A Transfiguração do Político: a tribalização do mundo

by - outubro 29, 2011

de Michel Maffesoli





            Num de seus livros mais atuais, Maffesoli fala-nos sobre a transfiguração do político e de todos os aspectos que envolve o estar-junto. O autor, explana sobre essa transfiguração, e também sobre nossa passagem da modernidade para a pós-modernidade.
            O autor ressalta incansavelmente o fim do individualismo. Este sai de cena e dá lugar à tribalização. Para o autor (2005, p. 14) “o indivíduo não é mais uma entidade estável promovida de identidade intangível e capaz de fazer sua própria história, antes de se associar com outros indivíduos, autônomos, para fazer a História do mundo”. Maffesoli (2005) explana então sobre seu livro O Tempo das Tribos, onde argumentou e defendeu a teoria de “tribalização do mundo”. O autor defende que há uma “unicidade flexível que agrega numa harmonia conflitual as tribos mais diversas” (MAFFESOLI, 2005, p. 17). Em outras palavras, há algo que nos une enquanto sociedade, mesmo que pertençamos a grupos totalmente diferentes, sempre partilharemos algo em comum com os demais participantes de nossa sociedade.
            No capítulo I, O político e seu duplo, Maffesoli (2005, p. 23) afirma que “o político é uma instância que, na sua concepção mais forte, determina a vida social, ou seja, limita-a, constrange-a e permite-lhe existir”. O político tem o controle sobre aqueles que governa, não um controle absoluto, mas um controle por ter em suas mãos, o poder de decisão que compreende muitos âmbitos da sociedade. O autor cita La Boétie, que expressou o conceito de “servidão voluntária”, sendo que Maffesoli (2005, p. 24) argumenta que isto se refere à aceitação do chefe, e a sua procura, na necessidade.  
        Maffesoli (2005, p. 27) nota que “o chefe só pode ser reconhecido enquanto tal se sabe influenciar os sentimentos, os desejos, o imaginário coletivo”. Para o autor, o político deve governar através da paixão, ou melhor, da “gestão de paixões”, que se trata então, da “arte suprema de toda boa política”.
        Através da gestão das paixões, então, o político “mobiliza a força imaginal”, que é o que constrói e assegura o equilíbrio de seu meio, tanto o meio social, quanto o meio natural, pois uma das características do político é garantir o equilíbrio, de acordo com Maffesoli (2005, p. 29-30). Além deste equilíbrio, todo líder deve envolver sua sociedade entorno “de uma ideia, de uma imagem, de uma emoção, porque o povo tem necessidade de colocar-se em estado de religação”. Religação no sentido de procurar o outro, de querer reunir-se de “entregar-se ao outro” (MAFFESOLI, 2005, p. 33).
        Neste processo de religação, de entrega ao outro, Maffesoli (2005, p. 34, grifo nosso) considera que há uma “espécie de criação contínua que o líder carismático, o exemplo da divindade captará em seu benefício”. O autor argumenta que talvez nesta concepção esteja a chave para o que chama de “populismos extremos”.
        Através desta união, deste encontro com o outro, nos tornamos grupo, nos tornamos massa, enfim, nos tornamos tribo. E, de acordo com Maffesoli (2005, p. 54) “é esse comportamento tribal que tende a predominar”. Além da tribo que é governada, Maffesoli (2005, p. 56-57) também sublinha que há tribos no poder, ou seja, grupos sólidos e unidos que tem nas mãos, o poder político, ou decisório. Neste aspecto, o autor apresenta o exemplo das máfias, e afirma ainda que “a palavra democracia significa, por antífrase, o poder de alguns”.
        No capítulo II, A socialidade alternativa, Maffesoli (2005, p. 70) nota as concepções de Gilbert Durand, mais precisamente sobre “sua noção de ‘bacia semântica'”, sendo que a política não escapa a esses imaginários, pois o autor argumenta que o poder é frágil e que “a morte do chefe vem sempre selar o seu destino”. Essa morte significa, para Maffesoli (2005, p. 71, grifo do autor) o que “remobiliza a energia coletiva e com isso recria um novo ethos”. 
