#Vertigemdigital
by
Tauana Jeffman
- fevereiro 14, 2014
Sobre o livro:
Um
soco na cara. Essa foi a sensação que eu tive ao terminar de ler
#Vertigemdigital. Mas não era um simples soco na cara, era uma
agressão que eu não entendia muito bem o porquê. Quando comprei o
livro, achei o título sensacionalista demais, e ao terminar a
leitura, achei que o autor é, digamos, exagerado. Bem, ele tem suas
justificativas, sua incrível bagagem cultural e profundo
conhecimento sobre o tema,
mas, ainda assim, achei
exagero. Keen é um dos teóricos que se coloca contra a
"positividade" da nossa era e suas transformações.
Conseguimos perceber claramente essa divisória entre os teóricos
quando lemos Keen e Shirky. Os dois observam o mesmo fenômeno, mas
cada um com uma visão totalmente oposta. Um acha que
estamos nos "dividindo, diminuindo e desorientando", o
outro acredita que
a sociedade se encontra
em seu momento de descoberta de potencial para a utilização do
nosso excedente cognitivo. Shirky lembra-nos em seu livro, A
Cultura da participação,
que Keen, em O Culto do amador, chamou os blogueiros de macacos. Já
Keen foi mais duro em suas críticas, chamando Shirky de romancista
ingênuo, e argumentando por que o autor estaria deslumbrado e sem
enxergar a realidade.
Claro
que a obra de Keen é de extrema importância, pois lembra-nos que
nem tudo tem apenas um lado positivo. Aquilo que nos une pode
estar nos separando. Apesar de nos chamar de insetos digitais, seu
alerta auxilia-nos a perceber que a vida não é o que acontece no
Facebook, e esta plataforma, assim como muitas outras, não pensa
apenas em nosso bem. Nós somos os seus produtos.
A
obra é profundamente inspirada em Hitchcock, especialmente em seu
filme Um
corpo que cai, onde seu título original é Vertigo.
Keen relaciona o nosso momento atual com o filme. Deste modo, nomeia
o livro por acreditar que vivemos uma vertigem digital,
dividindo-o em 8 capítulos, acrescido de introdução e
considerações finais. Outras
referências como 1984,
O processo
e O show de Truman também
são resgatadas e utilizadas de contraponto durante as argumentações
do autor.
Em
suma, Keen (2012, p. 25) ressalta-nos que sua obra revela uma mania
perturbadora: "a atual tirania de uma rede social cada vez mais
transparente que ameaça a liberdade individual, a felicidade e
talvez a própria personalidade do homem contemporâneo". Deste
modo, seu livro "é uma defesa do mistério e do segredo da
existência individual". Afirma ainda: "num universo no
qual quase todo ser humano do planeta estará conectado em meados do
século XXI, este livro é um discurso contra o compartilhamento e a
abertura radicais, a transparência pessoal, o grande exibicionismo e
as outras ortodoxias comunitárias devotas de nossa época conectada.
No entanto, este livro não é mais que apenas um manifesto
antissocial.
É também um estudo de por que, como seres humanos, privacidade e
solidão nos tornam felizes" (p. 25-26).
Resenha | Resumo:
Introdução: Hipervisibilidade
Keen
(2012, p. 10) acredita que "em vez de uma vida virtual ou de uma
segunda vida, a mídia social de fato está se tornando a própria
vida - o palco central e cada vez mais transparente da existência
humana, o que os investidores de risco do Vale do Silício hoje
chamam de "internet de pessoas".
Keen
(2012, p. 13-15) participa de diversos eventos sobre era digital e
mídias sociais e conversa com diversos "figurões" deste
ramo. Em um deles, ocorrido em Oxford, ele conversa com Reid
Hoffman, criador do Linkedin e grande investidor do Vale do
Silício, conhecido como "o rei das conexões". Hoffman
acredita que estamos vivendo a "web 3.0", onde tudo é
social. Keen provoca-o perguntando se ele acha mesmo que todas as
pessoas querem estar conectadas, e lembra-o dos preceitos da
privacidade "o direito do indivíduo de ser deixado em paz".
Keen (2012, p. 16-17) lembra-nos que "Reid Hoffman sem
dúvidas não estava só ao reciclar essa fé pré-moderna de que o
social está entranhado nos homens em geral". Assim como
Reid, Biz
Stone (um dos criadores do Twitter), também acredita que "o
futuro será social".
