A Cultura da Participação
Conheci o livro por acaso, entre uma estante e outra da Livraria Cultura. Comprei por achar o título e a sinopse interessante, e depois de ler, acredito que esse seja um dos pilares essenciais que prosseguirei em meus estudos da tese. Na sequência, comprei outro livro do mesmo autor (Lá vem todo mundo), que complementa essa primeira leitura.
Sobre o livro:
Livro curtinho (tem cerca de 185 páginas de texto, o restante é bibliografia e notas) e super interessante. Mas claro, Clay observa um fenômeno optando por um olhar generoso, esperançoso e positivo. Outros autores como Andrew Keen (autor de Vertigem Digital) criticam o autor, pois observam o mesmo fenômeno, porém com outras perspectiva, outro olhar, um pouco mais negativo. Por isso, sempre é importante comparar ideias e ver mais de um lado do contexto. O livro de Clay pode soar verdadeiro ou fantasioso demais, conforme cada interpretação. Mas eu prefiro acreditar na primeira opção. Sou mais Clay do que Andrew. A essência do livro é compreender o que fazemos com o nosso excedente cognitivo, ou seja, o que fazemos com o tempo que nos sobra. Antes, utilizávamos esse tempo sentado na frente da TV, ou seja, desperdiçávamos um tempo precioso. Atualmente, deixamos de ser "tão" passivos e nos tornamos mais ativos, participativos, colaborativos. A nossa sociedade está mudando, possibilitada pela tecnologia. Mas ela não é a razão dessa mudança, mas sim a facilitadora. O livro é dividido em 7 capítulos, tentarei fazer um resumo de acordo com cada um deles.
Resenha:
1. Gim, televisão e excedente cognitivo
Neste capítulo, o autor compara que a nossa televisão é o gim de Londres, em 1720. Nesta época, a cidade estava ficando bêbada, contagiada pela gim-mania, pois o consumo da bebida cresceu "drasticamente nos primeiros anos do século XVIII, enquanto o consumo de cerveja e vinho permaneceu estável" (p. 07). A população londrina crescia a cada dia, assim como a quantidade de mulheres que começaram a beber gim, frequentando salões que antes eram preenchidos somente por homens. Shirky (2011, p. 08-09) observa que não difícil compreender por que as pessoas estavam consumindo tanto gim. "Ele é saboroso e intoxicante, uma combinação atraente, sobretudo quando um mundo católico pode fazer a sobriedade parecer superestimada. Beber gim foi a maneira de lidar com a situação encontrada por pessoas que de repente se viram amontoadas nas primeiras décadas da era industrial, criando um fenômeno urbano, especialmente concentrado em Londres". O Parlamento, observando a situação, proibiu "vários aspectos da produção, do consumo, ou da venda de gim". Mas isso foi ineficaz, pois a população deu um jeito de consumir o produto. O que as autoridades não perceberam é que estavam encarando o consumo de gim "como um problema a ser resolvido, quando de fato ele era uma reação ao problema real - mudanças sociais drásticas e a inadaptabilidade de antigos modelos cívicos". Deste modo, "o que ajudou a acabar com a gim-mania foi a reestruturação da sociedade em torno de novas realidades urbanas criadas pela inacreditável densidade populacional de Londres [...]".
A televisão é o nosso gim moderno. Ela "absorveu a maior parte do tempo livre dos cidadãos do mundo desenvolvido". Na maior parte do nosso tempo livro, o que fazemos? Vimos televisão (bom, eu já não posso me enquadrar nessa estimativa porque não assisto TV, prefiro um livro). Shirky (2011, p. 10-11) conta-nos que "na história da mídia, apenas o rádio foi tão onipresente, e podia-se ouvir rádio ao realizar outras atividades, como trabalhar ou se locomover. Para a maioria das pessoas, em grande parte das vezes, ver televisão é uma atividade. (Porque a TV entra pelos olhos bem como pelos ouvidos, imobiliza mesmo os usuários moderadamente atentos, paralisando-os em cadeiras e poltronas, como um prerrequisito de consumo). A TV tem sido o nosso gim, uma resposta infinitamente expansível à crise da transformação social, e, assim como o consumo de gim, não é difícil explicar por que as pessoas assistem a determinados programas de televisão". Como o autor ressalta, o problema não está em "assistir TV" ou na "escolha dos programas", mas sim, no volume. As pessoas assistem tudo o que tiver para assistir, passam horas na frente da televisão, perdendo um tempo precioso. Esse é o problema, a TV ocupou um espaço muito grande na vida da sociedade, roubando um tempo que antes era dedicado à socialização. Em geral, a sociedade trabalha, dorme e vê TV. Shirky (2011, p. 11) cita a pesquisa "Ver TV nos faz feliz?", onde tais estudos apontam "não apenas que pessoas infelizes assistem consideravelmente mais televisão do que pessoas felizes, mas, além disso, que ver TV também afasta outras atividades que provocam menos interesse imediato mas que podem produzir maior satisfação a longo prazo. Passa várias horas vendo TV, por outro lado, associa-se a maiores aspirações materiais e a um aumento de ansiedade". Enfim, ficar horas em frente à TV é um "enorme desperdício", e nem precisamos encarnar o Mike Teavee do filme A fantástica fábrica de chocolate. Assim como o gim, ver TV não é o problema, é a reação ao problema, pois nos isolamos e procuramos refúgio e companhia assistindo aos nossos programas preferidos. "Ver televisão cria, assim, uma espécie de monotonia" (p. 13). Como falei anteriormente, eu consegui excluir a rotina de assistir TV da minha vida, nada contra ela ou quem assiste, mas acredito que minha vida está mais produtiva e feliz assim.
Em contrapartida, Shirky (2011, p. 15-16) afirma que "populações jovens com acesso à mídia rápida e interativa afastam-se da mídia que pressupõe puro consumo. Mesmo quando assistem a vídeos online, aparentemente uma mera variação da TV, eles têm oportunidade de comentar o material, compartilhá-lo com os amigos, rotulá-lo, avaliá-lo ou classificá-lo e, é claro, discuti-lo com outros espectadores por todo o mundo". "Os usos sociais de nossos novos mecanismos de mídia estão sendo uma grande surpresa, em parte porque a possibilidade desses usos não estava implícita nos próprios mecanismos. [...] Queremos estar conectados uns aos outros, um desejo que a televisão, enquanto substituto social, elimina, mas que o uso da mídia social, na verdade, ativa" (p. 18). Ou seja, utilizamos nosso excedente cognitivo (o tempo e a inteligência que nos sobre, digamos assim) para coisas mais úteis, do que ver TV.
