos, absorvidos consumidos pelo receptor. 54-55
[...] a cultura midiática propicia a circulação
mais fluida e as articulações mais complexas dos níveis, gêneros e formas de
cultura, produzindo o cruzamento de suas identidades. Inseparável do crescimento
acelerado das tecnologias comunicacionais, a cultura midiática é responsável
pela ampliação dos mercados culturais e pela expansão e criação de novos
hábitos de consumo de cultura. 59
[...] revolução digital. No cerne dessa
revolução está a possibilidade aberta pelo computador de converter toda
informação – texto, som, imagem, vídeo – em uma mesma linguagem universal. 59
No sentido mais estrito, mídia se refere
especificamente aos meios de comunicação de massa, especialmente aos meios de
transmissão de notícias e informações, tais como jornal, rádio, revista e
televisão. Seu sentido pode se ampliar a se referir a qualquer meio de
comunicação de massas, não apenas as que transmitem notícias. 61-62
Também podemos chamar de mídia, todos os
meios que a publicidade se serve [...]. Em todos os sentidos, a palavra “mídia”
está se referindo aos meios de comunicação de massa. 62
[...] hoje estamos no meio de uma
revolução nas mídias e uma virada nas formas de produção, distribuição e
comunicação mediadas por computador que deverá trazer consequências muito mais
profundas do que as anteriores. É nesse sentido que estarei empregando a
expressão “mídias digitais” nesta indicação de caminhos heterotópicos para a
sua leitura crítica. 64
O crescimento da multiplicidade das mídias,
a multiplicação de suas mensagens e fontes foi dando margem ao surgimento de
receptores mais seletivos, individualizados, o que foi, sem dúvida, preparando
o terreno para a cultura digital, na medida em que esta exige receptores
atuantes, caçadores em busca de presar informacionais de sua própria escolha.
68
Todavia, sem as poderosas tecnologias
comunicacionais atuais, a globalização não teria sido possível. As consequências
dessas tecnologias para a comunicação e a cultura são remarcáveis. Estamos, sem
dúvida, entrando numa revolução da informação e da comunicação sem precedentes
que vem sendo chamada de revolução digital. 70
Aliada à telecomunicação, a informática
permite que esses dados cruzem oceanos, continentes, hemisférios, conectando
potencialmente qualquer ser humano no globo numa mesma rede gigantesca de
transmissão e acesso que vem sendo chamada de ciberespaço. 71
[...] tem havido duas tendências principais
no tratamento crítico das supervias informacionais e da Cibercultura que nelas
se gera: a tendência eufórica e a tendência disfórica. 72
O ciberespaço é um fenômeno remarcavelmente
complexo que não pode ser categorizado a partir do ponto de vista de qualquer
mídia prévia. Nele, a comunicação é interativa, ela usa o código digital
universal, ela é convergente, global, planetária e até hoje não está muito
claro como esse espaço poderá vir a ser regulamentado. Além disso, a www transforma-se com uma velocidade
historicamente sem precedentes. 72
Embora a internet esteja revolucionando
o modo como levamos nossas vidas, trata-se de uma revolução que em nada
modifica a identidade e natureza do montante cada vez mais exclusivo e
minoritário daqueles que detêm as riquezas e continuam no poder. 75
[...] não há uma linearidade na passagem
de uma era cultural para a outra, pois elas se sobrepõem, misturam-se, criando
tecidos culturais híbridos e cada vez mais densos. 81
Com a introdução dos microcomputadores
pessoais e portáteis, que nos anos 80 já estavam penetrando o mercado
doméstico, os espectadores começaram a se transformar também em usuários. 81
Estamos entrando numa terceira era
midiática, a Cibercultura. 82
[...] uma interface ocorre quando duas
ou mais fontes de informação se encontram face-a-face, mesmo que seja o
encontro da face de uma pessoa com a face de uma tela. 91
Hoje, “ciberespaço” sedimentou-se como
um nome genérico para se referir a um conjunto de tecnologias diferentes,
algumas familiares, outras só recentemente disponíveis, algumas sendo
desenvolvidas e outras ainda sendo ficcionais. Todas têm em comum a habilidade
para simular ambientes dentro dos quais os humanos podem interagir. 100
Lemos (2002ª, p. 137) entende o
ciberespaço à luz de duas perspectivas: “como o lugar onde estamos quando
entramos num ambiente simulado (RV), e como o conjunto de redes de
computadores, ligados ou não em todo planeta, a internet”. 100
Cibercultura. A natureza dessa cultura é
essencialmente heterogênea. Usuários acessam o sistema de todas as partes do
mundo, e, dentro dos limites da compatibilidade linguística, interagem com
pessoas de culturas sobre as quais, para muitos, não haverá provavelmente um
outro meio direto de conhecimento. Por isso mesmo, é também uma cultura
descentralizada, reticulada, baseada em módulos autônomos. Materializa-se em
estruturas de informação que veiculam signos imateriais, quer dizer, feio de
