A identidade cultural na pós-modernidade
Resenha parcial
O
autor oferece-nos considerações sobre a identidade na modernidade e
na pós-modernidade, que, para ele, é a continuação da discussão:
“existe crise de identidade?”. O próprio Hall (2006, pp. 7-9)
afirma que o conceito de identidade não tem definição fixa ou
exata, sendo “impossível oferecer afirmações conclusivas”. Até
mesmo o conceito, assim como a própria identidade, está em
construção. Sobre a crise de identidade, Hall (2006, p. 7) constata
que “[…] as velhas identidades estão em declínio, fazendo
surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até
aqui visto como um sujeito unificado”. Assim, as identidades
modernas estão, cada vez mais, descentrando-se e fragmentando-se,
transformando-se em identidades pós-modernas.
Para
compreender tal fragmentação e alteração entre o sujeito moderno
e o sujeito pós-moderno, Hall (2006, pp. 10-13, grifo nosso)
propõe-se a pensar a identidade a partir de três concepções:
a) a
identidade do sujeito do Iluminismo: nesta concepção, o sujeito
é seu centro. Ele é um “indivíduo totalmente centrado,
unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de
ação, cujo 'centro' consistia num núcleo interior, que emergia
pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia
[...]”. O importante nessa concepção é o “eu”.
b) identidade
do sujeito sociológico: a partir desta concepção, tira-se o
foco do “eu centrado e uno” e passa-se a perceber que a
identidade é uma construção que depende, também, do outro. Ou
seja, o sujeito é “formado na relação 'com outras pessoas
importantes para ele', que mediavam para o sujeito os valores,
sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela
habitavam”. Pode-se dizer, então, que a “identidade é formada
na 'interação' entre o eu e a sociedade”.
c) identidade do
sujeito pós-moderno: aqui se percebe que o sujeito não tem uma
“identidade fixa, essencial ou permanente”. Ela é uma
“celebração móvel”, “formada e transformada continuamente em
relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados
nos sistemas culturais que nos rodeiam”.
Para
Hall (2006, p. 13), as identidades pós-modernas não são definidas
biologicamente, mas sim, historicamente. Isto
é, não basta o sujeito ter nascido brasileiro, ele precisa se
identificar enquanto tal, precisa assumir a identidade de seu país,
estar
ligado a sua história, a sua tradição e a sua cultura. Este terceiro sujeito, segundo
Hall (2006),
pode assumir diferentes identidades em diferentes momentos e lugares.
Sobre
este aspecto, Certeau (2011, p. 86)
fala-nos sobre o “tabuleiro social”, onde
podemos perceber uma distinção, ou seja, distinguímo-nos, também,
pelos “comportamentos segundo o seu lugar (de trabalho ou de
lazer)”, onde cada comportamento é qualificado “pelo fato de se
colocarem nesta ou naquela casa do tabuleiro social – no
escritório, na oficina ou no cinema”. Estas
identidades não precisam, necessariamente, ser “unificadas
ao redor de um 'eu'
coerente”. Podem
até mesmo ser contraditórias, visto que “nossas
identificações estão sendo continuamente deslocadas”
(HALL,
2006, p. 86).
Em
suma, Hall (2000, p. 108) acredita que “as identidades não são
nunca unificadas”; elas são “cada vez mais fragmentadas e
fraturadas” […] “não são, nunca, singulares, mas
multiplamente construídas ao longo dos discursos, práticas e
posições que podem se cruzar ou ser antagônicos”. Enfim, “as
identidades estão sujeitas a uma historização radical, estando
constantemente em processo de mudança ou transformação”.
Com
Hall (2006, p. 13) percebemos as transformações que nossa
identidade vem sofrendo ao longo dos tempos. Mas cada transformação,
ou nova concepção, nos auxilia na compreensão desse conceito tão
complexo e contraditório. Compreendendo o sujeito pós-moderno, o
autor acredita que uma “identidade plenamente unificada, completa,
segura e coerente é uma fantasia”, pois, quanto mais acesso à
diversidade de sistemas de significados e representações culturais,
que cada vez mais se multiplicam, mais “somos confrontados por uma
multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis,
com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos
temporariamente”. Por isso, acreditar ter uma identidade plenamente
constituída e sólida é uma mera ilusão.