Shirky (2011, p. 21) acredita que "as pessoas querem fazer algo para transformar o mundo em um lugar melhor. Ajudam, quando convocadas a fazê-lo. O acesso a ferramentas baratas e flexíveis remove a maioria das barreiras para tentar coisas novas. [...] quando você tiver descoberto como direcionar o excedente de modo que as pessoas se importem, outros podem reproduzir a sua técnica, cada vez mais, por todo o mundo".
É claro que na internet tem muito excedente cognitivo utilizado para coisas estúpidas, como o lolcat, citado pelo autor. Mas, "o ato criativo mais estúpido possível ainda é um ato criativo" (p. 22). O que o lolcat nos mostra é: "você também pode brincar disso". "A expressão 'conteúdo gerado por usuários', a marca atual para atos criativos feito por amadores, na verdade, descreve atos não apenas pessoais, mas também sociais. [...] Compartilhar, na verdade, é o que torna divertido fazer - ninguém cria um lolcat só para si mesmo". Assim, "uma vez aceita a ideia de que gostamos de fazer e compartilhar coisas, por mais imbecis em conteúdo ou pobres em execução que sejam, e que fazermos rir uns aos outros é um tipo de atividade diferente de ser levado a rir por pessoas pagas para nos fazer rir, então sob vários aspectos o Cartoon Network é um substituto de qualidade inferior para os lolcats" (p. 23).
Estamos começando a deixar de ser passivos para sermos participativos. "Participantes são diferentes. Participar é agir como se sua presença importasse, como se, quando você vê ou ouve algo, sua resposta fizesse parte do evento". Diferentemente disso, "a mídia do século XX voltava-se para um único enfoque: consumo. [...] a mídia é na verdade como um triatlo, com três enfoques diferentes: as pessoas gostam de consumir, mas também gostam de produzir e compartilhar. Sempre gostamos dessas três atividades, mas até há pouco tempo a mídia tradicional premiava apenas uma delas" (p. 25). "Expandir o nosso foco para incluir produção e compartilhamento nem sempre requerem grandes alterações no comportamento individual para gerar enormes mudanças no resultado. O excedente cognitivo do mundo é tão grande que pequenas mudanças podem ter enormes ramificações no total" (p. 26). "Vivemos, pela primeira vez na história, em um mundo no qual ser parte de um grupo totalmente interconectado é a situação normal da maioria dos cidadãos" (p. 27).
O autor destaca que a "simples noção de mídia é a camada intermediária em qualquer meio de comunicação, seja ele tão antigo quanto o alfabeto ou tão recente quanto o telefone celular. Além dessa definição direta e relativamente pura, há outra noção, herdada dos padrões de consumo de mídia ao longo das últimas décadas, de que mídia se refere a um conjunto de negócios, de jornais e revistas até rádio e televisão, com maneiras específicas de produzir material e formas específicas de fazer dinheiro. E, enquanto usarmos 'mídia' para nos referirmos apenas a esses negócios e a esse material, a palavra será um anacronismo, inadequada ao que acontece hoje em dia. Nossa capacidade de equilibrar consumo, produção e compartilhamento, nossa habilidade de nos conectarmos uns aos outros, está transformando o conceito de mídia, de um determinado setor da economia em mecanismo barato e globalmente disponível para o compartilhamento organizado" (p. 29).
A combinação de excedente cognitivo + cultura participativa + mídias sociais é o que está transformando o nosso contexto. Tendo mais de "1 trilhão de horas de tempo livre por ano na parte instruída da população mundial, e a invenção e a disseminação da mídia pública, que permite aos cidadãos comuns, antes deixados de fora", as pessoas estão utilizando esse "tempo livre na busca de atividades das quais gostem ou com as quais se importem" (p. 30).
2. Meios
Shirky (2011, p. 32-33) conta-nos a história de uma manifestação que aconteceu na Coreia do Sul, contra a volta de importação de carne dos Estados Unidos, que havia sido interrompido devido ao surgimento da "vaca louca". As pessoas, desde jovens, adultos, velhos, bebês, até famílias inteiras ocuparam o Cheonggyecheon. Mas a grande maioria (incluindo aí os organizadores) eram adolescentes, essencialmente, meninas adolescentes. Quando interrogada sobre a manifestação, uma das meninas observou: "Estou aqui por causa de Dong Bang Shin Ki" (uma boy band coreana). Mas a banda não era adepta declarada da manifestação, nem pediu para os seus fãs aderirem ao movimento. A banda possui um site para os fãs, que, além de conversarem e compartilharem coisas sobre a banda, também conversam e compartilham outras coisas, como política e a importação de carne. A plataforma, assim, foi o meio que uniu essas meninas e que as auxiliou na execução e organização da manifestação. Obviamente, a primeira atitude tomada pelo presidente da Coreia do Sul foi acabar com a manifestação na marra, utilizando força policial, fato que só piorou a situação, fazendo com que este, posteriormente, assumisse o seu erro. O site foi essencial porque possibilitou o contato entre as meninas, mas também por apresentar duas características da conversa online: acessibilidade (as informações podem ser acessadas por quem desejar) e permanência (os textos escritos permanecem disponíveis por um longo tempo). Shirky (2011, p. 37-38) conclui: "quando meninas adolescentes podem ajudar a organizar eventos que enfraquecem governos nacionais, sem necessidade de organizações ou organizadores para manter a bola rolando, estamos em um novo território. [...] A velha noção de que mídia é um terreno relativamente separado do 'mundo real' não se aplica mais a situações como os protestos da vaca louca ou mesmo a qualquer uma das incontáveis maneiras como as pessoas usam a mídia social para coordenar atividades no mundo real".
