As estrelas: mito e sedução no cinema
Este livro é super indicado para aqueles que pesquisam ou se interessam por temas como mito, imaginário, estrelas de cinema, e claro, cinema. Só pelo fato do autor ser Edgar Morin, já vale a pena a leitura.
Morin inicia sua explanação falando-nos que a câmera oferecia aos espectadores, semideuses, semidivindades, que são criaturas do sonho resultante do espelho cinematográfico. E ele os estuda no livro enquanto "mitos modernos". Ele não busca a desmistificação desses mitos, mas sim, estudá-los enquanto seres humanos e divinos, semelhantes aos deuses, aos heróis, e dignos de culto e adoração.
Morin afirma que a estrela começa a surgir quando o nome da atriz/ator é mais importante e mais difundido, que o nome de seus personagens. E estas, se concretizam num novo sistema de relações entre o real e o imaginário.
O autor afirma que a dialética entre o ator e o personagem não pode justificar a estrela sem que intervenha a noção de mito. Para ele, mito é um conjunto de condutas e situações imaginárias, sendo que essas condutas e situações podem ter por protagonistas personagens sobre-humanas,heróis ou deuses.
Morin explica-nos então que, quando se fala do mito da estrelas, refere-se ao processo de divinização que é submetido o ator de cinema, e que faz dele o ídolo das multidões. O autor também fala que uma boa parcela dessa mitificação/divinização, se dá pelo fato da relação quase sempre direta entre a estrela e o amor. Ele afirma que o amor é por si só um mito divinizador: amar é idealizar e adorar. Nesse sentido, todo amor é uma fermentação mítica. Outro elemento que está ao lado da estrela é sua beleza, sendo ressaltada através de maquiagens, figurinos ou até mesmo, ângulos de câmera.
Esse mito, de acordo com Morin, é também cultuado por suportes míticos, que são aqueles elementos que todo o fã busca e guarda, que se refere à sua estrela de cinema. Como os autógrafos, as fotos, roupas. O autor contanos que Hollywood recebe cartas de fãs pedindo desde chicletes mascadas, guardanapos usados, até pedaços de grama pisados por suas estrelas preferidas. É como se o item se diviniza-se apenas por ter sido tocado ou por ter pertencido à estrela idolatrada.
As estrelas são deuses, heróis, mitos, mas também são mercadorias, símbolos do capitalismo e destinada ao consumo das massas. E essa mercantilização está assegurada pelos maiores disseminadores do mundo moderno: a imprensa, o rádio e o filme. No referido livro, o autor não menciona, mas não posso deixar de explanar sobre a crítica à essa mercantilização das estrelas feitas por Andy Warhol, através de seus quadros, principalmente o seu quadro da Marilyn Monroe. Nele, podemos observar que a estrela foi reproduzida sucessivamente, referindo-se a reprodução de sua imagem, afins econômicos, e oferecidos à grande massa. Podemos analisar a crítica, também pelo fato de Andy ter adicionado Marilyn ao seus quadros, pois estes retratam principalmente artigos de consumo, como as sopas Campbell's, o Mickey e a Coca-cola.
De acordo com Morin, a estrela desencadeia um fluxo de participações e de afirmações de si, imaginárias. As pessoas imaginam como é a vida da estrela, idealizam, criam histórias em sua mente, a partir da realidade existente, a até pensam, como o próprio autor explana: "o que Marilyn Monroe faria no meu lugar". O que quer identificar-se com a estrela, tanto fisicamente, quanto através de sua personalidade.
Morin afirma que a realidade humana se alimenta de imaginários, a ponto de ela própria ser semi-imaginária, e que se as estrelas são mitos que se aderem tão notavelmente à realidade, é porque é este realidade que o produziu.
O ator então explana sobre duas grandes estrelas do cinema, que são exemplos perfeitos do mito, do culto a uma personalidade que não existe mais materialmente, mas que vive no imaginário popular: James Dean e Marilyn Monroe.
