Amor líquido

by - novembro 11, 2013



Já faz um bom tempo que eu queria ler algum livro do Bauman. Eu não trabalho com ele em nenhuma das minhas pesquisas, mas meu pai comentava sobre, minha irmã, minhas amigas, na academia, nos documentários. Todos falavam sobre Bauman. Assim, eu precisava entendê-lo um pouco mais, já que o básico eu sei. Bauman acredita em tempos líquidos. Mas antes de compreender perfeitamente o que é a “modernidade líquida” para o autor, decidi iniciar minha leitura por um tema que me despertou curiosidade: a fragilidade dos laços humanos. Na obra em questão, Bauman (2004) fala, essencialmente, sobre relacionamentos humanos, mas também contempla-nos com suas percepções sobre filhos, sexo, comunidade, opiniões, estrangeiros, entre outras coisas. Claro, o faz de forma genial.  


1. Apaixonar-se e desapaixonar-se

“Não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. […] Chegado o momento, o amor e a morte atacarão – mas não se tem a mínima ideia de quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você desprevenido” (BAUMAN, 2004, p. 17).

“A experiência dos outros pode ser conhecida como a história manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram (BAUMAN, 2004, p. 18).

“Pode-se supor […] que em nossa época cresce rapidamente o número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de suas experiências de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e que têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro” (BAUMAN, 2004, p. 19).

“Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de 'fazer amor'” (BAUMAN, 2004, p. 19).

“Sem humildade e coragem não há amor” (BAUMAN, 2004, p. 22).

“Desejo e amor. Irmãos. Por vezes gêmeos; nunca, porém, gêmeos idênticos. Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar” (BAUMAN, 2004, p. 23).

“Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. […] Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua” (BAUMAN, 2004, p. 24).

“'Estar num relacionamento' significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz – ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso” (BAUMAN, 2004, p. 29).
“Perder um marido não é o fim do mundo. Maridos, mesmo na antiga Grécia […], são apenas temporários. Perdê-los é, sem dúvida, doloroso, mas tem cura. A perda dos pais, ao contrário, é irrevogável” (BAUMAN, 2004, p. 43).

[GRUPOS] Sennett: “interesses compartilhados” pela “identidade compartilhada”. […] a “empatia por um grupo seleto de pessoas aliada à rejeição das questões que não estiverem dentro do círculo local” (BAUMAN, 2004, p. 48).

[GRUPOS] “Benedict Anderson cunhou o termo 'comunidade imaginada' para dar conta do mistério da autoidentificação com uma ampla categoria de desconhecidos com quem se acredita compartilhar alguma coisa suficientemente importante para que se fale deles como um 'nós' do qual er, que falo, sou parte” (BAUMAN, 2004, pp. 48-49).

[COMUNIDADE] “As 'comunidades da mesmidade', predeterminadas, mas aguardando sere reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo vez a 'comunidades de ocasião', que se espera serem autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como pontos focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida. Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções e estimulam a conjunção de interesses – fugaz, mas não por isso menos intensa – a se coligar e aderir “à causa” (BAUMAN, 2004, p. 51).


2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade

Homo sexualis: abandonado e destituído” (BAUMAN, 2004, p. 55).

[…] “o desejo sexual […] torna qualquer ser humano – ainda que realizado e, sob todos os outros aspectos, autossuficiente – incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro” (BAUMAN, 2004, p. 55).

“Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional” (BAUMAN, 2004, p. 59).
“Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida” (BAUMAN, 2004, p. 60).
“'Formar uma família' é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável” (BAUMAN, 2004, p. 60).

[…] “o orgasmo sexual 'assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do vício em drogas'. Tal como estes, ele é intenso – mas 'transitório e periódico'” (BAUMAN, 2004, p. 62).

“Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo” (BAUMAN, 2004, p. 66).

[CONSUMO] “O que caracteriza o consumismo não é acumular bens […], mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos. A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam. É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo consumens” (BAUMAN, 2004, pp. 67-68).
[CONSUMO] “Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos da sociedade de consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados – famintos definhando m meio à opulência do banquete consumista” (BAUMAN, 2004, p. 68).

“Com muita frequência, a peça publicitária substitui o todo pela parte. As vendas crescem graças a suprimentos de angústia que excedem em muito a capacidade de cura do produto” (BAUMAN, 2004, p. 69).

“Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e recomeçar – mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes” (BAUMAN, 2004, p. 74).

“Não se deixe apanhar. Evite abraços apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e densas suas ligações, compromissos e engajamentos, maiores os seus riscos. Não confunda a rede - um turbilhão de caminhos sobre os quais se pode deslizar – com uma malha, essa coisa traiçoeira que, vista de dentro, parece uma gaiola. E lembre-se, claro, de que apostar todas as fichas em um só número é a máxima insensatez!” (BAUMAN, 2004, p. 78).

“O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços” (BAUMAN, 2004, p. 82).

A distância não é obstáculo para se entrar em contato – mas entrar em contato não é obstáculo para permanecer à parte” (BAUMAN, 2004, p. 82).

“Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado” (BAUMAN, 2004, p. 84).

“’Você sempre pode apertar a tecla para deletar. Deixar de responder um e-mail é a coisa mais fácil do mundo’” (BAUMAN, 2004, p. 85).

“Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor -  a negação do status de objeto digno do amor – alimenta a autoversão. [...] Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos” (BAUMAN, 2004, p. 100).

“Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o mais apto que invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a derradeira prova de aptidão” (BAUMAN, 2004, p. 110).

“A atração de uma ‘comunidade da mesmidade’ é a de segurança contra os riscos de que está repleta a vida cotidiana num mundo polifônico. Ela não reduz riscos, muito menos o afasta. Como qualquer paliativo, promete apenas um abrigo em relação a alguns dos efeitos mais imediatos e temidos desse risco” (BAUMAN, 2004, p. 134).


4. Convívio destruído

“A modernidade produziu desde o início, e continua a produzir, enormes quantidades de lixo humano” (BAUMAN, 2004, p. 148).

“O fato dos outros discordarem de nós (não prezarem o que prezamos, e prezarem justamente o contrário; acreditarem que o convívio humano possa beneficiar-se de regras diferentes daquelas que consideramos superiores; acima de tudo, duvidarem de que temos acesso a uma linha direta com a verdade absoluta, e também de que sabemos com certeza onde uma discussão deve terminar antes mesmo de ter começado), isso não é um obstáculo no caminho que nos conduz à comunicação humana. Mas a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são ‘meras opiniões’, esse sim é um obstáculo” (BAUMAN, 2004, p. 178).


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.


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