Neste capítulo, Shirky (2011, p. 42) argumenta sobre um assunto muito incrível: livros. Falando sobre a economia de Gutemberg, o autor argumenta que "os tipos móveis introduziram algo mais no cenário intelectual da Europa: uma abundância de livros". Ou seja, com a invenção da prensa de Gutemberg, a copia de um livro era 300 vezes mais rápido do que a cópia de um copista. Isto é, enquanto um copista copiava um livro, a prensa copiava 300. "Por isso, grande parte dos copistas desistiu de produzir exemplares adicionais dos livros existentes".
"No século XIII, o monge franciscano são Boaventura descreveu quatro maneiras de fazer livros: copiar uma obra inteira, copiar várias obras ao mesmo tempo, copiar uma obra com seus próprios adendos ou escrever parte de seu próprio trabalho com adendos de terceiros. Cada uma dessas categorias trazia seu próprio nome, como escriba ou autor, mas são Boaventura parece não ter considerado - e com certeza não descreveu - a possibilidade de alguém criar uma obra inteiramente original. Nesse período, havia muitos poucos livros, e boa parte deles consistia em cópias da Bíblia, portanto a ideia de se fazerem livros centrava-se em recriar e recombinar palavras existentes, muito mais do que produzir novas" (p. 43).
"Os tipos móveis acabaram com esse empecilho, e a primeira coisa que o crescente grupo de impressores europeus fez foi imprimir mais Bíblias - montanhas de Bíblias. Os impressores começaram a publicar Bíblias traduzidas para idiomas comuns - línguas contemporâneas que não o latim -, porque os padres não as queriam não apenas por conveniência, mas por uma questão de doutrina. Passaram, depois, a lançar novas edições de obras de Aristóteles, Galeno, Virgílio e de outros autores que sobreviveram à Antiguidade. E as prensas podiam produzir ainda mais. O passo seguinte dados pelos impressores foi ao mesmo tempo simples e surpreendente: imprimir montes de coisas novas. Antes dos tipos móveis, a maior parte da literatura disponível na Europa era em latim e tinha pelo menos mil anos. E assim, num piscar de olhos, os livros começaram a aparecer nos idiomas locais, obras cujo texto datava de meses, em vez de séculos, livros que eram, ao mesmo tempo, variados, contemporâneos e comuns" (p. 43). "Na verdade, ser responsável pela possibilidade de um livro ser impopular marca a transição de impressores (que faziam cópias de livros consagrados) para editores (que assumem o risco da novidade)" (p. 44) .
Contudo, hoje contamos com o botão "publicar" e cada vez menos dependemos de editoras ou do aval de revistas para sermos acessados e lidos. Depois de Gutemberg e do botão "publicar", temos acesso a um número infinitamente maior de conteúdo e de informação. Criticando a grande quantidade de livros impressos depois de Gutemberg, Martinho Lutero afirmou em 1569: "a multiplicidade de livros é um grande mal. Não há limites para essa febre de escrever; qualquer um pode ser autor, alguns por vaidade, para ganhar fama e criar um nome; outros apenas pelo mero ganho material". Em 1845, Edgar Allan Poe comentou: a enorme multiplicação de livros em todos os ramos do conhecimento é um dos maiores males dessa era, uma vez que apresenta um dos mais sérios obstáculos à aquisição de informação correta, ao lançar no caminho do leitor pilhas de trastes que ele precisará dolorosamente tatear em busca das sobras de sucata útil". Shirky (2011, p. 46) acredita que estes argumentos estão corretos, pois "a crescente liberdade para publicar reduz a qualidade média". No entanto, "custos reduzidos em qualquer terreno permitem um aumento nas experimentações; custos reduzidos em comunicação significam novas experiências no que é pensado e dito".
Harvey Swados, romancista americano, nota: "se essa revolução nos hábitos de leitura do público americano significa que estamos sendo inundados por um mar de lixo que vai denegrir ainda mais o gosto popular ou que agora teremos disponíveis edições baratas de uma lista de clássicos sempre crescente é uma questão de importância fundamental para o nosso desenvolvimento social e cultural" (p. 49) Shirky (2011, p. 49) acredita que "o público não precisou escolher entre um mar de lixo e uma crescente coleção de clássicos. Poderíamos ter ambos (e foi o que tivemos)". "Depois da tipografia, publicar passou a ter maior importância porque a expansão dos textos literários, culturais e científicos beneficiou a sociedade, mesmo que tenha sido acompanhada por um monte de lixo" (p. 50).
"Tanto as pessoas que colecionam e preservam primeiras edições de livros raros quanto as que compram romances populares, destroem suas lombadas e os jogam fora na semana seguinte podem, legitimamente, reivindicar o título de amantes dos livros" (p. 51).
Shirky (2011, p. 52-53) quer repensar o conceito de mídia. Para ele, "a própria palavra mídia é um pacote que se refere, ao mesmo tempo, o processo, produção e produto". Acredita que "mídia é um modo como você fica sabendo quando e onde vai ser a festa de aniversário do seu amigo. Mídia é o modo como você fica sabendo o que está acontecendo e Teerã, quem governa Tegucigalpa ou qual é o preço do chá da China. [...] Todas essas coisas costumavam ser divididas em mídia pública (como comunicação visual e impressa feita por um pequeno grupo de profissionais) e mídia pessoal (como cartas e telefonemas, feitos por cidadãos comuns). Atualmente, essas duas formas estão fundidas. A internet é a primeira mídia pública a ter uma economia pós-Gutemberg".
"Quando alguém compra uma TV, o número de consumidores aumenta em um, mas o número de produtores permanece o mesmo. Por outro lado, quando alguém compra um computador ou um telefone celular, tanto o número de consumidores quanto o de produtores aumentam em um. O talento continua distribuído de forma desigual, mas a capacidade bruta de criar e compartilhar é agora largamente distribuída e cresce a cada ano" (p. 53).
"Redes digitais estão aumentando a fluidez de todas as mídias. A velha escolha entre mídia pública de mão única (como livros e filmes) e mídia privada de mão dupla (como o telefone) expandiu-se e inclui agora uma terceira opção: mídia de mão dupla que opera numa escala do privado para o público. [...] Um livro pode estimular uma discussão pública em mil lugares simultâneos" (p. 53-54).