          A morrer, o político traz à luz algo novo, um novo ciclo, uma nova etapa. Percebendo isso, Maffesoli (2005, p. 72) inverte o conceito de Péguy afirmando que “a política termina no místico”. Além disso, Maffesoli (2005, p. 73) sublinha que a condenação à morte do poder “é a estrutura arquetipal profundamente enraizada no imaginário coletivo, irrigando todas as atitudes de desprezo, suspeita e diferentes movimentos de recuo em relação ao poder que de diversas maneiras se exprimem em toda sociedade”.
De acordo com Maffesoli (2005, p. 77, grifo do autor), “o político, na maior parte do tempo sem querer confessar, vive no conjunto dos mitos fundadores de determinada sociedade, suga-o sem se preocupar com o esgotamento, sem sonhar em renovar-lhe a dinâmica”.  Para o autor, os mitos “exprimem, no sentido mai profundo, o simbolismo de um conjunto social”.  Levando isto em consideração, a política seria “um sonho esclerosado”, ou ainda, “um sonho que se tornou pesadelo”.
Maffesoli (2005, p. 80-81) cita Bataille ao argumentar sobre as explanações do referido autor. Este separa a vida social entre “homogêneo” e “heterogêneo”, ou seja, o “profano” e o “sagrado”. Sobre essa dualidade, Maffesoli (2005, p. 81) nota que “há um equilíbrio entre essas duas dimensões de realidade social, ou mais exatamente, uma combinação variável”.
É esta duplicidade que “traduz bem a dualidade estrutural da natureza humana que, ao mesmo tempo, no sonho ou no imaginário, vive coisas totalmente estranhas uma em relação às outras” (MAFFESOLI, 2005, p. 81). E em todo este processo, percebemos que ocorre uma “coerência geral”. Os dois aspectos da vida social caminham harmoniosamente juntos, um complementando o outro. Maffesoli (2005, p. 82) complementa que a multiplicidade da vida é “outra maneira de referir-se à eternidade. Eternidade vivida no presente”.
Para Maffesoli (2005, p. 98), “o político consiste em equilibrar todos os elementos de uma sociedade determinada, em particular, os seus aspectos passionais como os racionais”. Cabe aos políticos gerar o equilíbrio da sociedade, até mesmo a aspectos que não lhe cabem. Se o político não alcançar o equilíbrio de sua sociedade, terá que arcar com as conseqüências da efevercência social, com a força da massa. Então, é a “ambiência mística que caracteriza a época: comunga-se com outros em torno de emblemas comuns e assim cria-se a comunidade”.
No capítulo III, A cultura do sentimento, Maffesoli (2005, p. 106) argumenta que “só se pode compreender o indivíduo em interação”, através da “mediência social”. Não podemos compreender o indivíduo como um ser único, isolado, separado do restante da sociedade, pois este faz parte de um conjunto, bem como este conjunto, também faz parte do que ele é. Percebemos que “a forma é formante”, em outras palavras, é a forma, o modo, a maneira que interajo com o outro, o que me faz ser quem eu sou. Sendo que, na interação com o outro, é que vou segmentando a tribo, ou as tribos, ao qual desejo pertencer.
Maffesoli (2005, p. 111) não deixa de destacar que “em certas épocas predominarão o contágio afetual, os fenômenos emocionais, épocas dominadas pelo imaginal, gerando um tribalismo exacerbado”.  O autor complementa ainda, que “a massificação da cultura, do lazer, do turismo, do consumo, é claro, a causa e o efeito de tal tribalismo” (MAFFESOLI, 2005, p. 112).    
Para Maffesoli (2005, p. 115, grifo nosso), “transfiguração do político completa-se quando a ambiência emocional toma o lugar da argumentação, ou quando o sentimento substitui a convicção. Isso se separa depois de muito tempo”. Compreendemos então que a transfiguração é a passagem do racional para o emocional, bem como compreendemos que não é algo planejado. É uma ebulição, “a expressão de um sentimento coletivo, de uma emoção comum experimentada” (MAFFESOLI, 2005, p. 117). Cabe ressaltar ainda, que a “especificidade desta ebulição é o presenteísmo”, de acordo com Maffesoli (2005, p. 118).
