Comunicação e Tecnologia, por Pierre Lévy

by - outubro 11, 2012


Observando a internet Lévy (2003, p. 195-197) argumenta que a "humanidade reconecta-se consigo mesma". O autor defende essa ideia, lembrando-nos de como nossa civilização era unida, única, ou seja, "nossos ancestrais mais diretos habitavam [...] todos a mesma zona geográfica". Com o passar dos anos, nossos ancestrais se dividiram, se distanciaram, e criaram grupos diferentes e separados. A segunda grande ruptura foi "a revolução neolítica", que se caracterizou pela "grande mutação técnica, social, cultural, política e demográfica cristalizada na invenção da agricultura, da cidade, do Estado e da escrita". O autor salienta que a história de nossos ancestrais, que possuía "tendência à conexão, à reunião, ou à comunicação", inverte-se e há um "movimento [...] de dispersão".
            
          Lévy (2003, p. 197-200) precisa que a humanidade começou a reconectar-se a partir do século XV, mais ou menos, pois é quando ocorre um "certo número de 'revoluções' na demografia, na economia, na organização política, no habitat e nas comunicações". Os meios de transporte e a comunicação começam a se desenvolver, e assim, a reconectar uma sociedade antes dissipada. Pessoas que antes eram isoladas, umas das outras, passam a conectar-se, conviver, enfim, passam a se encontrar. De acordo com Lévy (2003), assim como no início de nossos tempos, só que de uma maneira diferente, a humanidade volta a torna-se uma só sociedade.

Como já percebemos, ao utilizar a internet, praticamente qualquer pessoa pode produzir textos, mensagens e informações e publicá-las na internet, tornando-a acessível a todos aqueles que se conectam a rede. Isso não quer dizer que todas essas informações são verdadeiras, pois Lévy (2003, p. 209) é pertinente ao lembrar que, "no plano filosófico, ao menos que se aceitem os argumentos de autoridade, uma notícia não é 'verdadeira'". No entanto, a internet nos oferece uma ampla gama de informações ao nosso dispor, e o que mais ganhamos com isso é o desenvolvimento de nossas concepções críticas. Outro fato a considerar, é que na internet não há hierarquia, os poderes são iguais, horizontais. Lévy (2003) afirma que, "como dizia um consultor americano a um dirigente da IBM, uma criança encontra-se aí, em situação de igualdade com uma multinacional".

Outra consideração importante de Lévy (2003, p. 214), é quando este afirma que "a Web articula uma multiplicidade de pontos de vistas". Ou seja, aqueles que constroem páginas, perfis na rede, expõem seus pontos de vistas. Tanto sobre um determinado assunto, quanto sobre sua própria vida. Quando alguém escreve algo em um blog, por exemplo, mostra ali sua opinião, seu ponto de vista sobre o determinado conteúdo. Quando alguém cria um perfil em uma rede social, posta suas melhores fotos, seus melhores links, suas melhores frases, aquilo que ele pensa de si, e da sociedade ao qual está inserido. O autor afirma que "qualquer um terá a sua página, o seu mapa, o seu site, o seu ou os seus pontos de vista”, ou seja, “cada um se tornará autor, proprietário de uma parcela do ciberespaço. Entretanto, essas páginas, sites e mapas dialogam, interconectam-se e confluem através de canais móveis e labirínticos. O autor ou o proprietário coletivo toma corpo". Cabe lembrar também que o espaço para material é ilimitado, pois na internet "sempre há mais lugar", uma informação não exclui a outra. Vivemos essa evolução dia a dia, e como acontece tudo muito rápido, talvez não percebamos tudo que já mudou em nossa vida, em nossa sociedade.

Pensando tais transformações que a internet promove, Lévy (2004, p. 157-158) argumenta que a raça humana “está se tornando um superorganismo a construir sua unidade através do ciberespaço”, visto que, devido ao fato de que “este superorganismo está se tornando o principal agente de transformação e manutenção da biosfera, o ciberespaço cresce, por extensão, como se fosse um sistema nervoso dessa biosfera”. O autor acredita que, quando entendemos essa perspectiva, compreendemos que “o ciberespaço está no ápice desta evolução unificada”. Ou seja, Lévy (2004) argumenta que: “existe uma evolução cultural”; tal evolução “é uma continuação da evolução biológica” e “o desenvolvimento do ciberespaço é o passo mais recente da evolução cultural/biológica e é a base de futuras evoluções”.