Pessoas gostam de compartilhar. Compartilham o que estão lendo, assistindo, comendo, ouvindo. E muitas vezes nos proporcionam informação e entretenimento de graça. Todo este compartilhamento leva-nos a uma pergunta óbvia: "por que todas essas pessoas estão trabalhando de graça? O escritor Nicholas Carr chamou esse padrão de divisão digital meeira, inspirado nos meeiros dos anos posteriores à Guerra Civil, que trabalhavam a terra mas não a possuíam, nem era donos da comida que crescia nela" (p. 55).
"Seres humanos valorizam, intrinsecamente, um sentido de conexão; considerando-se essa realidade, a lógica da divisão digital meeira perde muito do seu poder exploratório. Amadores não são apenas profissionais de tamanho reduzido; às vezes, as pessoas ficam felizes ao fazer coisas por razões incompatíveis com o fato de serem pagas. [...] Serviços que nos ajudam a compartilhar coisas prosperam exatamente porque tornam mais fácil, e muitas vezes, mais barato, para nós, fazer coisas que já gostamos de fazer" (como fazer resenhas em um blog, por exemplo) (p. 57-58).
"O direcionamento do nosso excedente cognitivo permite que as pessoas se comportem de forma cada vez mais generosa, pública e social, em comparação com seu antigo status de consumidoras e bichos-preguiça. A matéria-prima dessa mudança é o tempo livre disponível para nós, tempo que podemos investir em projetos que variam da diversão à transformação cultural. Se tempo livre fosse a única coisa necessária, entretanto, as atuais mudanças teriam acontecido há meio século. Agora temos à nossa disposição as ferramentas e as novas oportunidades que elas viabilizaram. [...] Uma mídia flexível, barata e inclusiva nos oferece agora oportunidades de fazer todo tipo de coisas que não fazíamos antes" (p. 61).
Neste capítulo, Shirky (2011, p. 42) argumenta sobre um assunto muito incrível: livros. Falando sobre a economia de Gutemberg, o autor argumenta que "os tipos móveis introduziram algo mais no cenário intelectual da Europa: uma abundância de livros". Ou seja, com a invenção da prensa de Gutemberg, a copia de um livro era 300 vezes mais rápido do que a cópia de um copista. Isto é, enquanto um copista copiava um livro, a prensa copiava 300. "Por isso, grande parte dos copistas desistiu de produzir exemplares adicionais dos livros existentes".
"No século XIII, o monge franciscano são Boaventura descreveu quatro maneiras de fazer livros: copiar uma obra inteira, copiar várias obras ao mesmo tempo, copiar uma obra com seus próprios adendos ou escrever parte de seu próprio trabalho com adendos de terceiros. Cada uma dessas categorias trazia seu próprio nome, como escriba ou autor, mas são Boaventura parece não ter considerado - e com certeza não descreveu - a possibilidade de alguém criar uma obra inteiramente original. Nesse período, havia muitos poucos livros, e boa parte deles consistia em cópias da Bíblia, portanto a ideia de se fazerem livros centrava-se em recriar e recombinar palavras existentes, muito mais do que produzir novas" (p. 43).
"Os tipos móveis acabaram com esse empecilho, e a primeira coisa que o crescente grupo de impressores europeus fez foi imprimir mais Bíblias - montanhas de Bíblias. Os impressores começaram a publicar Bíblias traduzidas para idiomas comuns - línguas contemporâneas que não o latim -, porque os padres não as queriam não apenas por conveniência, mas por uma questão de doutrina. Passaram, depois, a lançar novas edições de obras de Aristóteles, Galeno, Virgílio e de outros autores que sobreviveram à Antiguidade. E as prensas podiam produzir ainda mais. O passo seguinte dados pelos impressores foi ao mesmo tempo simples e surpreendente: imprimir montes de coisas novas. Antes dos tipos móveis, a maior parte da literatura disponível na Europa era em latim e tinha pelo menos mil anos. E assim, num piscar de olhos, os livros começaram a aparecer nos idiomas locais, obras cujo texto datava de meses, em vez de séculos, livros que eram, ao mesmo tempo, variados, contemporâneos e comuns" (p. 43). "Na verdade, ser responsável pela possibilidade de um livro ser impopular marca a transição de impressores (que faziam cópias de livros consagrados) para editores (que assumem o risco da novidade)" (p. 44) .
Contudo, hoje contamos com o botão "publicar" e cada vez menos dependemos de editoras ou do aval de revistas para sermos acessados e lidos. Depois de Gutemberg e do botão "publicar", temos acesso a um número infinitamente maior de conteúdo e de informação. Criticando a grande quantidade de livros impressos depois de Gutemberg, Martinho Lutero afirmou em 1569: "a multiplicidade de livros é um grande mal. Não há limites para essa febre de escrever; qualquer um pode ser autor, alguns por vaidade, para ganhar fama e criar um nome; outros apenas pelo mero ganho material". Em 1845, Edgar Allan Poe comentou: a enorme multiplicação de livros em todos os ramos do conhecimento é um dos maiores males dessa era, uma vez que apresenta um dos mais sérios obstáculos à aquisição de informação correta, ao lançar no caminho do leitor pilhas de trastes que ele precisará dolorosamente tatear em busca das sobras de sucata útil". Shirky (2011, p. 46) acredita que estes argumentos estão corretos, pois "a crescente liberdade para publicar reduz a qualidade média". No entanto, "custos reduzidos em qualquer terreno permitem um aumento nas experimentações; custos reduzidos em comunicação significam novas experiências no que é pensado e dito".
Harvey Swados, romancista americano, nota: "se essa revolução nos hábitos de leitura do público americano significa que estamos sendo inundados por um mar de lixo que vai denegrir ainda mais o gosto popular ou que agora teremos disponíveis edições baratas de uma lista de clássicos sempre crescente é uma questão de importância fundamental para o nosso desenvolvimento social e cultural" (p. 49) Shirky (2011, p. 49) acredita que "o público não precisou escolher entre um mar de lixo e uma crescente coleção de clássicos. Poderíamos ter ambos (e foi o que tivemos)". "Depois da tipografia, publicar passou a ter maior importância porque a expansão dos textos literários, culturais e científicos beneficiou a sociedade, mesmo que tenha sido acompanhada por um monte de lixo" (p. 50).