Aguardando
o voo para mais de um de seus compromissos, Keen (2012, p. 19-21)
entrou na Universidade de Londres e conheceu o corpo de Jeremy
Bentham, um
filósofo e jurista inglês que decretou em seu testamento que seu
esqueleto deveria ser preservado "vestindo suas roupas habituais
e sentado em sua poltrona favorita" com a cabeça embalsamada
colocado no topo.
Acompanhado
de John
Stuart Mill e James
Mill,
difundiu o utilitarismo. Mas ao contrário destes, Bentham não
queria ser esquecido.
Keen (2012, p. 21-22) afirma: "eu me dei conta de que o verdadeiro retrato do futuro estava me olhando nos olhos o tempo todo. [...] O vislumbre que tive naquela tarde de final de novembro em Bloomsbury foi de um futuro antisocial, a solidão do homem isolado na multidão conectada". A partir desse pensamento, ele concluiu que "a realidade da mídia social é mais uma arquitetura de isolamento humano que de comunhão". Percebeu que "o futuro será tudo, menos social. Esse é o verdadeiro aplicativo matador na era de rede". Para Keen (2012, p. 22), "estamos nos tornando esquizofrênicos - a um só tempo desligado do mundo, porém de uma forma irritantemente onipresente". Nesse aspecto, ele cita a nossa hipervisibilidade, conceito estudado por autores como Jean Baudrillard e Umberto Eco. Este último define hipervisibilidade como "uma filosofia da imortalidade como duplicação". Já Baudrillard fala sobre uma hiper-realidade, a vida através de simulações e simulacros. Para Baudrillard (1991, p. 8), “a simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real”. Simulamos uma realidade, e esta realidade não existe, sendo que, de acordo com Baudrillard (1991, p. 9-10), “simular é fingir ter o que não se tem”. Para o autor, a “coextensividade imaginária” deixa de existir, pois o real é “é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando - e pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir daí”.
Keen (2012, p. 22) acredita que, "nesse mundo todo transparente, estamos ao mesmo tempo em toda a parte e em parte alguma, a irrealidade absoluta é a presença real; o totalmente falso é também o totalmente real. Isso [...] era o retrato mais verdadeiramente falso da vida conectada do século XXI. [...] Em vez de nos unir entre os pilares digitais de uma pólis aristotélica, a mídia social de hoje na verdade estilhaça nossas identidades, de modo que sempre existimos fora de nós mesmos, incapazes de nos concentrar no aqui e agora, aferrados demais à nossa própria imagem, perpetuamente revelando nossa localização atual, nossa privacidade sacrificada à tirania utilitária de uma rede coletiva" (p. 23).
"Determinante para a felicidade é o direito não quantificável de que a sociedade nos deixe ficar sozinhos - um direito que nos permite, como seres humanos, permanecer fiéis a nós mesmos. 'A privacidade não é apenas essencial à vida e à liberdade; é essencial à busca da felicidade, no sentido mais amplo e profundo. Os seres humanos não são somente criaturas sociais, mas também criaturas privadas'" (p. 24). Keen (2012, p. 24) cita então Nicholas Carr, onde este afirma "o que não partilhamos é tão importante quanto o que partilhamos". (Carr é autor do livro A geração superficial, obra que eu preciso muito mais não encontro para comprar).
1. Uma ideia simples de arquitetura
"Os grandes críticos da sociedade de massa - John Stuart Mill e Alexis de Tocqueville, no século XIX, e George Orwell, Franz Kafka e Michel Foucault, no século XX - tentaram proteger a liberdade individual do olhar onisciente da casa de inspeção. 'A visibilidade é uma armadilha', alertou Foucault" (p. 29).
"O que antes vimos como prisão é agora considerado um parque de diversões; o que antes era encarado como dor hoje é visto como prazer. A era analógica da grande exibição é substituída pela era digital do grande exibicionismo" (p. 30).
