Mal de Arquivo
by
Tauana Jeffman
- maio 23, 2012
Jacques Derrida
No
ano de 2001, com uma linguagem muito próxima de seu leitor, Jacques Derrida
publica a obra Mal de Arquivo: uma
impressão freudiana, trazendo à discussão, o conceito de “arquivo”. O que é
um arquivo? O que arquivamos? A tecnologia pelo qual arquivamos, interfere no
arquivo? Derrida acredita que sim. Apresentando a obra como um ensaio, Derrida (2001,
p. 07, grifo do autor) a inicia com uma indagação (aliás, seu texto é sempre
nutrido de indagações): “Por que relembrar hoje um conceito de arquivo?”. O
autor fala-nos que tal obra irá assinalar “discretamente o horizonte desta
questão”.
Derrida
(2001, p. 07-08, grifo do autor), inicialmente, distingue o “arquivo” de acordo
com seus sentidos, relacionando o termo com a memória, a origem, o arcaico, o
arqueológico. Ou seja, o arquivo relacionado a um “lugar de autoridade”. Para o autor, neste contexto se enlaçam dois
fios condutores: a psicanálise e a comunicação. A psicanálise aborda a
“estocagem de ‘impressões’”, bem como a censura e o recalcamento. Para Derrida
(2001, p. 08), a “instituição do projeto da psicanálise” pertence “a um momento
na história da técnica e sobretudo aos dispositivos ou aos ritmos daquilo que
chamamos confusamente de ‘comunicação’”. O autor indaga-se de como será o
futuro da psicanálise, na era do correio eletrônico. Como falar de “comunicação
de arquivos”, sem falar dos arquivos dos meios de comunicação? O que ele afirma,
é que, “não há arquivo sem o espaço instituÃdo de um lugar de impressão”, ou
seja, um suporte externo, tanto material quanto virtual. Então, o nosso corpo
pode ser um arquivo, como por exemplo, uma circuncisão?
O
subtÃtulo de seu ensaio é “uma impressão freudiana”, nada mais condinzente, já
que sabemos que Derrida é um filósofo francês fortemente influenciado pelas
ideias de Freud. No entanto, o autor afirma-nos que seu Mal de Arquivo poderá transcorrer com Freud, sem Freud e até mesmo,
contra Freud. É um ensaio que evoca um “sintoma, um sofrimento, uma paixão: o
arquivo do mal, mas também aquilo que arruÃna, que destrói o próprio princÃpio
do arquivo, a saber, o mal radical” (DERRIDA, 2001, p. 09).
Derrida
(2001, p. 12) nota que a palavra “arquivo” advém de “arkhê”, palavra esta que designa uma ordem de começo e uma ordem de
comando. Domina também o princÃpio da natureza e o princÃpio da história: ali
onde as coisas começam; e o princÃpio da lei: ali onde os homens e os deuses
mandam. Derrida (2001, p. 11) questiona-nos novamente: “Ali onde, foi o que dissemos, e nesse
lugar. Como pensar esse ali? E
como pensar este ter lugar ou este
tomar o lugar do arkhê?”. O autor fala-nos que, de uma maneira ou de outra, tal
vocábulo remete bem ao “arkhê no
sentido fÃsico, histórico ou ontológico, isto é, ao originário, ao primeiro, ao
principal, ao primitivo, em sua, ao começo”.
É
interessante compreendermos, de onde vem nossa denominação de arquivo. De
acordo com Derrida (2001, p. 12), o sentido de “arquivo” advém do termo grego “arkheîon”, ou seja, “inicialmente uma
casa, um domicÃlio, um endereço, a residência dos magistrados superiores,
aqueles que comandavam”. O autor conta-nos que a casa dos cidadãos que tinham o
poder de representar a lei era onde se depositavam os “documentos oficiais”.
Tais cidadãos eram chamados de “arcontes”, ou seja, os guardiões de tais
documentos. Os arcontes não somente eram responsáveis pela segurança fÃsica do
material, como também detinham o poder de interpreta-lhos. Esses documentos,
sob a segurança e domÃnio dos arcontes, era de fato, a lei. Tal lei, então,
para ser “arquivada”, necessitava de um guardião (os arcontes) e uma
localização (a casa dos arcontes), sendo que não podiam “prescindir de suporte
nem de residência”. E foi neste contexto que os arquivos nasceram. Derrida
(2001, p. 13) salienta, porém, que o arquivo necessita, além de um suporte
estável e de uma autoridade, a consignação, ou seja, o ato de consignar, de reunir
signos, pois o “princÃpio arcôntico do arquivo é também um princÃpio de
consignação, isto é, de reunião”.