"Tanto as pessoas que colecionam e preservam primeiras edições de livros raros quanto as que compram romances populares, destroem suas lombadas e os jogam fora na semana seguinte podem, legitimamente, reivindicar o título de amantes dos livros" (p. 51).
Shirky (2011, p. 52-53) quer repensar o conceito de mídia. Para ele, "a própria palavra mídia é um pacote que se refere, ao mesmo tempo, o processo, produção e produto". Acredita que "mídia é um modo como você fica sabendo quando e onde vai ser a festa de aniversário do seu amigo. Mídia é o modo como você fica sabendo o que está acontecendo e Teerã, quem governa Tegucigalpa ou qual é o preço do chá da China. [...] Todas essas coisas costumavam ser divididas em mídia pública (como comunicação visual e impressa feita por um pequeno grupo de profissionais) e mídia pessoal (como cartas e telefonemas, feitos por cidadãos comuns). Atualmente, essas duas formas estão fundidas. A internet é a primeira mídia pública a ter uma economia pós-Gutemberg".
"Quando alguém compra uma TV, o número de consumidores aumenta em um, mas o número de produtores permanece o mesmo. Por outro lado, quando alguém compra um computador ou um telefone celular, tanto o número de consumidores quanto o de produtores aumentam em um. O talento continua distribuído de forma desigual, mas a capacidade bruta de criar e compartilhar é agora largamente distribuída e cresce a cada ano" (p. 53).
"Redes digitais estão aumentando a fluidez de todas as mídias. A velha escolha entre mídia pública de mão única (como livros e filmes) e mídia privada de mão dupla (como o telefone) expandiu-se e inclui agora uma terceira opção: mídia de mão dupla que opera numa escala do privado para o público. [...] Um livro pode estimular uma discussão pública em mil lugares simultâneos" (p. 53-54).
Pessoas gostam de compartilhar. Compartilham o que estão lendo, assistindo, comendo, ouvindo. E muitas vezes nos proporcionam informação e entretenimento de graça. Todo este compartilhamento leva-nos a uma pergunta óbvia: "por que todas essas pessoas estão trabalhando de graça? O escritor Nicholas Carr chamou esse padrão de divisão digital meeira, inspirado nos meeiros dos anos posteriores à Guerra Civil, que trabalhavam a terra mas não a possuíam, nem era donos da comida que crescia nela" (p. 55).
"Seres humanos valorizam, intrinsecamente, um sentido de conexão; considerando-se essa realidade, a lógica da divisão digital meeira perde muito do seu poder exploratório. Amadores não são apenas profissionais de tamanho reduzido; às vezes, as pessoas ficam felizes ao fazer coisas por razões incompatíveis com o fato de serem pagas. [...] Serviços que nos ajudam a compartilhar coisas prosperam exatamente porque tornam mais fácil, e muitas vezes, mais barato, para nós, fazer coisas que já gostamos de fazer" (como fazer resenhas em um blog, por exemplo) (p. 57-58).
"O direcionamento do nosso excedente cognitivo permite que as pessoas se comportem de forma cada vez mais generosa, pública e social, em comparação com seu antigo status de consumidoras e bichos-preguiça. A matéria-prima dessa mudança é o tempo livre disponível para nós, tempo que podemos investir em projetos que variam da diversão à transformação cultural. Se tempo livre fosse a única coisa necessária, entretanto, as atuais mudanças teriam acontecido há meio século. Agora temos à nossa disposição as ferramentas e as novas oportunidades que elas viabilizaram. [...] Uma mídia flexível, barata e inclusiva nos oferece agora oportunidades de fazer todo tipo de coisas que não fazíamos antes" (p. 61).
3. Motivo
De acordo com Shirky (2011, p. 68), há "dois grandes tipos de motivação, a intrínseca e a extrínseca. Motivações intrínsecas são aquelas nas quais a própria atividade é a recompensa. [...] Motivações extrínsecas são aquelas nas quais a recompensa por fazer algo é externa à atividade, e não a atividade em si". A partir de algumas pesquisas, estudiosos perceberam que "motivações extrínsecas nem sempre são as mais eficazes e que crescentes motivações extrínsecas podem, na verdade, reduzir as de valor intrínseco". Concluíram também que "uma motivação extrínseca, como ser pago, pode esvaziar uma intrínseca, como usufruir de algo pela coisa em si". Ou seja, muitas vezes as nossas motivações vão além do dinheiro, e em alguns casos, quando começamos a ser remunerados para fazer algo que gostamos e fazíamos de graça, a graça pode esvair-se.
"Motivação intrínseca é um rótulo genérico que agrupa diversas razões pelas quais uma pessoa pode ser motivada pela recompensa que uma atividade cria e de si mesma" (p. 71). Isso é perfeitamente compreensível quando analisamos a palavra amador etimologicamente: "alguém que faz alguma coisa por amor a ela" (p. 72).
Benkler e Nissenbaum, estudando motivação e participação, dedicaram-se essencialmente a compreender as motivações sociais, que para eles, podem ser divididas em dois grupos: "um que gira em torno da conexão ou da participação, o outro em torno de compartilhamento e generosidade". Os pesquisadores concluíram "que as motivações sociais reforçam as pessoais; nossas novas redes de comunicação encorajam a participação em comunidades e o compartilhamento, ambos intrinsecamente bons, fornecendo também apoio para autonomia e competência" (p. 74). "A motivação para compartilhar é o fator determinante; a tecnologia é apenas o facilitador" (p. 75).
"Sempre quisemos ser autônomos, competentes e conectados; só que, agora, a mídia social se tornou um ambiente para acionar esses desejos, mais do que suprimi-los" (p. 78). "A geografia ainda importa, mas não é mais o principal determinante da participação" (p. 79).
