O Imaginário
Imaginário, imaginário. O que és? É na busca por esta resposta que adentrei na leitura do livro de Gilbert Durand (2010), e para minha surpresa, sua leitura é muito mais prazerosa do que eu imaginava. Com uma escrita tranquila e envolvente, Durand leva-nos aos contextos, conceitos, autores sobre o imaginário, entre outros.
Sabemos que é de suma importância para qualquer estudo, a observação do contexto histórico do objeto ao qual nos propomos pesquisar, afim de nos localizarmos em uma linearidade histórica e percebermos em qual nível de pesquisa, estão outros autores que compartilham conosco de um mesmo objeto, ou uma mesma teoria. É necessário saber, por exemplo, Gran Bell inventou o telefone, para não acharmos que somos o pai da telefonia.
Durand (2010) inicia sua obra contando-nos um pouco sobre a história do imaginário, inclusive sua relação com a religião. Afirma ainda que "a partir do século 17, o imaginário passa a ser excluído dos processos intelectuais" (p. 12), pois este era entendido pelos intelectuais da época como sinônimo de delírio, sonho, irrealidade. Mas essa concepção, aos poucos, começou a modificar-se. O autor afirma que "ao contrário de Kant, e graças à linguagem imaginária do mito, Platão admite uma via de acesso para as verdades indemonstráveis: a existência da alma, o além, a morte, os mistérios do amor..." p. 16-17. E é aí, onde a razão não pode penetrar, é que a "imagem mítica fala diretamente à alma" p. 17.
A imagem foi tema de debates e discordância na Reforma e Contra-reforma, e após a "guerra das religiões", os valores visionários do imaginário, viu-se obrigado a procurar "refúgio longe dos combates fraticidas das Igrejas" p. 26
Gilbert Durand (2010) explana sobre a "revolução do vídeo", afirmando que as imagens mediáticas acompanham o ser humano "desde o berço até o túmulo". Nesta revolução, a "afirmação do papel 'cognitivo' (que produz consciência) da imagem, explodirá" p. 31-33. Esta imagem está eternamente presente em nossa vida, "ditando as intensões de produtores anônimos ou ocultos" p. 33.
De acordo com Durand (2010), é Jung (1932) quem "'normalizou' o papel da imagem e foi o primeiro a pluralizar o libido com clareza. Para Jung, a imagem, por sua própria construção, é um modelo de autoconstrução (ou "individualização") da psique" p. 37
Durand (2010) afirma que "todo o imaginário humano articula-se por meio de estruturas plurais e irredutíveis, limitadas a três classes que gravitam ao redor dos processos matriciais do 'separar' (heróico), 'incluir' (místico) e 'dramatizar' (disseminador), ou pela distribuição das imagens de uma narrativa ao longo do tempo" p. 40. O autor afirma ainda que "o imaginário constitui o conector obrigatório pelo qual forma-se qualquer representação humana", sendo que "todo pensamento humano é uma re-presentação" p. 41. Logo, todo o pensamento humano forma-se pelo imaginário.
Esta afirmação faz-nos lembrar das palavras de Silva (2006), onde este afirma que "todo imaginário é real, todo o real é imaginário", pois nossos pensamentos são verdades, são realidades. O que desconstrói a concepção de que imaginário é apenas sonho, ficção ou fantasia. Assim como Maffesoli (2001) afirma que "o imaginário é uma realidade", em entrevista à Silva, para a Revista Famecos (2001, nº 15).
Durand (2010, p. 46-47) afirma que, "para Comte e Marx, o imaginário e seus trabalhos situam-se 'à margem' da civilização, tanto na idade 'teológica' do primitivo humano quanto na superfície da insignificância superestrutural". Porém, Durand (2010, p. 47) afirma que situar o poder do imaginário às margens do "pensamento do sapiens", é recusar de uma só vez, "em um único movimento, os 'progressos de uma consciência'". Para não realizar este recuo, percebeu-se o valor do imaginário e "a ciência do homem social passou a abordar todas as declinações do pensamento imaginário" p. 49.
O autor sita, o já referenciado, Michel Maffesoli (1985), afirmando que este é o "fundador simultâneo de uma estética sociológica atenta às menores imagens do cotidiano, ao frívolo, efêmero, conquistadora do presente e do atual" p. 55-56. Durand (2010, p. 57) argumenta que a "sociologia passará a ser a 'figurativa' (Tacussel), fundamentando-se num 'conhecimento comum' (Maffesoli) onde sujeito e objeto formam um só no ato de conhecer e no qual o estatuto simbólico da imagem constituiu paradigma".