E, após esta ebulição, quando a sociedade precisa recompor-se e encontrar-se novamente, é na partilha do riso e do choro que ela toma seu rumo novamente, sendo que esta partilha resulta do “reforço da comunicação. Assim, “o corpo social” sabe novamente, “o que faz junto” (MAFFESOLI, 2005, p. 122). O autor nota ainda que “a mídia, principalmente a televisão, favorece essa correspondência mágica” (MAFFESOLI, 2005, p. 122).
Nesta passagem do racional para o emocional, constatamos também a passagem da modernidade para a pós-modernidade, pois, de acordo com Maffesoli (2005, p. 126), “ultrapassa-se a lógica da modernidade, pelo qual só o racional é real, através da lógica contraditorial, à qual se ajustam, como podem, as múltiplas expressões do sentimento coletivo”.
Em seu IV capítulo, denominado O ritmo social, Maffesoli faz uma analogia de “ritmo social” e ritmo musical, para explicar-nos a filosofia Carpie Dien (aproveite o dia). O autor fala sobre a lambada, o rock, as eletrônicas, e como o ritmo desses cultos “contaminam a vida e o fundo sonoro de nossas cidades”. Para Maffesoli (2005, p. 141) o que torna essas músicas, esses ritmos comuns é a “evocação desses orientes místicos onde o ritmo segue uma pulsão natural”.
Maffesoli (2005, p. 143) argumenta que “ou a vontade se projeta e busca realizar, como frequentemente se analisou, o sentido da História, a sociedade perfeita ou o fim dos tempos, ou, ao contrário, ela encarnar-se, naturaliza-se e exprime uma força vital um pouco cega e bruta, que pretende ser vivida aqui e agora”. Isto caracteriza um “ritmo natural”, e então, podemos compreender que a época “se torna musical”.
O autor completa a ideia anterior argumentando que “em função do ritmo, o indivíduo elaborará uma harmonia feita de medida, de senso de oportunidade [...], de aceitação de regras e de limitações mais vividas que pensadas”. Compreendemos que estas tribos, então, dançam num mesmo ritmo.   
No último capítulo, O “nós” comunitário, Maffesoli (2005, p. 153) explana que o “indivíduo e o individualismo, teórico ou metodológico, base de sua racionalização, não fazem mais sentido”, isto porque compartilhamos um “estar - junto grupal”. Nesta concepção de “estar – junto”, Maffesoli (2005, p. 154) argumenta que há uma mudança do “eu penso”, para o “eu sou pensado”. Entendemos que o que pensamos, então, é o reflexo de nossa convivência com o outro, com o grupo, com a sociedade. Eu não penso sozinho porque minhas concepções de mundo e minhas idéias são oriundas do meio ao qual pertenço.
Maffesoli (2005, p. 161) argumenta que é o desenvolvimento da tecnologia que impulsiona “o consumo frenético de objetos, as historietas esportivas, e as grandes paradas políticas e religiosas” ou “tudo que exprime a nostalgia”. Maffesoli (2005, p. 161) salienta que é aí que “se acha o ponto nodal da pós-modernidade: a sinergia do arcaísmo, essencialmente a nostalgia do ‘nós’ com a tecnologia”.
Maffesoli (2005, p. 162) cita Gilbert Durand, afirmando que o referido autor classifica a tendência à adesividade, ou seja, a força que nos aproxima, às “estruturas místicas do imaginário, estrutura que busca a intimidade, a perda na transcendência, seja da deidade ou, mais difusa, do corpo social”.  Neste sentido, “o eu não é inicialmente ele mesmo, mas o é através dos outros” (MAFFESOLI, 2005, p. 162). Compreendemos ainda, que “o indivíduo só podia viver ou sobreviver estando estreitamente enquadrado pela rede societal” (MAFFESOLI, 2005, p. 164).