Pensar
as transformações do conceito de identidade é também pensar o
descentramento do sujeito, isto é, as transformações que levaram o
sujeito cartesiano ao sujeito pós-moderno. Após as considerações
de pesquisadores como Descartes,
Locke e Williams e o surgimento do modernismo,
Hall (2006, p. 34) dedica-se à análise de como essa identidade não
foi degradada, mas sim, descolada, fragmentada.
Para tal tarefa,
apresenta-nos “cinco grandes
avanços na teoria social e nas ciências humanas” que contribuíram
para a compreensão e a consolidação do “descentramento final do
sujeito cartesiano”:
1)
Louis Althusser, com seu
anti-humanismo, compreendendo, a partir de Marx, que os homens fazem
a história, mas somente sob “as condições que lhes são dadas”
(HALL, 2006, p. 36).
2)
Saussure, ao afirmar que nós “não
somos, em nenhum sentido, os 'autores'
das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na
língua, pois
[…]
a
língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela
preexiste a nós”
(HALL,
2006, p. 40).
3)
Michel Foucault, através de suas constatações sobre o “poder
disciplinar”, que se preocupa, “em
primeiro lugar, com a regulação, a vigilância é o governo da
espécie humana ou de populações inteiras e, em segundo lugar, do
indivíduo e do corpo”. Na
concepção de Foucault, “quanto
mais coletiva e organizada a natureza das instituições da
modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a
individualização do sujeito individual” (HALL,
2006, pp. 42-43).
4)
O movimento do feminismo, que se opunha “tanto
à política liberal capitalista do Ocidente quanto à política
“estalinista” do Oriente”. Este
movimento, assim como os movimentos de política sexual e de lutas
raciais, “apelava para a
identidade social de
seus sustentadores”, ou
seja, mulheres, gays, lésbicas e negros (HALL, 2006, pp. 44-45,
grifo do autor).
5)
Sigmund Freud
e sua concepção de que nossa sexualidade, nossos desejos e nossa
identidade “são formados
com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que
funciona de acordo com uma 'lógica'
muito diferente daquela da Razão”. As
constatações de Freud
“arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de
uma identidade fixa e unificada – o 'penso,
logo existo',
do sujeito de Descartes” (HALL,
2006, p. 36).
Segundo Hall (2006, pp. 27-28, grifo do autor), “Descartes
postulou duas substâncias distintas – a substância espacial
(matéria) e a substância pensante (mente). Ele focalizou, assim,
aquele grande dualismo
entre
a “mente” e a “matéria”que tem afligido a Filosofia desde
então. No centro da “mente” ele colocou o sujeito individual,
constituído por sua capacidade para raciocinar e pensar. 'Cogito,
ergo sum'
era a palavra de ordem de Descartes: 'Penso,
logo existo'”.
Percebemos, então, que Descartes se foca na noção do “sujeito
cartesiano”.
Locke, por sua vez, “definia
o indivíduo em termos as “mesmidade (sameness) de um ser
racional” - isto é, uma identidade que permanecia a mesma e que
era contínua com seu sujeito: 'a
identidade da pessoa alcança a exata extensão em que sua
consciência pode ir para trás, para qualquer ação ou pensamento
passado'”.
O pensador refere-se, então, ao indivíduo soberano, segundo Hall
(2006, pp. 27-28).
Para Raymond
Williams (1976,
pp. 135-6 apud
HALL, 2006, p. 28, grifo do autor)
“a emergência de noções de individualidade,
no
sentido moderno, pode ser relacionada ao colapso da ordem social,
econômica e religiosa medieval. No movimento geral contra o
feudalismo houve uma nova ênfase na existência pessoal do homem,
acima e além de seu lugar e sua função numa rígida sociedade
hierárquica”.