"Era difícil para os que tinham um hobby descobrir quem mais, entre os vizinhos, gostava de modelos de trens ou trabalhos em macramê. De fato, como Robert Putnam, sociólogo de Havard, documentou exaustivamente em seu livro Bowling Alone: America's Declining Social Capital, de 1995, a América pós-guerra viveu um declínio generalizado nas conexões sociais numa gama incrivelmente ampla de setores, do número de amigos íntimos à participação em grupos de hobby e equipes de esportes amadores (como sugerido pelo título de Putnam). O autor argumentou que essa redução no capital social foi motivada pela suburbanização e pelo aumento do tempo gasto com o transporte diário e dedicado a ver televisão. [...] Agora esses desejos estão começando a reaparecer porque a mídia social os tornou tanto exprimíveis quanto visíveis, e também porque motivações pessoais e sociais se ampliam mutuamente numa malha de retroalimentação. A satisfação de sentimentos de participação e compartilhamento pode aumentar nosso desejo de maior conexão, o que aumenta sua expressão, e assim por diante" (p. 82-83). "A mídia social também acaba com os custos de descoberta: o acesso à web nos permite encontrar outras pessoas que gostam de construir modelos de trens e fazer macramê, ou desenhar aviões de papel, se vestir como personagens de desenhos animados, praticar jnana yoga, tricotar meias, fotografar telefones públicos, fazer comida catalã e por aí afora, a qualquer hora do dia ou da noite, no mundo inteiro" (p. 83). De acordo com Nicholas Mirzoeff, "a web significa que estamos finalmente sendo expostos a toda a enorme gama de coisas nas quais as pessoas estão realmente interessadas" (p. 83).
"Essa estratégia de 'tornar-se público para encontrar pessoas que pensam como você' originou um aumento sem precedentes na quantidade de material disponível para o público, mas não projetado para o público - a intenção dos criadores não é alcançar qualquer audiência genérica, e sim comunicar-se com suas almas gêmeas, muitas vezes no âmbito de normas culturais compartilhadas que diferem das que estão em uso no mundo externo" (p. 84).
"Os meios para direcionar nosso excedente cognitivo são agora as novas ferramentas que recebemos, mecanismos que tanto possibilitam quanto recompensam a participação" (p. 89).
4. Oportunidade
"Não há qualquer razão [óbvia] pela qual alguém coloque seus vídeos no Youtube ou edite um artigo na Wikipédia. O problema aqui não está nos comportamentos, e sim na explicação. Assim que se parar de perguntar por que as pessoas fazem coisas 'de graça' e se começar a perguntar por que as estão fazendo, todo o espectro de motivações intrínsecas (e não financeiras) se tornará parte da explicação" (p. 92).
"Nas palavras de Farrell, 'a maioria dos círculos colaborativos consiste de um grupo central que interage e um grupo periférico 'estendido' cujo grau de envolvimento varia'. [...] O ambiente efervescente de um círculo colaborativo pode fazer com que se eles estivessem buscando os mesmos objetivos sem o compartilhamento" (p. 96).
"Não há qualquer razão [óbvia] pela qual alguém coloque seus vídeos no Youtube ou edite um artigo na Wikipédia. O problema aqui não está nos comportamentos, e sim na explicação. Assim que se parar de perguntar por que as pessoas fazem coisas 'de graça' e se começar a perguntar por que as estão fazendo, todo o espectro de motivações intrínsecas (e não financeiras) se tornará parte da explicação" (p. 92).
"Nas palavras de Farrell, 'a maioria dos círculos colaborativos consiste de um grupo central que interage e um grupo periférico 'estendido' cujo grau de envolvimento varia'. [...] O ambiente efervescente de um círculo colaborativo pode fazer com que se eles estivessem buscando os mesmos objetivos sem o compartilhamento" (p. 96).
"A mudança é um fato - as redes digitais barateiam o compartilhamento e tornam a participação potencial quase universal. Mas a reação a esse fato tem sido, com frequência, de descrença e horror, ao menos entre os que se beneficiam dos preços de mercado e dos nivelamentos oficiais. A observação de Maxine Hong Kingston quanto ao maravilhoso botão 'Publicar' rebateu cinco séculos de suposição de que amadores não podiam compartilhar coisas diretamente entre si, ao menos não em larga escala. [...] A produção social cada vez mais se baseia no 'conhecimento de como combinar' de Tocqueville" (p. 102).
"A produção social não foi incluída nos inflamados debates do século XX, porque as coisas que as pessoas podiam produzir para as outras usando seu tempo livre, trabalhando sem o mercado e sem gerentes, eram limitadas" (p. 108).
Shirky (2011, p. 110-111) fala-nos das gerações "X, Y, Z", esclarecendo-nos como a geração baby boom vivia, e depois se transformou na geração X e depois na Y. Um monte de nomenclaturas que não expressam os fenômenos mas nos auxiliam a compreendê-los. A geração Y teria maior propensão à participação e ao compartilhamento. Mas não que o pessoal nascido nessa época seja diferente, as oportunidades é que são outras.
Pensar em compartilhar conhecimento e informação é perceber que o que damos ao outro, não nos é tirado, mas sim, duplicado. Isso também se emprega à copias de músicas, resenhas, cópias de livros. O fato de eu te dar uma cópia agora não mais significa que ficarei sem a minha. Sobre isso, Thomas Jefferson ressalta: "aquele que recebe minhas ideias recebe instrução sem que eu me desfaça da minha, como aquele que acende sua vela com a chama da minha luz recebe a luz sem me deixar na escuridão" (p. 114).
"O advento do compartilhamento de música não é uma calamidade social fruto de uma malandragem generalizada, nem é a aurora da nova era da bondade humana. É apenas a junção de novas oportunidades a motivações antigas por meio dos incentivos corretos" (p. 115).
"Nicholas Christakis e James Fowler, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Havard, mostraram que as redes sociais disseminam todo tipo de comportamento: é mais provável que sejamos obesos se nossos amigos forem obesos, que nos exercitemos se eles se exercitarem e até que sejamos felizes se eles forem felizes. Mais impressionante, somos mais suscetíveis às características de membros habituais de nossa rede social do que às de nossos conhecidos mais próximos. [...] Hábitos e características se disseminam por redes sociais em até três graus de separação, e, apesar de esses traços não serem contagiosos como vírus, são contagiosos no sentido de que se espalham por contato social" (p. 117).