Já
sobre “exergo”, Derrida (2001, p. 17, grifo do autor) assinala que tal termo é
uma “convenção sagrada”, sendo que o “o exergo se articula com a citação. Citar
antes de começar é dar o tom deixando ressoar algumas palavras cujo sentido ou
forma deveria dominar a cena”. Ainda, “um enxergo estoca por antecipação e
pré-arquiva um léxico que, a partir daÃ, deverá fazer a lei e dar a ordem contentando-se em nomear o
problema, isto é, o tema”. Então, o exergo é a “primeira figura de um arquivo,
pois todo arquivo [...] é ao mesmo tempo instituidor
e conservador”. Nas palavras de
Derrida (2001, p. 18, grifo do autor), “o primeiro destes exergos seria o mais
tipográfico. Nele o arquivo aparece mais de acordo com o seu conceito. Pois o
confiamos aqui ao que se acha fora, a um suporte externo e não, como o signo da aliança na circuncisão, a uma marca Ãntima diretamente sobre o corpo”.
Quando
escrevemos um livro, por exemplo, estamos arquivando. Estamos deixando para a
posterioridade nossas pesquisas ou nossas opiniões, por exemplo. Derrida (2001,
p. 18-19) fala-nos que em um de seus livros, Freud externou a constatação de
que acreditava estar gastando papel, tinta, trabalho do tipógrafo, para falar de
algo que já era de conhecimento de todos, para dizer coisas que já seriam
óbvias. Para Derrida (2001, p. 19), Freud “deveria ter encontrado algo de novo
na psicanálise: uma mutação ou um corte no interior de sua própria instituição
teórica. E deveria não somente anunciá-la, mas também arquivá-la: pô-la de
alguma maneira no prelo”. Freud
conclui, porém, de acordo com Derrida (2001, p. 20) que seu arquivamento não
foi em vão, “nem de pura perda, na hipótese de que faria aparecer o que na
verdade [...] já sabe que vai fazer aparecer e que não é portanto uma
hipótese”. Freud liga-se à “pulsão de morte”, sendo que esta, “trabalha para
destruir o arquivo: com a condição de apagar também com vistas de apagar seus
próprios traços. Ela devora seu arquivo, antes mesmo de tê-lo produzido
externamente” (DERRIDA, 2001, p. 21). Tal pulsão é também uma pulsão de
“agressão e de destruição”, ela leva à “aniquilação da memória”, ao “apagamento
radical”, é o desejo de destruir o que é exterior, sendo que, “não há arquivo sem exterior” (DERRIDA,
2001, p. 22).
Derrida
(2001, p. 25) indaga-se sobre o futuro da psicanálise, salientando que Freud
escreveu suas teorias e ideias em um tempo que não dispunha das “máquinas de
arquivar” dos anos 2000. O autor pergunta-se: “será que estas novas máquinas
mudam alguma coisa? Afetam o discurso de Freud em algum ponto essencial? Indago-me,
então, qual seria a percepção de Derrida acerca deste fato, no ano que estamos
hoje – 2012. Em 2001, ainda não existia Facebook, Twitter, os blogs eram
escassos, e quase não havia “redes sociais digitais” muito conhecidas. Qual
seria a concepção de arquivo, em uma época que podemos arquivar, compartilhar e
registrar um número cada vez maior de informação? É algo, no mÃnimo, a se
pensar.
Voltando
a falar sobre o futuro da psicanálise, percebemos que Derrida (2001, p. 26)
afirma que, sobre este, há no mÃnimo, duas ordens: “1- a primeira ordem de
questões envolve a exposição teórica da
psicanálise”, ou seja, o autor indaga-se se a teoria de “bloco mágico”[1] de
Freud, por exemplo, resite ou não à evolução da tecno-ciência do arquivo. Essas
“próteses da memória chamada viva” estão mais refinadas, complicadas, potentes,
que o “bloco mágico (microinformatização, eletronização, computorização)”?
Segunda ordem: como fica o arquivamento da psicanálise? Como seria se, “em
lugar de escrever milhares de cartas à mão”, Freud e seus colaboradores e
discÃpulos contemporâneos, “dispusessem de cartões telefônicos, MCI ou ATT, de
gravadores portáteis, computadores, impressoras, fax, televisão,
teleconferência e sobre tudo correio eletrônico”? Vou além questionando: como
seria se Freud tivesse Facebook e Twitter, por exemplo? Para Derrida (2001, p.