Durand (2010, p. 60) apresenta-nos então as "novas críticas", que são a "mitocrítica" e a "mitoanálise". O autor afirma que o mito "deve servir-se das instâncias de persuasão indicadas pelas variações simbólicas sobre o tema". Esses "exames" de imagens podem ser reagrupadas em "séries coerentes ou 'sincrônica' (que podem ser consideradas como mitemas, que são a menor unidade semântica num discurso e que se distingue pela redundância)".
Já as mudanças do imaginário "são regidas por um 'princípio de limite' duplo: um 'limita' no tempo a gestação de uma viga mítica e o outro, as escolhas das mudanças míticas" (DURAND, 2010, p. 66). Há também diferença entre imaginários "dionisíacos" e "apolíneos".
Durand (2010, p. 73) apresenta-nos mais dois autores relacionado à imaginários: Mircea Eliade e Henry Corbin. Durand (2010, p. 74) afirma que Eliade "mostra em todas as religiões, mesmo nas mais arcaicas, há uma organização de uma rede de imagens simbólicas por detrás de todas as manifestações da religiosidade da história. Um processo mítico que se manifesta pela substituição do tempo profano por um tempo sagrado".
No capítulo III, Durand (2010, p. 79) expõe conceitos acerca do mito. Para ele, o mito, assim como o imaginário, é alógico. De acordo com Durand (2010, p. 86), o "mito não raciocina nem descreve: ele tenta convencer pela repetição de uma relação ao longo de todas as nuances possíveis". O autor afirma ainda que "os processos do mito, onírico ou do sonho, consistem em repetição (a sincronicidade) das ligações simbólicas que os compõem. Por conseguinte, a redundância aponta sempre para uma 'mítica'".
Para Durand (2010, p. 87), "o imaginário, nas suas manifestações mais típicas (o sonho, o onírico, o rito, o mito, a narrativa da imaginação, etc...) [...] é alógico". Afirma também que "os conteúdos imaginários (sonhos, desejos, mitos) de uma sociedade nascem durante um percurso temporal e um fluxo confuso, porém importante, para finalmente se relacionarem numa 'teatralização', [...] os quais recebem suas estruturas e seus valores das várias 'confluências' sociais, perdendo assim sua espontaneidade mitogênica em construções filosóficas, ideológicas e codificações" (DURAND, 2010, p. 96).
Durand (2010, p. 103) apresenta-nos então as concepções acerca da "bacia semântica", que para ele, seu conceito "permite a integração das evoluções científicas supracitadas e em seguida, uma análise mais detalhada dos subconjuntos de uma era e área do imaginário: seu estilo, mitos condutores, motivos pictóricos [...], isto é, propondo uma 'medida' para justificar a mudança de modo mais pertinente do que o menos explícito 'princípios do limite'".
O autor afirma que as profundas mudanças de uma época eram atribuídas as mudanças de gerações, como se esses imaginários se modificassem de pai para filho, mas, segundo o autor, "essa revolta periódica [...] é curta demais para cobrir a amplitude de uma bacia semântica" (DURAND, 2010, p. 115). O autor constatou que a mudança do imaginário ocorre entre 150 a 180 anos, justificada pela duração de três ou quatro gerações. Ou seja, um mesmo imaginário é compartilhado pelo avô, pelo filho e pelo neto, o que daria uma continuidade de cerca de 120 anos. Acrescenta-se então, "o tempo da institucionalização pedagógica de 50 a 60 anos, que permite ao imaginário familiar, sob pressão de eventos extrínsecos, se transformar num imaginário mais coletivo e invadir a sociedade ambiental global" (DURAND, 2010, p. 115-116).
O autor conclui afirmando que vivemos em uma "civilização da imagem", o que nos permitiu perceber o poder desta frente às nossas concepções. Somos bombadeardos por imagens "enlatadas" diarimente, e sofremos pelo excesso de informação, bucando cada vez mais, filtros para estas. Mas, felizmente " se formou um 'magistério' discreto de sábios competentes, [...] aos quais aqueles que pretendem governar, deverão prestar atenção" (DURAND, 2010, p. 120).

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