Ainda sobre o indivíduo, Maffesoli (2005, p. 165, grifo do autor) afirma que este “é uma realidade relativa, nos dois sentidos do termo; realidade relativizada por outros e que põe em relação com os outros, pressuposto de uma realidade arcaica, [...] uma realidade que serve de suporte”. Maffesoli (2005, p. 165-166) argumenta ainda que “o indivíduo é relativo porque não é todo o ser, e porque resulta de um estado do ser do qual ele não existia nem como indivíduo, nem como princípio de individualização”. O autor argumenta que é a participação que nos torna real, ela consiste em um meio de expressão. Antes da participação, então, vivemos em uma realidade “pré-individual”.  É “graças aos outros e através dos outros que cada um pode [...] realizar a plenitude de suas potencialidades” (MAFFESOLI, 2005, p. 173). Compreendemos então que “é o olhar do outro que me cria” (MAFFESOLI, 2005, p. 178).
Para Maffesoli (2005, p. 181) é no momento em que a sociedade analisa-se e reflete sobre o que “garante sua realidade”, sobre qual o motivo de seus indivíduos estarem juntos, que se percebe o “princípio do político”.  Pois a arte da política é a arte da “gestão de paixões” (MAFFESOLI, 2005, p. 183).
  Sobre a política, Maffesoli (2005, p. 186) pontua que sua ação “virá de alguém que pode entrar em sintonia com os outros, por ser um produto dessa sintonia”. Desta forma, “o homem político é capaz de solidariedade com o meio social”. Ele faz parte de um “coletivo de pensamento, de um mito ou de um discurso comum que se pode entrar numa relação de reciprocidade” (MAFFESOLI, 2005, p. 186, grifo nosso). De acordo com Maffesoli (2005, p. 186, grifo nosso), “somos feitos pelo discurso que engloba e ultrapassa diversos protagonistas que o anunciam. Talvez aí se encontre o fundamento essencial da idéia comunitária como fundamento do político, o qual nada mais é do que uma bela história contada por muitos”.
Nesta história contada por muitos, podemos perceber a cooperação da tecnologia. Para Maffesoli (2005, p. 189) “a sinergia tecnologias-megalópoles faz do mundo inteiro uma ‘aldeia global’, onde as modas, os costumes, os pensamentos, as músicas e os esportes são compartilhados sem que as diferenças de classe, as especificidades locais ou culturais determinem mudanças notáveis”. E é nessa “aldeia global” que também podemos perceber os “imaginários tribais”, ou seja, imaginários compartilhados por aqueles que se encontram nesta aldeia, mas aproximam-se através de identificações, formando assim, as tribos.  
Finalizando suas explanações, Maffesoli (2005, p. 199) nota que a transfiguração do político é sua passagem do racional para o doméstico, ou seja, “uma maneira de adaptação ao outro, de agregação ao outro, numa dinâmica que [...] não pretende exercer uma espécie de soberania em relação ao tempo vivido”.
Entendemos aí uma característica da pós-modernidade, “o fato de tocar o outro, de escutar com ele, de sentir conjuntamente e, claro, de ver juntos é uma maneira de socializar, de comunicar e mesmo de harmonizar as diferenças” (MAFFESOLI, 2005, p. 202).
É interessante acompanhar as explanações de Maffesoli, este grande teórico da sociedade e do presente. Conseguimos acompanhar o raciocínio do autor, que explana sobre as mudanças do indivíduo, do político, e como isso gera mudanças também na sociedade de um modo geral. Sociedade esta que, graças aos avanços das tecnologias, não se restringe mais a barreiras geográficas, pois a cada dia que passa nos tornamos mais senhores do mundo. Somos moradores de uma cidade, mas também somos moradores de uma aldeia global. O autor soube perfeitamente conduzir suas idéias acerca da sociedade, ao mesmo tempo em que soube perfeitamente situar suas mudanças como mudanças da modernidade para a pós-modernidade.
Vivemos numa sociedade pós-moderna, governada por políticos pós-modernos, e é estritamente necessário saber o que mudou, como mudou e tentar chegar a uma conclusão de por que mudou. Precisamos compreender por que somos pós-modernos e o que essa pós-modernidade significa. E Maffesoli oferece-nos bons argumentos para tal compreensão.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   


You May Also Like

0 comentários