"Essa arquitetura digital - descrita por Clay Shirky, estudioso de mídia social da Universidade de Nova York, como "o tecido conjuntivo da sociedade" e pela secretária de Estado Hilary Clinton como o novo "sistema nervoso do planeta" - foi projetada para nos transformar em exibicionistas, sempre em exposição em nossos palácios de cristal ligados em rede. E hoje, numa era de comunidades on-line radicalmente transparentes como Twitter e Facebook, o social se tornou, nas palavras de Shirky, o "ambiente-padrão" da internet, transformando a tecnologia digital, de ferramenta de uma segunda vida, em parcela cada vez mais nuclear da vida real" (p. 30).
"Mas não é apenas o Facebook que está estabelecendo essa grande base de dados da raça humana. Como observa Shirky, serviços de geolocalização populares como Foursquare, Facebook Places, Google Latitude, Plancast e Holtlist, que nos permitem "efetivamente ver através das paredes" e saber a localização exata de todos os nossos amigos, estão tornando a sociedade mais 'legível', permitindo, dessa forma, que todos nós sejamos lidos, no bom estilo casa de inspeção, 'como um livro'. Não espanta, portanto, que Katie Rolphe, colega de Shirky na Universidade de Nova York, tenha observado que 'o Facebook é o romance que todos estamos escrevendo'" (p. 31).
"A cultura de rede social medica nossa 'necessidade de autoestima', acrescenta Neil Strauss [...], 'oferecendo gratificação para conquistar seguidores'" (p. 32).
"A sociedade em rede se tornou um bacanal transparente, uma orgia se superpartilhamento, um Verão do Amor digital interminável" (p. 33).
"É realmente o sonho da CIA transformado em realidade" (p. 36).
Em novembro de 2010, Mark Zuckerberg falou: "estudantes não usam e-mail". Segundo Keen (2012, p. 39), "infelizmente Zuckerberg está certo. Em 2010, o e-mail - a comunicação eletrônica de ua pessoa para outra, a versão digital de escrever uma carta - teve uma queda de 59% entre adolescentes, segundo a ComScore, substituído, claro, por plataformas públicas de troca de mensagens sociais como Twitter e Facebook" (p. 39).
"A internet, que antes era apenas um canal para a distribuição de informações impessoais, hoje é uma rede de empresas e tecnologias, concebida em torno de produtos, plataformas e serviços sociais - transformando-se, de uma base de dados impessoal, num cérebro digital global que transmite publicamente nossas relações, intenções e nossos gostos pessoais" (p. 40).
"Ao permitir que nossos milhares de 'amigos' saibam o que fazemos, pensamos, lemos, vemos e compramos, os produtos e serviços da web fortalecem nossa era hipervisível de grande exibicionismo" (p. 41).
"O entretenimento também está se tornando social. Em dezembro de 2011, a página do YouTube se tornou social, enfatizando as redes Google+ e Facebook no que o leviatã do vídeo chamou de "maior redesenho de sua história" (p. 47).
"De toda a mídia do século XX, a arte da fotografia, tão individual, é a mais drasticamente socializada pela revolução da Web 3.0" (p. 48).
"E se essa onda vertiginosa de redes sociais não é o bastante, há leitura social - oferecendo um gigantesco "Olá" coletivo a amantes de livros de toda parte. Sim, a leitura, a mais intensamente particular e ilícita de todas as experiências individuais, está se transformando num espetáculo social que atordoa. Alguns de vocês talvez estejam lendo este livro socialmente - quer dizer, em vez de sentados sozinhos e ele em mãos, partilham sua experiência de leitura, até agora íntima, com milhares dos seus mais íntimos amigos do Facebook ou Twitter com a ajuda de leitores eletrônicos e serviços sociais como os perfis Kindle da Amazon. De fato, em janeiro de 2011, a Scribd, uma empresa de leitura social com a missão de 'libertar o mundo escrito, colocar as pessoas em contato com as informações e ideias mais importantes para elas" reuniu US$ 13 milhões para adicionar novas "características sociais" a cada aparelho móvel ligado em rede. Enquanto isso, a Rethink Books, uma empresa de leitura cooperativa, lançou a Bíblia como produto socializado, talvez com a intenção de criar um 'canal social direto' entre o autor do livro e seus leitores. [...] Vejam, em certo sentido, a leitura social realmente representa o fim do mundo. Significa o fim do leitor isolado, o fim do pensamento solitário, o fim da reflexão literária puramente individual, o fim daquelas longas tardes passadas sozinhos, apenas com um livro" (p. 51-52).