“Encontramos,
aqui, a figura do indivíduo isolado, exilado e alienado, colocado
contra o pano-de-fundo da multidão ou da metrópole anônima e
impessoal (HALL,
2006, p.
32).
O autor cita como exemplos literários do sujeito do modernismo
a Paris
de Baudelaire, e
a obra O
Processo,
de Kafka, onde
estas
imagens, entre
outras
“mostraram-se proféticas do que iria acontecer ao sujeito
cartesiano e ao sujeito sociológico na modernidade tardia” (HALL,
2006, p.
33).
Resumo integral
1. A identidade em questão
[…] as velhas identidades estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. […] existe uma crise de identidade? p. 7
[…] as identidades modernas estão sendo “descentradas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas. p. 8
[…] é impossível oferecer afirmações conclusivas (sobre a identidade) p. 9
[…] como nosso mundo pós-moderno, nós somos também “pós” relativamente a qualquer concepção essencialista ou fixa de identidade – algo que, desde o iluminismo, se supõe definir o próprio núcleo ou essência de nosso ser e fundamentar nossa existência como sujeitos humanos. p. 10
Três concepções de identidade
a) sujeito do iluminismo: baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia [...]. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. p. 10-11
b) sujeito sociológico: refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação “com outras pessoas importantes para ele”, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitavam. […] A identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade. p. 11
A identidade, então, costura […] o sujeito à estrutura. p. 12
O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. p. 12
c) sujeito pós-moderno: conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. p. 13
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. p. 13
* O caráter da mudança na modernidade tardia
Um outro aspecto desta questão da identidade esta relacionado ao caráter da mudança na modernidade tardia; em particular, ao processo de mudança conhecido como “globalização” e seu impacto sobre a identidade cultural. As sociedades modernas são [...]sociedades de mudança constante, rápida e permanente. P.14
A modernidade, em contraste, não é definida apenas pela experiência de convivência coma mudança rápida, abrangente e continua, mas é uma forma altamente reflexiva de vida[...]P.15
Mais importantes são as transformações do tempo e do espaço e o que ele chama de “desalojamento do sistema social” […] P.15
*O que está em jogo na questão das identidades?
Uma vez que a identidade muda de acordo coma forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. P.21
2. Nascimento e morte do sujeito moderno
O foco principal deste capítulo é conceitual, centrando-se em concepções mutantes do sujeito humano, visto como uma figura discursiva, cuja forma unificada e identidade racional eram pressupostas tanto pelos discursos do pensamento moderno quanto pelos processos que moldaram a modernidade, sendo-lhes essenciais. P23
É agora um lugar comum dizer que a época moderna fez surgir uma forma nova e decisiva de individualismo no centro da qual ele erigiu-se uma nova concepção do sujeito individual e sua identidade.P.24.25
As transformações associadas a modernidade libertaram os indivíduos de seus apoios estáveis nas tradições e nas culturas. Descartes acertou as contas com Deus ao torná-lo o primeiro movimentador de toda criação; daí em diante, ele explicou ao resto do mundo material inteiramente em termos mecânicos e matemáticos. P.27
Descartes postulou duas substâncias distintas – a substância espacial (matéria) e a substância pensante (mente). Ele focalizou, assim, aquele grande dualismo entre a “mente” e a “matéria”que tem afligido a Filosofia desde então. p. 27
No centro da “mente” ele colocou o sujeito individual, constituído por sua capacidade para raciocinar e pensar. “Cogito, ergo sum” era a palavra de ordem de Descartes: “Penso, logo existo”. p. 27
sujeito cartesiano
sujeito cartesiano
Outra contribuição crítica foi feita por John Locke, o qual, em seu Ensaio sobre a compreensão humana, definia o indivíduo em termos as “mesmidade (sameness) de um ser racional” - isto é, uma identidade que permanecia a mesma e que era contínua com seu sujeito: “a identidade da pessoa alcança a exata extensão em que sua consciência pode ir para trás, para qualquer ação ou pensamento passado”. indivíduo soberano. p. 27-28