28-29), se Freud dispusesse das “máquinas de arquivas” dos anos 2000, certamente
não o entenderÃamos como entendemos hoje, pois “a estrutura técnica do arquivo
arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio
surgimento e em sua relação com o futuro. O arquivamento tanto produz quanto
registra o evento”, enfim, “é também nossa experiência polÃtica dos meios
chamados de informação”. Em outras palavras, a psicanálise não teria sido o que
foi se no passado, existisse e-mail, por exemplo.
Estas novas técnicas de arquivamento
também colocam em voga outra questão: qual é o limite entre o privado e o
segredo? Qual a nossa propriedade em publicar e reproduzir neste “ritmo
inédito”, nesta ampla possibilidade de produção, impressão, conservação e
destruição de arquivo? O que é visto é que cada vez mais nos afastamos dos
“copistas medievais”, vivendo em uma “revolução sem limites da técnica
arquivÃstica”, levando em consideração que a “técnica arquivÃstica não
determina mais, e nunca o terá feito, o momento único do registro conservador,
mas sim a instituição mesma do acontecimento arquivável”, enfim, tal técnica
“comanda aquilo que no próprio passado instituÃa e construÃa o que quer que
fosse como antecipação do futuro” (DERRIDA, 2001, p. 30-31).
Derrida
(2001, p. 32) compreende que “a teoria psicanalÃtica tornou-se, portanto, uma
teoria do arquivo e não somente uma teoria da memória”. Sendo que, para Derrida
(2001, p. 32), “o modelo deste singular ‘Bloco
Mágico’ incorpora também o que parecia contradizer, sob a forma de uma
pulsão de destruição, a pulsão mesma de conservação que poderÃamos chamar
também pulsão de arquivo”, o que o
autor considera como o “mal de arquivo”, pois
“não haveria certamente desejo de arquivo sem a finitude radical, sem a possibilidade
de um esquecimento que não se limita ao recalcamento”. Além disso, “não haveria mal de arquivo sem a ameaça desta pulsão
de morte, da agressão ou de destruição”, “o mal de arquivo toca o mal radical”.
Derrida
(2001, p. 32) “incrusta” uma segunda citação ao exergo, esta, menos tipográfica
que a primeira, pois, de acordo com o autor, “recorrente e interativa, ela leva
a singularidade literal à figuralidade”. O autor afirma também que,
“inscrevendo ainda a inscrição, comemora à sua maneira, com efeito, uma
circuncisão. Este monumento muito singular é também o documento de um arquivo.
De modo reiterado, deixa o rastro de uma incisão diretamente na pele: mais de
uma pele, em mais de uma era. Literal ou figurativa”. De inÃcio, uma inscrição privada.
Derrida
(2001, p. 34) encerra seu primeiro capÃtulo com o fragmento de uma dedicatória
da bÃblia que o avô de Freud deu ao seu pai, e este, por sua vez, lhe ofertou.
Para o autor, “o que o pai dá ao filho é ao mesmo tempo uma escritura e seu
suporte. O suporte era a própria bÃblia, o ‘Livro dos livros’, uma BÃblia
Philippsohn onde Freud estudara na juventude”.
[1] Derrida (2001, p. 31, grifo do
autor) afirma que “o Bloco Mágico integra
também, no próprio interior da psukhe, a
necessidade de um certo exterior, de certas fronteiras entre o dentro e o fora.
[...]o Bloco Mágico acolhe a ideia de
um arquivo psÃquico distinto de memória espontânea, de uma hupomnesis distinta da mneme e
da anamnesis: a instituição em suma
de uma prótese de dentro”.
Post interessante:
O Brasil é um paradoxo. Por uma série de motivos e razões, teve sua história permeada por fatos que constituÃram sua população como uma das mais receptivas do planeta. Ao mesmo tempo, essa história é contada por distâncias, afastamentos, silenciamentos, violência e ignorância. O papel do Estado, ainda não tão bem compreendido quanto o papel do Governo, tem grande responsabilidade nessa contradição. Estamos aprendendo o que é governo, mas penso que há ainda um longo caminho para compreendermos o que é Estado. Ao longo de tempos diferentes, o Estado, bem como os Governos brasileiros têm sistematicamente ignorado grande parte de imensos problemas que nos constituem como paÃs. A reforma agrária, o monopólio das comunicações, o analfabetismo ou o trabalho escravizado são alguns. Outros, como os direitos do povo indÃgenas, ou quilombolas, o acesso à educação fundamental, estão sendo tratados.