"Será que 1984 afinal chegou a todas as nossas telas?" (p. 54).
2. Vamos ficar nus
Keen (2012, p. 55-56) acredita que "tudo parece desalentadoramente orwelliano", e lembra-nos: "'em princípio, um membro do Partido não tinha tempo livre e nunca estava sozinho, a não ser na cama', escreveu Orwell em 1984". Nesta obra, "era crime se expressar; hoje, está se tornando deselegante, talvez até socialmente inaceitável, não se expressar na rede".
"Em vez de se tornar a 'aldeia global' prevista pelo guru das comunicações do século XX, Marshall McLuhan, o mundo se reduzirá a uma versão de aldeia pré-moderna - um dormitório digital universal no qual todos saberão tudo sobre nossos atos mais insignificantes, escondidos ou - temo - imaginários" (p. 59).
"Hoje a rede desmascara todo mundo", é o que afirma Brian Stelter.
"No cerne desse mundo cada vez mais transparente e conectado estará o que os ideólogos do social chama de 'banco de reputação'. 'Com a rede, nós agora deixamos um rastro de reputação', reconhecem Rachel Botsford e Roo Rogers em seu manifesto do consumo cooperativo, O que é meu é seu: como o consumo colaborativo vai mudar o nosso mundo. 'A cada vendedor a que damos nota, remetente de spam que denunciamos, comentário que deletamos, ideia, vídeo ou foto que postamos, parceiro que examinamos, deixamos um registro cumulativo de como cooperamos bem e de que merecemos confiança'". Mas Keen (2012, p. 59) acha que a rede pode não estar construindo uma "inteligencia coletiva", mas sim, seu oposto, pois "está criando mais conformismo social e mais comportamento de rebanho".
"'Embora a rede tenha permitido novas formas de ação coletiva, também favoreceu novos tipos de estupidez coletiva', argumenta Jonas Lehrer, colaborador da revista Wired e autor de sucesso de livros sobre neurociência e psicologia. 'O pensamento de grupo é mais disseminado hoje, enquanto lidamos com o excesso de informação disponível e terceirizamos nossas crenças para celebridades, sabichões e amigos do Facebook. Em vez de pensar por conta própria, simplesmente citamos o que já foi citado'. A degeneração do 'grupo inteligente' no que Lehrer chama de 'rebanho burro' pode ser cada vez mais observada nas redes da Web 3.0" (p. 60).
"Num mundo de mídia social que é dominado pelo pensamento grupal de Lehrer, 'pensar por conta própria é cada vez mais raro'" (p. 60).
"Valendo-se de modo liberal das teorias comunitárias do pensador social alemão Jurgen Habermas, Jeff Jarvis argumenta que a mídia social nos oferece a oportunidade de reconstruir a chamada esfera 'pública' dos cafés do século XVIII" (p. 61-62).
"A época da inteligência em rede não é muito inteligente. A verdade trágica é que ficar nu, ser você mesmo, sob os olhares públicos da rede digital nem sempre resulta na derrubada de antigos tabus. Há pouca evidência de que redes como o Facebook, o Skype e o Twitter nos tornem compassivos e tolerantes" (p. 63).
"Mas assim como uma turba online de Pequenos Irmãos do século XXI substituiu o solitário Grande Irmão do século XX, de Orwell, a passividade de estar dentro da baleia foi substituída em nossa era da mídia social pela ignorância grosseira de muito do que se chama discurso público" (p. 65).
"Não haverá mais esboço de perfis, mas autoretratos detalhados de quem realmente somos, incluindo os livros que lemos, as músicas que escutamos, as distâncias que corremos, os lugares para os quais viajamos, as causas que defendemos, os vídeos de gatos dos quais rimos, nossos gostos e ligações. Sim, essa mudança para a autenticidade exigirá que nos habituemos a ela e provocará protestos de perda de privacidade", é o que acredita Sheryl Sandberg (p. 67).
"Ao grudar plugins e botões do Facebook Connect em todos os sites da rede e em aplicativos móveis, ao automatizar a transmissão de nosso consumo online de mídia por intermédio de 'compartilhamento sem atrito', e ao acessar nossas vidas com um único clique, o Facebook está tentando possuir a rede social. E possuir a rede social também significa possuir a todos nós. 'Como nos conhece intimamente - quem somos, o que fazemos e quais são nossos interesses -, o Facebook está em condições de atender a todos os nossos desejos' - explica Ben Elowitz sobre esse novo sistema operacional social" (p. 69-70).