luzes e bytes, signos evanescentes, voláteis, mas recuperáveis a qualquer
instante. 103-104
Para Lévy (1996, p. 129), o ciberespaço
oferece objetos que rolam entre os grupos, memórias compartilhadas, hipertextos
comunitários para a constituição de coletivos inteligentes. Um dos orgulhos da
comunidade que faz crescer a net é ter inventado, ao mesmo tempo que um novo
objeto, uma nova maneira inédita de fazer sociedade inteligente. 106
Formas de socialização na cultura
digital 115
Ora, mídias são meios, e meios, como o
próprio nome diz, são simplesmente meios,
isto é, suportes materiais, canais físicos, nos quais as linguagens se
corporificam e através dos quais transitam. 116
De fato, como nos afirma Lemos (2000ª,
p. 92-150), a maior parte dos usos no ciberespaço deve-se a atividades
socializantes, nas diversas facetas exibidas pela Cibercultura como nas experiências
agregadoras da internet, através daquilo que o autor (p. 157-165) chama de
instrumentos comunitários. 117-118
O termo “avatar” foi apropriado do
sânscrito, referindo-se originalmente à noção indu de uma deidade que desce à
terra em uma forma encarnada. 121
2. As comunidades virtuais
Todos os tipos de ambientes
comunicacionais na rede se constituem em formas culturais e socializadoras do
ciberespaço naquilo que vem sendo chamado de comunidades virtuais. (Rheingold,
p, 1993), isto é, grupos de pessoas globalmente conectadas na base de
interesses a afinidades, em lugar de conexões acidentais ou geográficas. 121
Para Brenda Laurel (1990, p. 93), as
comunidades virtuais são “as novas e vibrantes aldeias de atividade dentro das
culturas mais amplas do computador”. 122
[...] as comunidades virtuais
designam-se as novas espécies de associações fluidas e flexíveis de pessoas,
ligadas através dos fios invisíveis das redes que se cruzam pelos quatro cantos
do globo, permitindo que os usuários se organizem espontaneamente “para
discutir, para viver papéis, para exibir-se, para contar piadas, para procurar
companhias ou apenas para olhar [...]. 123
[...] as redes nos dotam com o poder de
virtualmente atravessar o planeta de ponta a ponta em frações de segundos, de
outro lado, na medida mesma em que as conexões se multiplicam, as comunidades
que se criam correm o risco de se tornarem cada vez mais aéreas, frágeis e
efêmeras. 123
[...] a cultura digital não pode ser
vista como uma subcultura on-line
única e monolítica, mas como um “ecossistema de subculturas” (Rheingold, 1993),
uma mistura de micro, macro e megacomunidades [...]. 123
[...] o ciberespaço se apropria
promiscuamente de todas as linguagens pré-existentes: a narrativa textual, a enciclopédia,
os quadrinhos, os desenhos animados, a arte do ventríloquo e dos marionetes, o
teatro, o filme, a dança, a arquitetura, o design
urbano etc. Nessa malha híbrida de linguagens nasce algo novo que, sem perder o
vínculo com o passado, emerge com uma identidade própria. Essa reconfiguração
de linguagem é responsável por uma ordem simbólica específica que afeta nossa
constituição como sujeitos culturais e os laços sociais que estabelecemos. 125
A emergência da cultura digital e seus
sistemas de comunicação mediados eletronicamente transformam o modo como
pensamos o sujeito, prometendo também alterar a forma da sociedade. Essa cultura
promove o indivíduo como uma identidade instável, como um processo contínuo de
formação de múltiplas identidades, instaurando formações sociais que não podem
mais ser chamadas de modernas, mas pós-modernas. 126-127
Para pensar essas novas formações
sociais, a cultura eletrônica privilegia teorias pós-estruturalistas da
linguagem, tal como expressa principalmente nas obras de Foucault, Derrida e,
deve-se acrescentar, de Lacan, é relevante em especial pela conexão que
estabelece entre a linguagem e a constituição do sujeito sob as seguintes
premissas:
a) os sujeitos são sempre mediados pela
linguagem;
b) essa mediação toma a forma da “interpelação”;
c) nesse processo, a posição do sujeito
não está nunca suturada ou fechada, mas permanece instável, excessiva,
múltipla.
É através da linguagem que o ser humano
se constitui como sujeito e adquire significância cultural. Os tipos de cargas
que a sociedade impõe sobre os indivíduos, a natureza dos constrangimentos e
domínio com que ela opera produzem seus efeitos na linguagem. 127
O sujeito da oralidade é fluido,
mutável, situacional, disperso e conflitante. O sujeito da cultura impressa e o
da virtualidade se forma nas interfaces dinâmicas com o computador. 131
A realidade brasileira das redes, da
qual apenas um dos aspectos, bastante sério, foi levantado acima, aponta para a
relevância da distinção entre tecnologia e forma cultural estabelecida por
Williams, segundo a qual uma invenção tecnológica adquire sua identidade apenas
quando ela se localiza dentro de um contexto social e, mais especificadamente,
institucional. A tecnologia interativa não é uma exceção. 134

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