James Dean, o herói das mitologias, de acordo com Morin, teve uma infância conturbada. Aos nove anos, foi morar com um tio, um fazendeiro em Fairmount, depois da morte da mãe. Ele traça o seu destino no combate contra o mundo, e larga a faculdade para se tornar quebrador de gelo em um frigorífico, marinheiro em um rebocador, marujo num iate, até achar seu lugar sobre os refletores cinematográficos.
O ator nos conta que James tinha um amor impossível, Pier Angeli, e que, ao vê-la vestida de noiva, na estrada da igreja, fez um barulho ensurdecedor com sua moto, e em seguida disparou como um louco para Fairmount. Depois dessa desilusão, James se joga no universo das aventuras sexuais.
Era um heróis jovem, bonito e que marcou sua personalidade e seus acessórios, como sinônimo de rebeldia. Todo jovem se achava um pouco rebelde ao usar jeans, casaco de couro, cabelo desleixado, blusa desabotoada, assim como James Dean.
Morin explana que James Dean é o puro herói da adolescência, essa idade sem idade, onde se tem sede de vida, de liberdade e de velocidade. O segredo da adolescência é o de que viver é correr risco de morrer, e James Dean legitimou essa contradição com sua morte prematura.
James Dean morreu na velocidade. Para Morin, a morte realiza o destino de todo o herói mitológico, afirmando sua dupla natureza, humana e divina. A morte completa a profunda humanidade do herói. Com sua morte, James Dean inaugurou a era dos heróis da adolescência moderna.
De acordo com o site R7, James Dean morreu aos 24 anos de idade, no ano de 1955, em um brutal acidente de carro, pouco depois de terminar as filmagens de Juventude Transviada. Ele foi indicado a dois prêmios Oscar póstumos - por Vidas Amargas, em 1956, e por Assim Caminha a Humanidade, em 1957.
Claro que não poderia faltar a diva das divas, a estrela das estrelas: Marilyn Monroe. A estrela se suicida em agosto de 1962, aos 36 anos, sendo localizada na cama de seu quarto com overdose de barbitúrico, substância encontrada em soníferose, e assim, através de sua morte, mata também o star system, que se trata da imagem criada de que as estrelas vivem num conto de fadas, num mundo perfeito em que não existam problemas, tristezas, nem pessoas feias. A morte de Marilyn é a desmitificação natural de que não existe estrela-modelo. Marilyn Monroe, então, consagra-se como a última estrela do passado, e a primeira estrela sem star system. Marilyn morreu em pleno sucesso social, mas em pleno fracasso no viver.
De acordo com Morin, as estrelas já não são modelos culturais, guias ideias, mas simplesmente imagens exaltadas, símbolos de uma vida errante e de uma busca real. James Dean e Marilyn Monroe são estrelas-arquétipos, do período anterior, são também estrelas-matrizes do período atual: James Dean, o primeiro herói da adolescência, e Marilyn Monroe, heroína da nova feminilidade. Ambos são a encarnação da difícil busca do sentido da verdade da vida, da comunicação de uma relação autêntica com outra pessoa.
Referências:
MORIN, Edgar. Estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.




4 comentários
Bem legal esse teu texto, já tinha visto ele num comentário assinado por ti num outro site de cinema, se não me falha a memória. Acabei de escrever um artigo para um jornal aqui da minha região (também sou gaúcho): http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=4473160.
ResponderExcluirSe souber de alguém interessado em vender esse livro, tô a fim.
Ah, esqueci de dizer que meu artigo é sobre os títulos nacionais dados aos filmes da Marilyn Monroe.
ResponderExcluirQue legal que curtiu o post João. Também achei sua publicação muito interessante.
ResponderExcluirSobre o livro, também procurei ele para comprar mas não consegui localizá-lo. Já me disseram para continuar procurando nos sebos, pois ainda posso encontrá-lo. Estou de olho ainda. :D
Olá Tauana,
ResponderExcluirVocê sabe se tem o pdf deste livro em algum lugar?
Bjs.