Feliz Dia do Publicitário o/

by - fevereiro 01, 2014





01 de fevereiro. Hoje é o nosso dia! E para comemorar, nada melhor do que ganhar de presente uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, lembrando-nos que vivemos eternos desafios, e que também sabemos (ou deveríamos saber) a hora de pular do barco. 

O desafio

Um publicitário morreu e, como era da área de atendimento e mau para o pessoal da criação, foi para o inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com o nome e a profissão de todos os admitidos na data anterior, mandou que o publicitário fosse tirado da grelha e levado ao seu escritório. Queria fazer-lhe uma proposta. Se ele aceitasse, sua carga de castigos diminuiria e ele teria regalias. Ar condicionado, etc.

- Qual é a proposta?

- Temos que melhorar a imagem do Inferno.  - disse o Diabo. - Falam as piores coisas do Inferno. Queremos mudar isso.

- Mas o que é que pode se dizer de bom disto aqui? Nada. 

- Por isso é que precisamos de publicidade!
    O publicitário topou. Era um desafio. E as regalias eram atraentes. Quis saber algumas das coisas que diziam do Inferno e que mais irritava o Diabo. 

- Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos, todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas são alemães.

- E é verdade?

- É.

- Hmmm - disse o publicitário. - Uma das técnicas que podemos usar é a de transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.


Sua cabeça já estava funcionando. Continuou:


- Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida é tão ruim que este é o lugar ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna. 


- Bom, bom.


- Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam, brigam. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.


- Ótimo.


- Motoristas franceses. São mal-humorados e grosseiros. Isso desestimula o uso do táxi e promove as caminhadas. É econômico e saudável. Também provoca indignação generalizada, une a população e combate a apatia. 


- Muito bom!


- Uma situação que não seria  amenizada pelos humoristas. Os humoristas, como se sabe, não tem qualquer função social. Eles só servem para desmobilizar as pessoas, criar um clima de lassidão e deboche, quando não de perigosa alienação. Isto não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça só aumenta a revolta geral, mantendo a população ativa e séria. O alívio cômico é dado pelos garçons italianos.


- Perfeito! - exclamou o Diabo. - Já vi que acertei. quando podemos começar a campanha?


- Espere um pouco, disse o publicitário. - Temos que combinar algumas coisas, antes. Por exemplo: a verba.


- Isso já não é comigo - disse o Diabo. - É com o pessoal da área econômica. Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar o seu contrato. 


Com isso o Diabo apertou um botão do intercomunicador vermelho que havia sobre sua mesa e disse: 


- Dona Henriqueta, diga para o Silva vir até a minha sala.


- Silva? - estranhou o publicitário.


- Nosso gerente financeiro. Toda a nossa economia é dirigida por brasileiros. 


Aí o publicitário suspirou, levantou e disse:


-Me devolve pra grelha...


VERÍSSIMO, Luís Fernando. A mãe do Freud.  São Paulo: Círculo do Livro, 1985. p. 95-97 

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