Lévy (2004, p. 166) entende por ciberespaço, o “espaço de comunicação aberto pela interconexão global de computadores”, afirmando ainda que este "é hoje o sistema com o desenvolvimento mais rápido de toda a história das técnicas de comunicação", além disso, "o ciberespaço encarna um dispositivo de comunicação qualitativamente original, que se deve bem distinguir das outras formas de comunicação de suporte técnico" (LÉVY, 2003, p. 206). Lévy (2003, p. 206-208) salienta que o ciberespaço combina tanto as qualidades dos meios tradicionais de comunicação, como o rádio, jornal e a televisão, pois divulga as informações desses em suas páginas, quanto as qualidades do correio e do telefone, ou seja, troca de mensagens com precisão, e acima de tudo, reciprocidade. Também afirma que a memória de nossa sociedade, ao invés de resultar de um emissor "todo poderoso", agora "emerge da interação entre os participantes". A mensagem é de todos para todos. O autor considera que a Word Wide Web é, provavelmente, a "maior revolução na história da escrita, desde a invenção da imprensa”. 

Portanto, Lévy (2004, p. 165-166, grifo do autor) considera que “o ciberespaço não é um meio, é um metameio”, pois este desenvolve e apoia “tecnologias intelectuais que desenvolvem a memória [...], a imaginação”, o raciocínio, a percepção e a criação, enfim, desenvolve a “humanidade em geral”. Ao contrário da imprensa, que possui apenas uma comunicação de “um para muitos”, e dos correios ou da telefonia, que possui apenas uma comunicação de “um para um”, o ciberespaço abrange essas duas possibilidades, mas também permite a comunicação “muitos para muitos”, e em tempo real; fato que, para Lévy (2004), “incentiva a inteligência coletiva[1]”. Isso significa que a raça humana possui um “cérebro coletivo”, sendo que esta tem como missão: “fazer crescer o cérebro do mundo. Um cérebro mais e mais poderoso e livre que incluirá o mundo em sua substância”.        

O raciocínio de Lévy (2004, p. 158-163) é que estamos vivendo um processo evolutivo que caminha em direção à virtualização, à digitalização e à inteligência coletiva. A evolução cultural pode ser considerada “a melhoria progressiva das propriedades vivas, reprodutivas, evolutivas dos signos culturais. Esta melhoria leva junto no seu mover a sociedade humana que constitui o ambiente dessa vida de formas”, na visão de Lévy (2004); sendo que, “a escrita, o alfabeto, a imprensa, o ciberespaço, cada estágio, cada camada integra a sua precedente e conduz a uma nova diversificação do universo cultural”. Evoluímos com a linguagem, a escrita, o alfabeto, a imprensa, e por fim, com o ciberespaço, que integra estas e mais o “telefone, o cinema, o rádio, a televisão e, adicionalmente, todas as melhorias da comunicação, todos os mecanismos que foram projetados até agora para criar e reproduzir signos”.

Lévy (1996) defende que vivemos uma virtualização, nos mais diversos âmbitos, dedicando a este assunto a obra O que é o virtual?. Nós podemos vivenciar a virtualização do corpo, da inteligência, da informação, da economia, do texto, da memória, do computador, do trabalho. Ao contrário do uso decorrente da palavra “virtual”, designando a falta de realidade, a ausência de existência, Lévy (1996, p. 15-58, grifo do autor) argumenta que o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Sendo assim, segundo Lévy (1996), “a virtualização pode ser entendida como o movimento inverso da atualização”. A virtualização não é o oposto de realidade, mas sim, “uma mutação de identidade”. Quando fala da virtualização da informação, por exemplo, Lévy (1996) argumenta que tal informação, juntamente com o conhecimento, são nossas principais fontes de “produção de riqueza”, sendo que, a informação não se desgasta nem se destrói, no momento que a utilizamos, “porque ela é virtual”. Já o conhecimento, “é o fruto de uma aprendizagem, ou seja, o resultado de uma virtualização da experiência imediata”.

Em suma, para Lévy (apud LEMOS, 2010, p. 12), “a internet é um espaço de comunicação surrealista, do qual nada é excluído, nem o bem, nem o mal, nem suas múltiplas definições, nem a discussão que tende a separá-los sem jamais conseguir”. O autor argumenta que “a internet encarna a presença da humanidade nela própria, já que todas as culturas, todas as disciplinas, todas as paixões aí se entrelaçam. Já que tudo é possível, ela manifesta a conexão do homem com a sua própria essência, que é a aspiração a liberdade”.






[1] Para Lévy (1996, p. 119), “o problema da inteligência coletiva é simples de enunciar, mas difícil de resolver. Grupos humanos podem ser coletivamente mais inteligentes, mais instruídos, mais sábios, mais imaginativos que as pessoas que os compõem? Não apenas a longo prazo, na duração da história técnica, das instituições e da cultura, mas aqui e agora, no curso dos acontecimentos e dos atos cotidianos. Como coordenar as inteligências para que se multipliquem umas através das outras ao invés de se anularem? Há meio de induzir uma valorização recíproca, uma exaltação mútua das capacidades mentais dos indivíduos em vez de submetê-las a uma norma ou rebaixá-la ao menos denominador comum? Poder-se-ia interpretar toda a história das formas institucionais, das linguagens e das tecnologias cognitivas como tentativa mais ou menos feliz de resolver esses problemas”. 

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