"A assustadora concepção de identidade individual de Zuckerberg não apreende a complexidade da condição humana. Em vez daquele algo misterioso no cerne de todo ser humano, a identidade, para o jovem multibilionário, é tão quantificável quanto uma linha de código de computador. [...] 'Você tem uma identidade. Ter duas identidades é exemplo de falta de integridade', foi o que Zuckerberg - que, claro, quer possuir e lucrar com essa identidade única - observou em 2009" (p. 71).
"Riqueza corresponde a conectividade no mundo da Web 3.o. Portanto, quanto mais 'amigos' você tem no Twitter ou no Facebook, mais potencialmente valioso você se torna em termos de levar seus amigos a comprar ou fazer coisas" (p. 71-72).
"Como reconheceu John Dewey, filósofo americano do século XX, nossas personalidades não são tão radicalmente egoístas, quantificáveis ou estabelecidas quanto Zuckerberg ou os outros propagadores da mídia social. Em vez de 'algo completo, perfeito, acabado, um todo organizado de partes unidas pela impressão de uma forma abrangente, nossa identidade individual na verdade é algo móvel, mutável, discreto e, acima de tudo, iniciante, não definitiva'. Talvez por isso Dewey acreditasse que, 'de todas as coisas, a comunicação é a mais maravilhosa'" (p. 73).
3. A visibilidade é uma armadilha
"assim como Jeremy Bentham, Mark Zuckernberg está errado - radicalmente errado ao dizer que esse futuro compartilhado nos tornará mais humanos, que esse 'compartilhamento automático' de informação faz do mundo um lugar melhor, que a lei de Zuckerberg beneficia a sociedade ou o eu. Mais que um círculo virtuoso, essa revolução da mídia social pode representar o mergulho - talvez até a queda vertiginosa - num círculo vicioso de menos liberdade individual, laços comunais cada vez mais fracos e mais infelicidade" (p. 76).
"Em vez de nos tornar mais felizes e conectados, o canto de sereia da mídia social - os apenas incessantes para estar digitalmente conectado; a obsessão cultural com a transparência e abertura; a interminável exigência de partilhar tudo sobre nós com todos os outros - é ao mesmo tempo uma causa significativa e um efeito da natureza cada vez mais vertiginosa da vida social no século XXI" (p. 76).
"A verdade inconveniente é que a mídia social, a despeito de todas as suas promessas comunitárias, no divide, em vez de nos aproximar; ela cria o que Walter Kirn descreve como uma 'sociedade fragmentada'. Em nossa era digital, ironicamente, nos tornamos mais divididos que unidos, mais desiguais que iguais, mais ansiosos que felizes, mais solitários que socialmente conectados" (p. 77).
"Uma pesquisa da Brigham Young University, de 2007, analisou 184 usuários de mídias sociais e concluiu que os mais integrados em rede 'se sentem menos envolvidos socialmente com a comunidade ao redor'. [...] Até nossos tuítes estão se tornando mais tristes, segundo um estudo feito por cientistas da Universidade de Vermont com 63 milhões de usuários do Twitter entre 2009 e 2011, que provou que 'a felicidade está em queda'" (p. 77).
Dalton Conley "descreve as pessoas de nossa era digital como 'intravíduos' - almas fragmentadas sempre apanhadas entre identidades, com 'múltiplos eus brigando por atenção dentro da própria cabeça, ao mesmo tempo que externamente são bombardeados por inúmeros estímulos simultaneamente'" (p. 79).
"Informação é o que move nosso mundo, o sangue e o combustível, o princípio vital", afirma James Gleick (p. 87).
"Na atual economia de mídia social, movida pela publicidade, são as informações sobre nós o que tem mais valor financeiro. [...] 'os anunciantes querem comprar o acesso às pessoas, não páginas na rede'. Isso explica por que algo confirmado pelo jornal - um dos setores que mais crescem na internet é o 'negócio de espionar usuários da internet'" (p. 88).