São muitos os problemas, e muitas as soluções, e isso, o número de soluções, é em si, um novo problema , quando não se articulam os esforços para solucioná-los. Ocorre que uma discussão muito importante para nossa identidade, é o papel de suas instituições. As instituições podem ser de diversos tipo, governamentais, não governamentais, particulares ou públicas, com ou sem fins lucrativos. Em todas essas possibilidades, estamos falando de pessoas coletivamente organizadas.
Desde Novembro de 2009, o Fórum da Cultura Digital Brasileira, deu iniciativa a 226 formas de possibilidades. Algumas mais concretas que outras, mas todas possÃveis. Estamos num momento onde a pletora de ações dissolve o rumo das coisas. Assim, um paradoxo, outro, se coloca: a quantidade de frentes que a cultura digital abre tem se tornado tão ampla quanto a agenda abaixo:
- Digitalização de Acervos
- Laboratórios de criação artÃstica e tecnológica
- Direitos Autorias
- Plano Nacional de Banda Larga
- Televisão Digital
- MÃdia Livre
- Culturas Tradicionais
- Liberdade Religiosa
- Liberdade de Gênero
- Educação Livre
- Software Livre
Para fins de comodidade, mas não de importância, o item Digitalização de Acervos, assunto primário desse blog, vem como primeiro. Ocorre que só deste, foram elencados 12 itens, no inÃcio do ano, como desejáveis, e que de fato, tiveram, ainda que não muito visÃveis ou publicizados, seus desdobramentos. Certamente não foram incluÃdas nessa lista aspectos fundamentais. Acima estão as que são mais visÃveis, desta perspectiva que aqui escreve.
O Filósofo Jacques Derrida, disse uma vez que o acesso ao acúmulo de informação social, seus arquivos, são um Ãndice do quanto essa sociedade compartilha seus valores, os materiais e os morais. A lista acima é um exemplo de uma sociedade nascente na América Latina movendo-se rumo a seu devir. Isso, o devir, é agora o que nos faz móveis, e o movimento é não linear. Essa possibilidade, que o digital tem, permite que os arquivos que estão sendo pensados, as televisões, as produções, enfim, a cultura, seja, ou lute para ser, um pouco mais livre. É complexo, muito complexo, talvez seja o tal efeito das redes…muito descentralizado, mas com pouca direção… O que, talvez não seja nem bom nem mal, se soubermos lidar com o outro nome do complexo: a diferença.
O que antes parecia impossÃvel, lidar com a diferença de milhões ao mesmo tempo, argumento utilizado por muitos, hoje em dia não se sustenta. Um exemplo disso é o projeto Metavid, cujos autores, além de fornecerem inspiração para este post (com a frase de abertura) deram um exemplo concreto do que pode ser feito com XML, vontade polÃtica e participação coletiva. O Metavid funciona como uma espécie de observatório dos representantes do povo dos Estados Unidos, na medida que disponibiliza as transcrições das sessões realizadas e gravadas pelo canal CSPAN, uma televisão privada, mas que tem uma missão pública. Algo que ainda estamos aprendendo como equacionar à nossa maneira, por aqui.
Seriam muitos, muitos os exemplos de pequenas coisas que não têm tanta visibilidade, mas que estão em curso. Pelo contrário, há, de vez em quando, grandes anúncios, que tenham menor impacto sobre as pessoas. O tempo dirá.
O autor:
De acordo com o Skoob.com, Jacques Derrida é um filósofo francês, "fortemente influenciado por Sigmund Freud e Martin Heidegger, Jacques Derrida foi um dos mais importantes filósofos do pós-estruturalismo e pós-modernismo. Fã de esportes, chegou a cogitar seguir carreira como jogador de futebol. Foi um dos pensadores franceses mais conhecidos internacionalmente, em particular nos Estados Unidos. Ali, a partir de 1956, lecionou nas universidades de Harvard, Yale e John Hopkins. Na França, ensinou na Sorbonne e na Escola Normal Superior. Derrida foi precursor de uma reflexão crÃtica sobre a filosofia e seu ensino. Isso o levou a criar, em 1983, o Colégio Internacional de Filosofia, presidido por ele até 1985".
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