[indivíduo soberano] Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito”da razão, do conhecimento ou da prática; e aquele que sofria as consequências dessas práticas […]. p. 28
[Raymond Williams, 1976, pp. 135-6] “a emergência de noções de individualidade, no sentido moderno, pode ser relacionada ao colapso da ordem social, econômica e religiosa medieval. No movimento geral contra o feudalismo houve uma nova ênfase na existência pessoal do homem, acima e além de seu lugar e sua função numa rígida sociedade hierárquica”. p. 28
Emergiu, então, uma concepção mais social do sujeito. O indivíduo passou a ser visto como mais “localizado” e definido no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna. p. 30
[o surgimento do Modernismo] Encontramos, aqui, a figura do indivíduo isolado, exilado e alienado, colocado contra o pano-de-fundo da multidão ou da metrópole anônima e impessoal. p. 32
[Paris de Baudelaire | O Processo, de Kafka] Estas imagens mostraram-se proféticas do que iria acontecer ao sujeito cartesiano e ao sujeito sociológico na modernidade tardia. p. 33
* Descentrando o sujeito
Aquelas pessoas que sustentam que as identidades modernas estão sendo fragmentadas argumentam que o que aconteceu à concepção do sujeito moderno, na modernidade tardia, não foi simplesmente sua degradação, mas seu deslocamento. p. 34
[…] cinco grandes avanços na teoria social e nas ciências humanas [que contribuíram para a compreensão e a consolidação do] descentramento final do sujeito cartesiano. p. 34
1 Marx: “homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas”. P. 35
Louis Althusser: seu “anti-humanismo” […] teve impacto considerável sobre muitos ramos do pensamento moderno. p. 36
2 Freud: A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formados com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão, arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o “penso, logo existo”, do sujeito de Descartes. p. 36
A formação do eu no “olhar” do Outro, de acordo com Lacan, inicia a relação da criança com os sistemas simbólicos fora dela mesma e é, assim, o momento da sua entrada nos vários sistemas de representação simbólica – incluindo a língua, a cultura e a diferença sexual. pp. 37-38
Entretanto, embora o sujeito esteja sempre partido ou dividido, ele vivencia sua própria identidade como se ela estivesse reunida e “resolvida”, ou unificada, como resultado da fantasia de si mesmo como uma “pessoa” unificada que ele formou na fase do espelho. Essa, de acordo com esse tipo de pensamento psicanalítico, é a origem contraditória da “identidade”. p. 38
Assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. p. 38
Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. p. 39
3 Ferdiand Saussure: argumentava que nós não somos, em nenhum sentido, os “autores” das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. p. 40
A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. p. 40
Além disso, os significados das palavras não são fixos, numa relação um-a-um com os objetos ou eventos nundo existente fora da língua. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua. p. 40
Como diria Lacan, a identidade, como o inconsciente, “está estruturada como a língua”. p. 41
As palavras são “multimoduladas”. Elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar significados. p. 41
4 Michel Foucault: Numa série de estudos, Foucault produziu uma espécie de “genealogia do sujeito moderno”. Foucault destaca um novo tipo de poder, que ele chama de “poder disciplinar”, que se desdobra ao longo do século XIX, chegando ao seu desenvolvimento máximo no início do presente século. O poder disciplinar está preocupado, em primeiro lugar, com a regulação, a vigilância é o governo da espécie humana ou de populações inteiras e, em segundo lugar, do indivíduo e do corpo. p. 42
[…] embora o poder disciplinar de Foucault seja o produto das novas instituições coletivas e de grande escala da modernidade tardia, suas técnicas envolvem uma aplicação do poder e do saber “individualiza” ainda mais o sujeito e envolve mais intensamente seu corpo. pp. 42-43.