"Em vez de sermos clientes do Facebook, 'somos seu produto'. [...] Sim, nós - eu, você e as outras 800 milhões de pessoas no Facebook 'gratuito' - somos o produto que é simultaneamente coagido e seduzido. Somos as informações personalizadas que o Facebook e muitas outras empresas sociais vendem a seus anunciantes. O problema é que, quanto mais essas empresas da Web 3.o nos rastreiam, mas eficazes e valiosos são seus anúncios" (p. 88-89).
4. Vertigem digital
Neste capítulo, Keen compara algumas "vertigens" ocorridas na área que é hoje o Vale do Silício. A primeira ocorreu em 1849, com a "a mais frenética corrida ao ouro da história". A média populacional de São Francisco "dobrava a cada dois dias". Infelizmente, a grande maioria dos garimpeiros deu com os burros n'água. Os caçadores de ouro mudaram suas vidas e apaixonaram-se por algo que não existia. A segunda vertigem é mais cinematográfica, pois é em locações na baía de São Francisco que foi gravado o falso suicídio de Judy Barton, rodado no início de 1957. Judy é a personagem de Um corpo que cai, que atrai e confunde Scottie Ferguson. A vertigem se dá porque ela se passa por uma mulher que já morreu, e que Scottie presenciou o suicídio e nada pode fazer, por ter medo de altura. A terceira vertigem ocorreu em 1967, o ano conhecido como Love in, e que foi marcado pelo festival Monterey Pop. As pessoas queriam conhecer mais pessoas, celebravam o amor, a música, a vida. As músicas mostravam o zeitgeist da época, proclamando "se você estiver indo para São Francisco, não esqueça de por flores nos cabelos", "'se você está indo para São Francisco, irá conhecer algumas pessoas legais por lá". No entanto, o Verão do amor não deu certo. pois "muitas das 'pessoas gentis' de São Francisco se tornaram violentas e cínicas no fim dos anos 1960, em parte enlouquecidas com a overdose ímpia de comunitarismo e individualismo radicais", lembra-nos Keen (2012, p. 115). A quarta vertigem seria a nossa vertigem digital. Os quatro contextos aparentemente mostram "cor, agitação, poder, liberdade", mas na realidade, carregam sentidos que não existem, de fato, para Keen (2012, p. 101). Para Keen (2012, p. 115), estes quatro momentos de São Francisco formam "um cemitério tomado pelos cadáveres de pessoas e sonhos partidos". Para ele, a geração do Verão do Amor não morreu, entrou em rede.
Foi no Vale do Silício que ocorreram profundas mudanças, mas "as profundas e duradouras mudanças de nossa era não são tecnológicas, mas sociais e culturais" (p. 107).
5. O culto do Social
"No começo dos anos 1970, os engenheiros elétricos do Vale do Silício haviam feito duas descobertas tecnológicas determinantes: a introdução de padrões para comutação de dados em rede; e um microprocessador de primeira geração desenvolvida pela Intel Corporation, de Gordon Moore e Robert Noyce. Eles permitiram a ligação em rede de equipamentos digitais em grande escala" (p. 116).
"Essa grande mudança deu aos computadores pessoais o poder de se comunicar uns com os outros, marcando, dessa forma, não apenas o desenvolvimento mais significativo na tecnologia de comunicação desde a invenção do telefone por Alexandre Graham Bell, em 1876, mas também estabelecendo o 'tecido conjuntivo da sociedade', tão louvado por comunitaristas contemporâneos como Clay Shirky e Dom Tapscotto" (p. 117).
"'A rede é mais uma criação social do que técnica', confessou Tim Berners-Lee, o arquiteto original da world wide web, sobre o objetivo social que é o núcleo da internet. 'Eu a projetei para ter um efeito social - ajudar as pessoas a trabalhar juntas -, e não para ser um brinquedo técnico. O objetivo final é sustentar e melhorar nossa existência em rede no mundo. Nós nos agrupamos em famílias, associações e empresas. Nós desenvolvemos a confiança ao longo de milhares e a desconfiança na esquina" (p. 118).
"O computador pessoal e a internet surgiram como o lar natural do sem-teto, dos refugiados do love-in, que já não tinham qualquer ligação com uma comunidade física, mas que, por intermédio da tecnologia em rede, se transformaram em membros de uma comunidade global de almas gêmeas" (p. 118).
