O imaginário é uma realidade

by - outubro 07, 2011


    O imaginário é uma realidade. É o que afirma o francês Michel Maffesoli, um dos grandes pensadores contemporâneos do imaginário, em entrevista à Revista Famecos, no ano de 2001. O autor afirma que a palavra imaginário virou moda, mas que poucas pessoas sabem verdadeiramente seu significado. Apresenta-nos então, duas linhas de pensadores acerca deste tema: as concepções de Bachelard e Durand e as concepções de Lacan. 
   Maffesoli afirma que em "As estruturas antropológicas do imaginário", a obra prima de Gilbert Durand, que é discípulo de Bachelard, percebe a reflexão do autor, sendo que este,  "recuperou o que tinha sido deixado de lado pela modernidade e indicou como o real é acionado pela eficácia do imaginário, das construções do espírito" (2001, p. 75). Já as concepções de Lacan acerca do imaginário, são totalmente contaminadas pela inspiração em Jung, mas diz-se seguir uma concepção Freudiana, e assim, Lacan tenta racionalizar o imaginário, o que de acordo com Maffesoli, tira a essência do imaginário. 
     Questionado sobre a diferença entre imaginário e cultura, Maffesoli (2001, p. 75) afirma  que a cultura contém uma parte do imaginário, ela é mais ampla. Mas por outro lado, o imaginário também não se reduz à cultura. Mas a cultura pode ser identifica de forma precisa, já o imaginário "permanece numa dimensão ambiental, uma matriz, uma atmosfera, aquilo que Walter Benjamin chama de aura". Maffesoli afirma ainda que o imaginário "não é quantificável", ele é uma atmosfera.
     O autor acredita que não exista imaginário individual, mas sim um imaginário coletivo, pois tudo o que temos como visão do real, são concepções formadas a partir de nosso ambiente social, nossas relações, nossas leituras, ou seja, partilhamos os mesmos pensamentos, pois somos frutos de concepções compartilhadas, que acreditamos ser de nossa autoridade, mas foi formada a partir de ideias de terceiros. O autor afirma que o imaginário é "o cimento social", é um "estado de espírito de um grupo", portanto não pode ser individual. Maffesoli (2001, p. 76) argumenta que este imaginário pós-moderno reflete no que ele chama de "tribalismo", onde não existe o teu ou o meu imaginário, mas o imaginário "de um grupo no qual se encontra inserido". Para ele, "o imaginário é determinado pela ideia de fazer parte de algo. Partilha-se uma filosofia de vida, uma linguagem, uma atmosfera, uma ideia de mundo, uma visão das coisas, na encruzilhada racional e não-racional" (MAFFESOLI, 2001, p. 80). 
    Maffesoli afirma que não são as imagens que produzem os imaginários, mas sim o contrário, são os imaginários que produzem as imagens. As imagens são o resultado, não o suporte. 
    Quando questionado sobre a diferença entre imaginário e ideologia, o autor argumenta que a ideologia "é pensada, passível de racionalização", já o imaginário é, ao mesmo tempo "impalpável e real" (MAFFESOLI, 2001, p. 77). O imaginário, de acordo com o autor, "funciona pela interação", ele não é nem de direita, nem de esquerda, "pois está aquém ou além dessa perspectiva moderna" (p. 78).
   O autor sita seu livro "A transfiguração do político", onde explana "como a passagem da convicção à sedição implica a metamorfose da política". Para ele, "o imaginário político trabalha a argumentação através de um arsenal de mecanismos emocionais, como símbolos de partido, as datas que devem ser comemoradas , os heróis e os mitos que devem ser lembrados, os ritos que precisam ser atualizados" (p. 78). 
    Em Durand, "todas as noções são flexíveis" (MAFFESOLI, 2001, p. 79), o autor não separa totalmente o imaginário do simbólico, pois ambos se contaminam, tanto que "sua investigação se dá sobre a imaginação simbólica". Também em Bachelard, não há definições rígidas, mas sim, "aproximações" de conceitos. 
  Maffesoli (2001, p. 80) afirma que para Durand (em As estruturas antropológicas do imaginário), o imaginário "é a relação entre as intimações objetivas e a subjetividade. As intimações objetivas são os limites que as sociedades impõem a cada ser. Relação, portanto, entre as coerções sociais e a subjetividade. [...] Há sempre um vaivém entre as intimações objetivas e a subjetividade. Uma abre brechas na outra". O autor complementa: "o imaginário é uma sensibilidade, não uma instituição". 
    Maffesoli (2001, p. 80), ao ser questionado sobre "tecnologias do imaginário", afirma que acredita nesses instrumentos de criação de imaginários. Argumenta que "o imaginário é alimentado por tecnologias". Então, no tema tecnologia, o autor afirma que "a internet é uma tecnologia da interatividade que alimenta e é alimentada por imaginários. Existe um aspecto racional, utilitário, de internet, mas isso representa apenas uma parte do fenômeno. O mais importante é a relação, a circulação de signos, as relações estabelecidas". 
  Maffesoli (2001, p. 81) fala sobre alguns críticos da internet, que são racionalistas e esquerdistas, como Dominique Wolton e Philippe Bréton, afirmando que estes "têm medo   porque a internet multiplica imagens, produz algo que não é racional. [...] A crítica à internet vem de um pensamento politicamente correto que teme pensar com as tripas". 
    O autor afirma que o cinema também atuou, e atua até os dias de hoje, como tecnologias do imaginário, mas ao contrário do que se pensava, assim como se pensava da publicidade, e da televisão, o cinema não impõem imagens à sociedade. "O criador", seja no cinema, na televisão, ou na publicidade e afins, cria porque consegue "captar o que circula na sociedade". Cita então Edgar Morin, onde em seus livros como "O cinema e o homem imaginário" e "Estrelas", mostra-nos "que existe uma reversibilidade, um vaivém. Não apenas a imposição de algo que vem de cima, um impacto, mas uma relação". Maffesoli conclui: "portanto, as tecnologias do imaginário bebem em fontes imaginárias para alimentar imaginários". 

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