"A diferença hoje é que a internet é uma máquina de oportunidades, um meio para pequenos grupos criarem novas oportunidades, a baixo custo e com menos obstáculos do que nunca, e com a possibilidade de anunciar essas oportunidades ao maior número de potenciais participantes da história" (p. 118).
5. Cultura
"A cultura não é apenas um aglomerado de comportamentos individuais; é um conjunto de normas e comportamentos aceitos coletivamente num grupo" (p. 122).
"Aumentar o número de coisas que você tem pode ser útil, mas aumentar sua quantidade de conhecimento pode ser transformador" (p. 126).
Comunidade, custo e clareza não são os únicos elementos necessários para um projeto compartilhado. É preciso também de cultura, pois esta é "um conjunto de opiniões compartilhadas numa comunidade a respeito de como ela deve ser em relação a seu trabalho e como se portar nas relações mútuas entre os membros" (p. 129).
Sobre a cultura, Shirky comenta ainda que a nossa, de uma forma geral, está mudando, aos poucos. Essas mudanças podem ameaçar profissionais como os críticos. Antes da era do compartilhamento, críticos gastronômicos (geralmente metidos e soberbos) eram quem definiam quais eram os melhores restaurantes, os melhores pratos, os melhores chefes. Agora, os próprios consumidores fazem as suas listas dos melhores restaurantes de acordo com os seus gostos. Óbvio que os críticos não gostaram nada nada da ideia de as ~pessoas comuns~ qualificarem os restaurantes. É porque assim, o seu status já não faz mais sentido. Isso pode acontecer também com os críticos literários, pois a cada dia, blogueiros e mais blogueiros postam e comentam as suas opiniões sobre livros, HQ's, mangás e tudo mais. São leitores falando com outros leitores, sugerindo e criticando leituras, de igual para igual. Nesse ramo, eu adoro os booktubers da Tatiane Feltrim e do Batom de Clarice. Já li e comprei muita coisa sugerido por elas.
Isso também significa, de alguma forma, que o ~profissional~ muitas vezes não é a melhor opção, aliás, como Shirky (2011, p. 135) comenta, "se essa preferência pelo profissional fosse universalmente aplicável, todos nós seríamos clientes de prostitutas, elas são, afinal, muito mais experientes em seu trabalho do que a maioria de nós jamais vai ser".
6. Pessoal, comum, público e cívico
"Pode-se obter mais valor da participação voluntária do que jamais foi imaginado, graças ao aperfeiçoamento de nossa habilidade de nos conectarmos uns aos outros e de nossa imaginação do que será possível a partir dessa participação" (p. 144).
"Seres humanos são fundamentalmente individuais, mas também são fundamentalmente sociais" (p. 146).
Esses grupos "podem se dedicar à veneração de algo, continuamente louvando seu objeto de afeição (grupos de fãs têm essa característica com frequência, sejam leitores de Harry Potter ou torcedores do time de futebol Arsenal)" (p. 146).
"Adicionar as motivações sociais de participação a grupos e de generosidade às motivações pessoais de autonomia e competência pode incrementar drasticamente as atividades" (p. 153-154).
"Como os seres humanos têm motivações sociais tanto quanto pessoais [...], as motivações sociais podem induzir a muito mais participação do que as motivações pessoais sozinhas. A difusão da mídia social que permite o discurso público levou a uma mudança sutil na palavra compartilhamento. Compartilhar normalmente requeria um alto grau de conexão entre o doador e o receptor, então a ideia de compartilhar uma fotografia implicava que os compartilhantes se conhecessem. Esse compartilhamento tendia a ser uma ação recíproca e coordenada entre as pessoas que se conheciam. Mas, agora que a mídia social estendeu incrivelmente o alcance e a vida útil do compartilhamento, sua organização passou a ter muitas formas" (p. 154).
De acordo com o autor, há quatro tipos de compartilhamento: compartilhamento pessoal (feito por indivíduos que de outra maneira não estariam coordenados), compartilhamento comum (mais envolvente, que acontece num grupo de colaboradores), compartilhamento público (quando um grupo de colaboradores deseja ativamente criar um recurso público) e compartilhamento cívico (quando um grupo está tentando transformar a sociedade) (p. 154).
"As ferramentas digitais criam um potencial de longo prazo para o compartilhamento sem requisitos extras para quem dá ou para quem recebe. Compartilhar uma foto ao colocá-la online constitui um compartilhamento, mesmo que ninguém jamais a veja. Esse 'compartilhamento congelado' cria grande valor potencial. Enormes bases de dados de imagens, texto, vídeo etc. incluem muitos itens que jamais foram vistos ou lidos, mas custa pouco mantê-los disponíveis, e eles podem ser úteis para alguém daqui a alguns anos" (p. 155).
"Pode-se obter mais valor da participação voluntária do que jamais foi imaginado, graças ao aperfeiçoamento de nossa habilidade de nos conectarmos uns aos outros e de nossa imaginação do que será possível a partir dessa participação" (p. 144).
"Seres humanos são fundamentalmente individuais, mas também são fundamentalmente sociais" (p. 146).
Esses grupos "podem se dedicar à veneração de algo, continuamente louvando seu objeto de afeição (grupos de fãs têm essa característica com frequência, sejam leitores de Harry Potter ou torcedores do time de futebol Arsenal)" (p. 146).
"Adicionar as motivações sociais de participação a grupos e de generosidade às motivações pessoais de autonomia e competência pode incrementar drasticamente as atividades" (p. 153-154).
"Como os seres humanos têm motivações sociais tanto quanto pessoais [...], as motivações sociais podem induzir a muito mais participação do que as motivações pessoais sozinhas. A difusão da mídia social que permite o discurso público levou a uma mudança sutil na palavra compartilhamento. Compartilhar normalmente requeria um alto grau de conexão entre o doador e o receptor, então a ideia de compartilhar uma fotografia implicava que os compartilhantes se conhecessem. Esse compartilhamento tendia a ser uma ação recíproca e coordenada entre as pessoas que se conheciam. Mas, agora que a mídia social estendeu incrivelmente o alcance e a vida útil do compartilhamento, sua organização passou a ter muitas formas" (p. 154).