"Os argumentos de McLuhan, em especial - em livros como A galáxia Gutemberg (1962) e Compreender os meios de comunicação (1964), sobre o ciberespaço como união de toda a humanidade numa só 'aldeia global' - se tornaram uma das crenças centrais no Vale do Silício, entre empreendedores de rede social como Mark Zuckerberg". Para Keen (2012, p. 122), ele "pode estar prestes a concretizar a visão de McLuhan, de uma 'plataforma de comunicação universal que iria unir o planeta'".
"Essa obsessão intelectual com o social, uma mania de partilhar - o que hoje, 'com o arco do fluxo de informação se curvando para a conectividade sempre maior', é elegantemente chamada de 'meme'" (p. 124).
"As redes sociais digitais estão permitindo que nos aproximemos uns dos outros, como raça humana, explicam s crédulos, numa visão coletivista criticada pelo cético Jaron Lanier - o inventor da realidade virtual - como 'maoismo digital'" (p. 125).
“A
mídia social se tornou tão onipresente, de tal forma é o tecido
conjuntivo da sociedade, que todos nos tornamos Scottie Ferguson,
vítimas de uma história assustadora que não compreendemos nem
controlamos” (p. 127).
“O
que a tecnologia em rede produziu de verdade foi a ressurreição do
Autoícone de Jeremy Bentham – uma máquina de autoglorificação
que promete, com toda a sedução de uma heroína coercitiva de
Hitchcock, nos tornar imortais” (p. 128).
“Então,
como Um corpo que cai, de
Hitchcock, a mídia social –
com sua alegação de que a tecnologia nos une – é exatamente o
oposto do que parece. Por trás do otimismo comunitarista dos
utilitaristas digitais está uma verdade vertiginosa e socialmente
fragmentada do século XX. É uma verdade pós-industrial, a
comunidade cada vez mais fraca e o exagerado individualismo de
supernodes e
superconectores. É a verdade de uma economia de 'atenção' que usa
a 'fama' individual como sua principal moeda, de um mundo
socioeconômico de crescente solidão, isolamento e desigualdade –
uma condição socialmente disfuncional que Sherry Turkle descreve
como 'sozinho junto'. Assim como num bom filme de Hitchcock, tudo é
ilusório” (p. 129).
6.
A era da grande exibição
“A
nostalgia da comunidade simples da Idade Média – não diferente da
idealização de Marshall McLuhan sobre a cultura oral do homem
primitivo, ou as versões romantizadas de Clay Shirky e Robert Putman
para a democracia participativa na vida comunal pré-século XX –
era uma invenção que tinha pouca ou nenhuma fidelidade ao passado”
(p. 135).
“Em
vez de unificadora da humanidade, a tecnologia industrial estava a
segregar os homens em classes sociais, tribos e Estados-nação
desconfiados, sempre em guerra uns com os outros” (p. 146).
“Os
nacionalistas organizaram a Kristallnacht (a
noite dos cristais), um pogrom moderno, patrocinado pelo Estado, no
qual maltas humanas destruíram propriedades de judeus alemães,
quebrando a janela de suas casas e lojas, e levando um quarto de
todos os judeus alemães de sexo masculino para as primitivas prisões
de alta tecnologia que hoje chamamos de campos de concentração.
Destruiu-se tanto vidro em 48 horas de tumulto que foram necessários
dois anos inteiros da produção total de vidros lisos da Bélgica
para substituir tudo o que se quebrara” (p. 149) (o filme A menina
que roubava livros retrata este episódio em uma cena).
“Mas
hoje, quando o sonho da unidade dos homens foi ressuscitado por
utopistas como Philip Rosedale, qual é exatamente esse futuro
coletivo? Será que a internet pode se revelar um gulag farsesco?
Será que o plano de cinco anos de Mark Zuckerberg, de transformar a
internet num dormitório brilhantemente iluminado, nos encarcera numa
prisão global absurda onde todos somos obrigados a viver em público?
[…] seria errado e também bastante tolo sugerir que Mark
Zuckerberg é o Stálin 2.0 ou – seja lá o que Julien Assange
possa alegar – que o Facebook é a nossa Stasi” (p. 151).
7.
