Apocalipse: opinião pública e opinião publicada

by - outubro 22, 2013


Livro curtinho, simples, direto. Expressa um pouco sobre as concepções de Maffesoli. Crítico do positivismo, defensor e teórico da pós-modernidade, o autor fala-nos dessa opinião pública e opinião publicada, onde a primeira seria uma pretensão sem um saber, enquanto a última tem consciência de sua fragilidade, no entanto, mais verdadeira. O apocalipse seria, então, um evocativo da revolução das coisas, uma revolução radical.

Para quem não é leitor de Maffesoli, pode achar o livro confuso e sem sentido, mas para quem conhece o autor, a obra é um esclarecimento sobre noções próprias deste, como o tribalismo, o societal, o querer estar-junto e a pós-modernidade.

Resumo
A confusão das palavras acaba sempre acarretando a das coisas.

[…] nos períodos de mudanças, é urgente encontrar palavras, senão absolutamente precisas, ao menos o menos falsas possível. Palavras que pouco a pouco, (re)tornam-se expressões fundadoras: ou seja, asseguram a base do “estar-junto” emergente. p. 9

Não é fácil porque, especialmente em nossa época, confundimos opinião pública com opinião publicada. A publicada é realmente uma opinião, mas pretende ser um saber, expertise ou até mesmo ciência, enquanto que a pública tem consciência da sua fragilidade, da sua versatilidade, logo da sua humanidade. Seria isso que Maquiavel chamava “o pensamento da praça pública”? p. 10

Há diversas palavras, mais ou menos adequadamente empregadas, que dão conta da necessidade de retornar ao que fundamenta o vínculo social. É o caso de “crise”. p. 12

Em certos momentos, uma sociedade não tem mais consciência do que a une e, a partir de então, não tem mais confiança nos valores que asseguram a solidez do vínculo social. p. 13

[…] quando uma civilização deu o melhor dela mesma, ela sente a necessidade de retornar a sua fonte. Ela se inverte em cultura. p. 14

[…] civilização é a maneira de despender, talvez de dilapidar, o tesouro cultural, que é, ao mesmo tempo, o fundamento e os fundos que garantem, stricti sensu, a vida social e permitem, além ou aquém das vicissitudes da existência, o estar-junto fundamental. p. 14-15.

[…] a época espera seu próprio apocalipse. p. 15

[…] o apocalipse […] é o que evoca a revolução das coisas. p. 16

Logo, ele não é incoerente. Mas incoativo ao exprimir o necessário recomeço do que está esclerosado. A finalização do que estava latente. É o que devolve força e vigor às instituições desfalecidas. p. 16

[…] não há revelação se não há ocultação. Não há aparecimento se não há escondido. E às vezes esse oculto é essencial. p. 16-17.

É assim que se deve compreender o apocalipse: o que revela o oculto. O que torna aparente o segredo do estar-junto. O que, além das representações às quais nós estamos habituados demais, presentifica, apresenta o que está lá, indubitável, irrefutável, intangível. p. 17

[…] pensamento apocalíptico: revelador do que está aí, mas que tendíamos a esquecer. p. 17

Porque é este mundo, e não um outro por vir, que é o problema primordial da sociedade pós-moderna. p. 17

[…] não é mais o desenvolvimentismo que prevalece, mas sim um envolvimentismo. O estético, nesse sentido, consiste em aproveitar essa terra e não mais em violentá-la a qualquer custo. Se eu tivesse de retornar aqui uma expressão que propus para entender os mistérios da pós-modernidade, seria uma ética do estético que está em gestação. Estritamente é um vínculo que se elabora a partir do compartilhamento da beleza e das emoções que ela não deixa de provocar. p. 21-22.

[…] é em termos climatológicos que podemos compreender as especificidades das tribos sexuais, musicais, religiosas que, cada vez mais, vão constituir a vida social. p. 22

societal. Não é mais o simples social dominado pelo racional, tendo por expressão o político e o econômico, mas outra maneira de estar-junto, em que o imaginário, o onírico, o lúdico, justamente, ocupam um lugar primordial. p. 26

Provocação > chamar antes.

O jogo das paixões, a importância das emoções, a força dos sonhos como cimento coletivo. Eis o que é a orgia dionisíaca. É bom lembrar que muitos foram os grandes momentos culturais que se basearam em tais premissas. p. 27



Tribos pós-modernas

É certo que quando uma forma de vínculo social se satura e que uma outra (re)nasce, isso se faz, sempre, em meio ao medo e ao tremor. p. 36

Eu disse: Política ou Jogo. E a prevalência deste último é tão evidente que a política se teatralizou, tornou-se objeto de derrisão; em resumo, foi contaminada pelo lúdico. p. 36

De toda forma, e qualquer que seja o sentimento que nutramos por elas, essas tribos pós-modernas estão aí. E ao menos que as examinemos todas, é preciso “lidar com elas”, acomodar-se em relação às suas formas de ser e aparecer, com seus piercings e tatuagens diversas, seus curiosos rituais, suas músicas barulhentas, logo com a nova cultura da qual elas são encarnações informadas e dinâmicas. p. 36