De acordo com o autor, há quatro tipos de compartilhamento: compartilhamento pessoal (feito por indivíduos que de outra maneira não estariam coordenados), compartilhamento comum (mais envolvente, que acontece num grupo de colaboradores), compartilhamento público (quando um grupo de colaboradores deseja ativamente criar um recurso público) e compartilhamento cívico (quando um grupo está tentando transformar a sociedade) (p. 154).
"As ferramentas digitais criam um potencial de longo prazo para o compartilhamento sem requisitos extras para quem dá ou para quem recebe. Compartilhar uma foto ao colocá-la online constitui um compartilhamento, mesmo que ninguém jamais a veja. Esse 'compartilhamento congelado' cria grande valor potencial. Enormes bases de dados de imagens, texto, vídeo etc. incluem muitos itens que jamais foram vistos ou lidos, mas custa pouco mantê-los disponíveis, e eles podem ser úteis para alguém daqui a alguns anos" (p. 155).
7. Procurando o mouse
"A fusão de meio, motivo e oportunidade cria nosso excedente cognitivo a partir da matéria-prima do tempo livre acumulado. A verdadeira mudança vem da nossa consciência de que esse excedente cria oportunidades sem precedente, ou de que cria uma possibilidade inédita para criarmos essas oportunidades uns para os outros" (p. 162).
"É de grupos tentando coisas novas que os usos mais profundos da mídia social têm vindo até agora, e é de onde virão no futuro. [...] O futuro não se estende por um caminho predeterminado; as coisas mudam porque alguém percebe algo que pode ser feito agora, e dá um jeito de fazer acontecer" (p. 164).
"A pergunta que agora enfrentamos, todos nós que temos acesso aos novos modos de compartilhamento, é o que vamos fazer com essas oportunidades. A pergunta será respondida muito mais decisivamente pelas oportunidades que forneceremos uns para os outros e pela cultura dos grupos que formamos do que por qualquer tecnologia em particular" (p. 168).
"O Facebook está no meio desse espectro entre audiência e agrupamento. [...] ele tem horizontes sociais que se desdobram. [...] os usuários do Facebook se juntam em grupos muito menores, com dezenas de amigos" (p. 177).
"Temos internet há quarenta anos, mas o Twitter e o Youtube existem há menos de cinco anos, não porque a tecnologia não estivesse presente antes, mas porque a sociedade ainda não estava preparada para aproveitar essas oportunidades" (p. 185).
Sobre o autor:
Clay Shirky é professor do Programa de Telecomunicações Interativas da Universidade de Nova York, prestou consultoria a diversas empresas, como Nokia, BBC, NewsCorp, Microsoft e Lego, e à Marinha dos Estados Unidos. Tem artigos publicados nos jornais New York Times, Wall Street Journal, Times e nas revistas Harvard Business Review, Business 2.0 e Wired.
Críticas:
Shirky comenta que algumas pessoas não se convenceram ou torcem o nariz para a transformação que ele anuncia, entre uma destas pessoas cita Andrew Keen, que eu seu livro O culto do amador chamou os blogueiros de macacos. Já em #Vertigem Digital, Keen tece duras críticas a Shirky e a outros "comunitaristas românticos".
Keen (2012, p. 126-129) chama Shirky de megacomunitarista, o Herbert Marcuse da atual intelligentsia em rede. Desfaz das percepções de Shirky, afirmando que "a mídia social se tornou tão onipresente, de tal forma é o tecido conjuntivo da sociedade, que todos nos tornamos Scottie Ferguson, vítimas de uma história assustadora que não compreendemos nem controlamos". Afirma ainda: "Shirky e seus colegas comunitaristas se enamoram de uma cultura participativa pré-industrial que provavelmente jamais existiu, e sem dúvida não pode ser ressuscitada em nosso mundo supercompetitivo e cada vez mais individualizado do século XXI. [...] esses comunitaristas românticos, por uma razão ou outra, arrastam todos nós para um futuro que a maioria na verdade não quer - um love-in digital de publicicalidade-padrão; uma luta darwiniana de indivíduos hipervisivelmente relacionados; uma 'cultura participativa'que projeta uma transparência indesejada sobre toda a nossa vida [...]. O que a tecnologia em rede produziu de verdade foi a ressurreição do Autoícone de Jeremy Bentham - uma máquina de autoglorificação que promete, com toda a sedução de uma heroína coercitiva de Hitchcock, nos tornar imortais. A internet - com seus mundos virtuais como o Second Life - transformou a ideia de imortalidade de metáfora religiosa em possibilidade digital. [...] Então, como Um corpo que cai, de Hitchcock, a mídia social - com sua alegação de que a tecnologia nos une - é exatamente o oposto do que parece. Por trás do otimismo comunitarista dos utilitaristas digitais está uma verdade vertiginosa e socialmente fragmentada do século XX. É uma verdade pós-industrial, a comunidade cada vez mais fraca e o exagerado individualismo de supernodes e superconectores. É a verdade de uma economia de 'atenção' que usa a 'fama' individual como sua principal moeda [...]. O mais perturbador de tudo: é a verdade antissocial de um mundo socioeconômico de crescente solidão, isolamento e desigualdade - uma condição socialmente disfuncional que Sherry Turkle descreve como estar 'sozinho junto'. Assim como num bom filme de Hitchcock, tudo é ilusório".
Vídeo:
Referência:
SHIRKY, Clay. A cultura da participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
Resenhas:
Resenha 1
Resenha 2
Resenha 3
Artigos:
Artigo 1
Artigo 2
Livro:
Livro em pdf
Livro no GoogleBooks


5 comentários
Olá! Adorei o resumo, li o livro todo e achei o conteúdo muito interessante. Muito obrigada pela indicação e parabéns pelo blog!
ResponderExcluirPriscila
Oba Priscila! Que bom que gostou! ^^
ExcluirArrasou menina, me ajudou muito na prova da faculdade uhauauh li o livro ano passado, gostei, e esse semestre caiu novamente na prova da facul, li seu resumo pra dar uma relembrada e me salvou. obrigada!
ResponderExcluirMuito boa a sua resenha, moça! Você escreve bem!
ResponderExcluirmuito bom, o livro e a sua resenha .
ResponderExcluir