A era do grande exibicionismo
“Josh
Harris levou mais adiante, de uma maneira enlouquecida. Depois de ver
O show de Truman – um filme
de Peter Weir, de 1998, sobre o homem comum Truman Burbank […],
cuja vida real era transmitida para milhões de telespectadores
fascinados -, Harris decidiu transformar o filme ficiconal de Weir na
experiência real de retransmissão constante e sem censura. […]
Após um mês de vida voltado o tempo todo para as câmeras, o
projeto desmoronou em paranoia coletiva, inveja sexual, ódio e
violência física” (p. 157-159).
Neste
capítulo, Keen (2012, p. 164-165) também fala-nos sobre Robert
Scoble, “uma pequena celebridade entre geeks de
todo o mundo”. Scoble é defensor do que ele chama de “rede
aberta”. Ou seja, compartilha com seus milhares de amigos de suas
redes sociais o que pensa, o que escuta, o que come, o que lê, o que
escuta, onde corre, ou seja, praticamente tudo sobre a sua vida. Ele
é um Truman da era digital, mas ao contrário do que ocorre com o
personagem, Scoble é quem decidiu se expor à sua rede. Keen, ao
visitá-lo para uma entrevista, percebe duas contradições:
primeiro, para um adepto da hipervisibilidade, Scoble é incoerente
ao escolher morar em um condomínio fechado e afastado; segundo: seu
vizinho de porta há dois anos não o conhece. Questionado sobre essa
questão por Keen, Scoble afirma que ele prefere decidir quem são as
pessoas dos seus círculos, não deixando esse papel para
circunstâncias geográficas, por exemplo.
8.
O melhor filme de 2011
“Os
consumidores devem entender que serviços 'grátis' na internet nunca
são mesmo de graça. Como me disse Michael Fertik, executivo da
Reputation.com, o modelo de negócios de redes sociais supostamente
gratuitas como o Facebook são a venda de nossas informações aos
anunciantes. Nós, os produtores de informação na rede gratuita,
somos seu produto, não seus amigos ou sócios” (p. 176).
“Pesquisadores
alemães da Universidade Saarland […] desenvolveram um software
chamado X-Price que, segundo a BBC, 'dá um prazo de validade para as
imagens, marcando-as com uma chave codificada'” (p. 179).
“a
Máquina do Suicídio da Web 2.0 mata todas as suas informações na
rede social com uma só bomba de software. É a opção nuclear, que
lhe permite 'apagar totalmente sua vida virtual” (p. 180).
Número
de Dunbar: nós só conseguimos acompanhar a vida de 150 amigos,
então, esse é número essencial de amizades do Facebook. Esse seria
o círculo social para o qual fomos projetados, enquanto espécie (p.
183).
Neste
capítulo o autor também fala sobre dois filmes que concorreram ao
Oscar de Melhor Filme em 2011. Um é A Rede social e o
outro O discurso do rei. Para Keen (2012, p. 187) A Rede
social é sobre um bilionário sem amigos que inventou a economia
do 'curtir', enquanto O discurso do rei é
sobre um pai, marido e amigo amoroso que permaneceu fiel a si mesmo e
uniu um país”. Ironizando, o autor questiona: “você consegue
adivinhar qual filem ganhou quatro Oscar na 83ª cerimônia de
premiação da Academia?”. Claro, sem desmerecer o filme O
discurso do rei, vale ressaltar
que A Rede social é
um filme horrível, inspirado em um livro tão horrível quanto, que
não retrata fielmente o contexto ao qual se propõe.
Conclusão:
a mulher de azul
Vivemos
a “transformação da própria vida num Show de Truman
voluntário. Acima de tudo, é
um mundo no qual muitos de nós esqueceram o que significa ser
humano” (p. 192).
“Estamos
esquecendo quem realmente somos” (p. 198).
“O
futuro, portanto, deve ser tudo, menos social” (p. 201).
Sobre
o autor:
Conhecido
como o anticristo da era digital, Andrew Keen é um dos
empreendedores pioneiros do Vale do Silício. Seus artigos sobre
mídia, cultura e tecnologia digital são publicados em diversos
periódicos. Tem um programa de entrevistas na Techcrunch.TV,
dirigido sobretudo à análise da internet. Seu livro O culto do
Amador, best-seller internacional que produziu uma fértil polêmica
no meio midiático, foi publicado no Brasil pela Zahar em 2009.



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