O que pesquisar quer dizer

by - agosto 15, 2011

  Juremir Machado da Silva

     Este livro é uma ótima leitura para aqueles que estão a voltas com TCC, dissertações, teses e pesquisas afins. De uma forma leve e extrovertida, Silva fala sobre alguns conceitos referentes a pesquisa, metodologias, hipóteses, problemas de pesquisas e o medo que todo pesquisador tem, teve ou vai ter, do monstro da ABNT. 
     Silva afirma que para o texto ser acadêmico, ele não precisa ser ilegível e ter palavras difíceis. A regra de ouro do texto acadêmico em ciências humanas é de que nada pode ficar sem argumento, pois o texto acadêmico é um texto argumentado, em que tudo exige demonstração.  Porém, não basta ter o melhor argumento, é preciso saber apresentá-lo. O melhor argumento é aquele que, descobrindo o que estava encoberto, solapa um imaginário e faz emergir uma nova visão sobre um objeto ou um fenômeno.
     Para Silva, o pesquisador é um cronista do imaginário. Ele vê no cotidiano aquilo que os outros não vêem, porque está encoberto pela familiaridade. O pesquisador vê o cotidiano com "estranhamento". De acordo com o autor, os passos que devemos seguir em uma antimetodologia positivista, deve ser do "estranhamento - entranhamento - desentranhamento". 
     Ao final de uma pesquisa, o pesquisador deve ser capaz de responder as questões: qual foi o caminho descoberto? Como foi o resultado obtido? qual a finalidade de algo? Como ele foi alcançado? 
     Metodologia, para Silva, é um conjunto de técnicas e procedimentos que ajuda na produção do descobrimento, fazendo a resposta aparecer. A pesquisa forma seu destino a partir da escolha teórica e metodológica. 
     Silva afirma responde as suas próprias perguntas: O que é uma metodologia? um meio para atingir um fim. Qual é a essência da metodologia? uma forma de formatar o que é descoberto. O que se pode fazer para evitar a conformação metodológica? Nada, exceto apostar na pluralidade de métodos para que várias interpretações possam conviver e disputar o estatuto de verdade. Pesquisar é "fazer-vir", passar do encoberto ao descoberto, fazer o objeto dizer "o que ele é". A boa metodologia é aquela que faz passar do encoberto ao descoberto. 
     De acordo com Silva as melhores pesquisas quase sempre são aquelas que partem de um bom problema. O bom problema é aquele que pode ser explicado em uma conversa de bar, e ser entendido. Já as hipóteses, podem ser divididas em quatro categorias: 


- Hipótese de confirmação: parte-se do senso comum, de uma intuição forte, e faz-se a pesquisa para confirmar aquilo que se apresenta previamente como verdadeiro.


- Hipótese de exploração: indicam caminhos, provocam o objeto, testam sua resistência, ajudam a invalidar pretensas verdades. 


- Hipóteses de especulação: dominam os ensaios, tem grande valia para trabalhos de argumentação. 


- Hipóteses de refutação: partem de uma priori forte para derrubar o senso comum. 


- Hipóteses de inversão: investem contra dogmas, mitos, certezas e "verdades" científicas e/ou históricas consagradas e protegidas. 

      O referencial teórico, de acordo com Silva, serve para que o autor mostre que sabe o que já foi dito antes sobre ou em torno do seu campo de interesse. Ele é uma lente, um olhar emprestado, ajuda a ver o fenômeno estudado. Entre os autores que o pesquisador escolhe para comporem seu referencial teórico, este deve confrontar os diferentes olhares entre seus escolhidos. Deve: a- fazer uma mediação entre eles, b- superá-los, c- gerar uma síntese, d- mostrar se eles podem ser dialogicamente antagônicos e complementares, e- apontar pontos fortes e pontos fracos em cada um deles. Quando uma citação é feita, é para ela ser comentada. A legitimação pela citação é uma legitimação pela autoridade dos autores.
     O pesquisador é aquele que tira a lente para olhar, por um momento, com os olhos dos outros e que faz perguntas incômodas a si mesmo e aos outros. O rigor da pesquisa consiste em explicitar as condições de formulação de hipóteses, de levantamento de dados e de elaboração das análises e das conclusões. Tudo deve ser dito. 
     Concluindo, Silva oferece-nos algumas dicas:


- não tente ser epistemólogo todo tempo;
- tente chegar à verdade mesmo se alguns sustentam que ela é inalcançável;
- todas as formas são boas para produzir saber, conhecimento e levar à ciência;
sempre que puder, faça pesquisa de campo, suje as mãos no mundo vivido, faça corpo a corpo com o real, mergulhe nos imaginários, dialogue com a alteridade;
- se possível, conceba uma nova e genial teoria. 


     Sobre a ABNT, Silva afirma que ela não manda, ela recomenda. Mas a produção científica é uma peça que exige ser apresentada seguindo alguns passos. E o mais inteligente, não é pagar para alguém colocar seu trabalho "dentro das normas da ABNT", é aprender as normas de verdade. 
     Silva afirma que a sociedade precisa de mitos para alimentar seu imaginário. Que os crie, alimente e proteja. Ao pesquisador cabe buscar a verdade. Esse é o seu papel. Pois pesquisar é isso: fazer emergir algo que não está à primeira vista.

You May Also Like

0 comentários