[…] quanto mais coletiva e organizada a natureza das instituições da modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a individualização do sujeito individual. p. 43
5 Feminismo: esses movimentos se opunham tanto à política liberal capitalista do Ocidente quanto à política “estalinista” do Oriente. p. 44
Cada movimento apelava para a identidade social de seus sustentadores. Assim, o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e assim por diante. Isso constitui o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade – uma identidade para cada movimento. p. 45
[o feminismo] questionou a clássica distinção entre o “dentro” e o “fora”, o “privado” e “público”. O slogan do feminismo era: “o pessoal é político”. p. 45
Aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero. p. 46
O feminismo questionou a noção de que os homens e as mulheres era parte da mesma identidade, a “Humanidade”, substituindo-a pela questão da diferença sexual. p. 46
[…] o “sujeito” do Iluminismo, visto como tendo uma identidade fixa e estável, foi descentrado, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do sujeito pós-moderno. p. 46
3. As culturas nacionais como comunidades imaginadas
[…] me voltarei, agora, para a questão de como este “sujeito fragmentado” é colocado em termos de suas identidades culturais. A identidade cultural particular com a qual estou preocupado é a identidade nacional.p. 47
O que está acontecendo à identidade cultural na modernidade tardia? No mundo moderno, as culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes da identidade cultural. Ao nos definirmos, algumas vezes dizemos que somos ingleses ou galeses ou indianos ou jamaicanos. p. 47
[…] na verdade, as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. p. 48
Segue-se que a nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. p. 49
Uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu “poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade”. p. 49
* Narrando a nação: uma comunidade imaginada
As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. p. 50
As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. p. 51
Como argumentou Benediet Anderson (1983), a identidade nacional é uma “comunidade imaginada”. p. 51
“As nações”, observou Homi Bhabha, “tais como as narrativas, perdem suas origens nos mitos do tempo e efetivam plenamente seus horizontes apenas nos olhos da mente”. p. 51
Como é contada a narrativa da cultura nacional? p. 51
Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. p. 52
Em segundo lugar, há a ênfase nas origens, na continuidade, na tradição e na intemporalidade. p. 53
Uma terceira estratégia discursiva é constituída por aquilo que Hobsbawn e Ranger chamam de invenção da tradição: “Tradições que parecem ou alegam ser antigas são muitas vezes de origem bastante recente e algumas vezes inventadas.... p. 54
Um quarto exemplo de narrativa da cultura nacional é a do mito fundacional: mitos de origem também ajudam povos desprivilegiados a “conceberem e expressarem seu ressentimento e sua satisfação em termos inteligíveis”. […] Novas nações são, então, fundadas sobre esses mitos. p. 55
A identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na ideia de um povo ou folk puro, original. Mas, nas realidades do desenvolvimento nacional, é raramente esse povo (folk) primordial que persiste ou que exercita o poder. pp. 55-56
* Desconstruindo a “cultura nacional”: identidade e diferença.
Esta seção volta-se agora para a questão de saber se as culturas nacionais e as identidades nacionais que elas constroem são realmente unificadas. p. 58
Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. p. 62
As nações modernas são, todas, híbridos culturais. p. 62
[…] quando vamos discutir se as identidades nacionais estão sendo deslocadas, devemos ter em mente a forma pela qual as culturas nacionais contribuem para “costurar” as diferenças numa única identidade. p. 65
4. Globalização
O que […] está tão poderosamente deslocando as identidades culturais nacionais, agora, no fim do século XX? A resposta é: um complexo de processos e forças de mudanças, que, por conveniência, pode ser sintetizado sob o termo “globalização”. p. 67
A globalização implica um movimento de distanciamento da ideia sociológica clássica da “sociedade” como um sistema bem delimitado e sua distribuição por uma perspectiva que se concentra na forma como a vida social está ordenada ao longo do tempo e do espaço. pp. 67-68
[…] desde os anos 70, tanto o alcance quanto o ritmo da integração global aumentaram enormemente, acelerando os fluxos e os laços entre as nações. p. 68-69
* Compreensão espaço-tempo e identidade
[…] tempo e espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. p. 70
Os lugares permanecem fixos; é neles que temos “raízes”. Entretanto, o espaço pode ser “cruzado” num piscar de olhos – por avião, a jato, por fax ou por um satélite. Harvey chama isso de “destruição do espaço através do tempo”. pp. 72-73
* Em direção ao pós-moderno global?