[…] "o tédio nasceu da uniformidade". A intensidade de ser se perde quando a domesticação se generaliza. p. 37

É sobre uma tal lógica da dominação que será elaborado o mito do Progresso e da doutrina da igualdade social, que é seu corolário direto. p. 39

E, quando o imperador Meiji abriu seus portos aos navios europeus ou quando o Brasil inscreveu em sua bandeira a célebre fórmula de Auguste Comte, “Ordem e Progresso”, podemos dizer que a heterogeinização do mundo atingiu um apogeu até então jamais conhecido. p. 40

[…] falar em nome da Humanidade e da Razão é particularmente pérfido, visto que esconde (apenas) que a motivação real de todos os “moralistas” é, simplesmente, o poder. p. 41-41

Poder econômico, poder político, poder simbólico, este é o fim normal da filosofia da história e das filosofias morais. É sempre em nome do Bem, do Ideal, do Humano, da Classe e de outras entidades abstratas que cometemos os atos mais torpes. Há sempre entre os moralistas um homem do ressentimento que dorme! p. 42

O instinto, o primitivismo, nada mais é que ceder lugar aos nervos. É considerar que o próprio da natureza humana não se resume ao cognitivo, ao racional, mas a uma complexio oppositorum que poderíamos traduzir como uma montagem, uma tessitura de coisas opostas. p. 44-45
A expressão habitualmente utilizada para estigmatizar o fenômeno tribal é o termo “comunitarismo”. Como toda estigmatização, originária do medo que existe, é uma forma de indolência pela qual corremos o risco de pagar caro. Vício de linguagem muito difundido, à esquerda e à direita, que consiste em ver bárbaros por todos os lados. É também uma forma de estupidez. Na realidade, não resolvemos o que gera questões suprimindo-o magicamente ou negando-o. p. 47

Outra atitude infantil é o encantamento: repetimos as palavras, a maioria delas vazia de sentido, e pensamos assim resolver o problema. p. 47

[…] a heterogeneidade está de volta. É o que Max Weber chamava de politeísmo dos valores, como a reafirmação da diferença, os localismos diversos, as especificidades culturais e de linguagem, as reivindicações étnicas, sexuais, religiosas, as múltiplas reuniões em torno de uma origem comum, real ou mistificada. p. 48-49.

Tudo é motivo para celebrar um estar-junto do qual o fundamento é menos a razão universal e mais a emoção compartilhada, o sentimento de pertencimento. É assim que o corpo social se fragmenta em pequenos corpos tribais. Corpos que se teatralizam, se tatuam, se perfuram. As cabeleiras se eriçam e se cobrem de lenços, de kipas, de turbantes ou de outros acessórios, até – e inclusive – o lenço Hermès. Em resumo, a monotonia cotidiana ganha cores novas, traduzindo assim a fecunda multiplicidade dos filhos de deus. Porque nós sabemos que há várias casas na casa do pai! p. 49

Eis o que caracteriza o tempo das tribos. Sejam sexuais, musicais, religiosas, esportivas, culturais, ou até políticas, elas ocupam o espaço público. É uma constatação cuja negação é pueril e irresponsável. É doentio estigmatizá-la. p. 49

[…] o ideal comunitário das tribos pós-modernas repousa sobre o retorno de uma sólida e rizomática solidariedade orgânica. p. 52

Não é necessário ser apaixonado pelas tecnologias interativas para compreender a importância dos “sites de relacionamento”. Myspace, Facebook e outros permitem aos internautas tecer vínculos, trocar ideias e sentimentos, paixões, emoções e fantasias. Youtube também favorece a circulação da música e outras criações artísticas. p. 53

[…] escutemos o conselho de Gaston Bachelard: “só existe ciência daquilo que é oculto”. p. 58
“Os aspectos mais importantes para nós são ocultos por causa de sua banalidade e de sua simplicidade” (Wittgenstein) p. 59

Rumo à guerra civil?

[…] o trabalho do pensamento consiste em transfigurar o que nós vemos, o que sentimos, o que pressentimos. Ou seja, para usar uma metáfora, ser um escavador de ideias. p. 63

Boris Souvarine, um bom conhecedor de Stalin, disse, corretamente, a propósito dos stalinistas, de maneira um pouco cruel: “não é por que uma puta troca de calçada que ela deixa de ser uma puta”. p. 68

Considerar este mundo imundo, infame, negá-lo, eis as raízes, mais ou menos conscientes do homem do ressentimento moderno. Jansenismo, marxismo, freudismo, eis as três tetas nas quais mamou o senso comum das elites contemporâneas. p. 70

O que parece em jogo no no apocalipse contemporâneo, é que ele desvela, desmascara […] as nostalgias de um paraíso perdido e as melancolias de um paraíso futuro. p. 75

Apocalipse, eu disse, que reclama a elaboração de um pensamento radical, em lugar de nossa habitual e moderna atitude crítica. Radicalidade que se enraíza no que está aí. E, a partir de então, pensamento concreto, ou seja, que cresce com o que está aí. p. 76

MAFFESOLI, Michel. Apocalipse: opinião pública e opinião publicada. Porto Alegre: Sulina, 2010.


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