Amor líquido
Já faz um bom tempo que eu queria ler algum livro do Bauman.
Eu não trabalho com ele em nenhuma das minhas pesquisas, mas meu pai comentava
sobre, minha irmã, minhas amigas, na academia, nos documentários. Todos falavam
sobre Bauman. Assim, eu precisava entendê-lo um pouco mais, já que o básico eu
sei. Bauman acredita em tempos líquidos. Mas antes de compreender perfeitamente
o que é a “modernidade líquida” para o autor, decidi iniciar minha leitura por
um tema que me despertou curiosidade: a fragilidade dos laços humanos. Na obra
em questão, Bauman (2004) fala, essencialmente, sobre relacionamentos humanos,
mas também contempla-nos com suas percepções sobre filhos, sexo, comunidade,
opiniões, estrangeiros, entre outras coisas. Claro, o faz de forma genial.
1. Apaixonar-se e desapaixonar-se
“Não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a
morrer. […] Chegado o momento, o amor e a morte atacarão – mas não se tem a
mínima ideia de quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você
desprevenido” (BAUMAN, 2004, p. 17).
“A experiência dos outros pode ser conhecida como a história
manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram (BAUMAN, 2004, p. 18).
“Pode-se supor […] que em nossa época cresce rapidamente o
número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de suas experiências
de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e
que têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro”
(BAUMAN, 2004, p. 19).
“Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de 'fazer
amor'” (BAUMAN, 2004, p. 19).
“Sem humildade e coragem não há amor” (BAUMAN, 2004, p. 22).
“Desejo e amor. Irmãos. Por vezes gêmeos; nunca, porém,
gêmeos idênticos. Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e
digerir – aniquilar” (BAUMAN, 2004, p. 23).
“Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. […] Se o
desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua” (BAUMAN, 2004, p. 24).
“'Estar num relacionamento' significa muita dor de cabeça,
mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e
verdadeiramente seguro daquilo que faz – ou de ter feito a coisa certa ou no
momento preciso” (BAUMAN, 2004, p. 29).
“Perder um marido não é o fim do mundo. Maridos, mesmo na
antiga Grécia […], são apenas temporários. Perdê-los é, sem dúvida, doloroso,
mas tem cura. A perda dos pais, ao contrário, é irrevogável”
(BAUMAN, 2004, p. 43).
[GRUPOS] Sennett: “interesses compartilhados” pela
“identidade compartilhada”. […] a “empatia por um grupo seleto de pessoas
aliada à rejeição das questões que não estiverem dentro do círculo local”
(BAUMAN, 2004, p. 48).
[GRUPOS] “Benedict Anderson cunhou o termo 'comunidade
imaginada' para dar conta do mistério da autoidentificação com uma ampla
categoria de desconhecidos com quem se acredita compartilhar alguma coisa
suficientemente importante para que se fale deles como um 'nós' do qual er, que
falo, sou parte” (BAUMAN, 2004, pp. 48-49).
[COMUNIDADE] “As 'comunidades da mesmidade', predeterminadas,
mas aguardando sere reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo
vez a 'comunidades de ocasião', que se espera serem autoconstruídas em
torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como pontos
focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa
de vida. Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções
e estimulam a conjunção de interesses – fugaz, mas não por isso menos intensa –
a se coligar e aderir “à causa” (BAUMAN, 2004, p. 51).
2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade
“Homo sexualis: abandonado e destituído” (BAUMAN,
2004, p. 55).
[…] “o desejo sexual […] torna qualquer ser humano – ainda
que realizado e, sob todos os outros aspectos, autossuficiente – incompleto e
insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro” (BAUMAN, 2004, p. 55).
“Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto
de consumo emocional” (BAUMAN, 2004, p. 59).
“Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o
consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida” (BAUMAN, 2004, p. 60).
“'Formar uma família' é como pular de cabeça em águas
inexploradas e de profundidade insondável” (BAUMAN, 2004, p. 60).
[…] “o orgasmo sexual 'assume uma função que o torna não
muito diferente do alcoolismo e do vício em drogas'. Tal como estes, ele é
intenso – mas 'transitório e periódico'” (BAUMAN, 2004, p. 62).
“Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo”
(BAUMAN, 2004, p. 66).
[CONSUMO] “O que caracteriza o consumismo não é acumular bens
[…], mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para
outros bens e usos. A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E
também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam. É a
rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo
consumens” (BAUMAN, 2004, pp. 67-68).
[CONSUMO] “Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem
presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e
aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos da sociedade de
consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os
fracassados – famintos definhando m meio à opulência do banquete consumista”
(BAUMAN, 2004, p. 68).
“Com muita frequência, a peça publicitária substitui o todo
pela parte. As vendas crescem graças a suprimentos de angústia que excedem em
muito a capacidade de cura do produto” (BAUMAN, 2004, p. 69).
“Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se
chegaria à realização e recomeçar – mesmo que a partir do zero, se as
perspectivas parecerem atraentes” (BAUMAN, 2004, p. 74).
“Não se deixe apanhar. Evite abraços apertados. Lembre-se de
que, quanto mais profundas e densas suas ligações, compromissos e engajamentos,
maiores os seus riscos. Não confunda a rede - um turbilhão de caminhos sobre os
quais se pode deslizar – com uma malha, essa coisa traiçoeira que, vista de
dentro, parece uma gaiola. E lembre-se, claro, de que apostar todas as fichas
em um só número é a máxima insensatez!” (BAUMAN, 2004, p. 78).
“O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas
simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões
tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços”
(BAUMAN, 2004, p. 82).
“A distância não é
obstáculo para se entrar em contato – mas entrar em contato não é obstáculo
para permanecer à parte” (BAUMAN, 2004, p. 82).
“Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e
então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se
um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim
dizer, separadamente lado a lado” (BAUMAN, 2004, p. 84).
“’Você sempre pode apertar a tecla para deletar. Deixar de
responder um e-mail é a coisa mais fácil do mundo’” (BAUMAN, 2004, p. 85).
“Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa
do amor - a negação do status de objeto
digno do amor – alimenta a autoversão. [...] Outros devem nos amar primeiro
para que comecemos a amar a nós mesmos” (BAUMAN, 2004, p. 100).
“Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o
mais apto que invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a
derradeira prova de aptidão” (BAUMAN, 2004, p. 110).
“A atração de uma ‘comunidade da mesmidade’ é a de segurança
contra os riscos de que está repleta a vida cotidiana num mundo polifônico. Ela
não reduz riscos, muito menos o afasta. Como qualquer paliativo, promete apenas
um abrigo em relação a alguns dos efeitos mais imediatos e temidos desse risco”
(BAUMAN, 2004, p. 134).
4. Convívio destruído
“A modernidade produziu desde o início, e continua a
produzir, enormes quantidades de lixo humano” (BAUMAN, 2004, p. 148).
“O fato dos outros discordarem de nós (não prezarem o que
prezamos, e prezarem justamente o contrário; acreditarem que o convívio humano
possa beneficiar-se de regras diferentes daquelas que consideramos superiores;
acima de tudo, duvidarem de que temos acesso a uma linha direta com a verdade
absoluta, e também de que sabemos com certeza onde uma discussão deve terminar
antes mesmo de ter começado), isso não é
um obstáculo no caminho que nos conduz à comunicação humana. Mas a convicção de
que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a
única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros,
se diferentes da nossa, são ‘meras opiniões’, esse sim é um obstáculo” (BAUMAN,
2004, p. 178).
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos
laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

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