Alguns teóricos argumentam que o efeito geral desses processos globais tem sido o de enfraquecer ou solapar formas nacionais de identidade cultural. Eles argumentam que existem evidências de um afrouxamento de fortes identificações com a cultura nacional, e um reforçamento de outros laços e lealdades culturais “acima” e “abaixo” dos níveis do estado-nação. p. 73
Alguns teóricos culturais argumentam que a tendência em direção a uma maior interdependência global está levando ao colapso de todas as identidades culturais fortes e está produzindo aquela fragmentação de códigos culturais, aquela multiplicidade de estilos, aquela ênfase no efêmero, no flutuante, no impermanente e na diferença e no pluralismo cultural descrita por Kenneth Thompson (1992), mas agora numa escala global – o que poderíamos chamar de pós-moderno global. pp. 73-74
Os fluxos culturais, entre as nações, e o consumismo global criam possibilidades de “identidades partilhadas” - como “consumidores” para os mesmos bens, “clientes” para os mesmos serviços, “públicos” para as mesmas mensagens e imagens – entre pessoas que estão bastante distantes uma das outras no espaço e no tempo. p. 74
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. p. 75
Foi a difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribuiu para esse efeito de “supermercado cultural”. p. 75
5. O global, o local e o retorno da etnia. As identidades nacionais estão sendo “homogeneizadas”? A homogeneização cultural é o grito angustiado daqueles/as que estão convencidos/as de que a globalização ameaça solapar as identidades e a “unidade” das culturas nacionais. p. 77
Há, juntamente com o impacto do “global”, um novo interesse pelo “local”. A globalização […] na verdade, explora a diferenciação local. Assim, ao invés de pensar no global como “substituindo” o local, seria mais acurado pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local”. p. 77
[…] parece improvável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais. É mais provável que ela vá produzir, simultaneamente, novas identificações “globais” e novas identificações “locais”. p. 78
* O resto no Ocidente
* A dialética das identidades
O fortalecimento de identidades locais pode ser visto na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas. p. 85
Também há algumas evidências da terceira consequência possível da globalização – a produção de novas identidades. p. 86
Como conclusão provisória, parece então que a globalização tem, sim, o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e “fechadas” de uma cultura nacional. Ela tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, e tornando as identidades mais posicionais, mais políticas, mais plurais e diversas: menos fixas, unificadas ou transhistóricas. p. 87
Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado. p. 88
Tradução. Este conceito descreve aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre de sua terra natal. p. 88
Elas carregam os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas. p. 89
As pessoas pertencentes a essas culturas híbridas têm sido obrigadas a renunciar ao sonho ou à ambição de redescobrir qualquer tipo de pureza cultural “perdida” ou de absolutismo étnico. Elas estão irrevogavelmente traduzidas. p. 89
6. Fundamentalismo, diáspora e hibridismo
Baumam tem-se referido a esse “ressurgimento da etnia” como uma das principais razões pelas quais as versões mais extremas, desabridas ou indeterminadas do que acontece com a identidade sob o impacto do “pós-moderno global” exige uma séria qualificação. p. 96
De acordo com as “metanarrativas” da modernidade, os apegos irracionais ao local e ao particular, à tradição e às raízes, aos mitos nacionais e às “comunidades imaginadas”, seriam gradualmente substituídos por identidades mais racionais e universalistas. Entretanto, a globalização não parece estar produzindo nem o triunfo do “global” nem a persistência, em sua velha forma nacionalista, do “local”. p. 97
HALL, Stuart. A identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
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