A Revolução contemporânea em matéria de Comunicação.
Este é o artigo de Lévy, publicado no livro Para navegar no Século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura, uma obra que contempla artigos produzidos por diversos autores conceituados, tanto brasileiros, como André Lemos e Eugênio Triviño, quanto estrangeiros, como Edgar Morin, Gianni Vattimo, Michel Mafesoli, Paul Virilio, Jean Baudrillard, e o próprio Pierre Lévy. O livro foi organizado por Juremir Machado da Silva e Francisco Menezes Martins.
No referido artigo, Lévy (2003, p. 195) argumenta que a "humanidade reconecta-se consigo mesma". O autor defende essa ideia, lembrando-nos de como nossa civilização era unida, única, ou seja, "nossos ancestrais mais diretos habitavam [...] todos a mesma zona geográfica" (LÉVY, p. 196). Com o passar dos anos, nossos ancestrais se dividiram, se distanciaram, e criaram grupos diferentes e separados.
Lévy (2003, p. 196) afirma que a segunda grande ruptura foi "a revolução neolítica", caracterizou-se pela "grande mutação técnica, social, cultural, política e demográfica cristalizada na invenção da agricultura, da cidade, do Estado e da escrita". O autor salienta que a história de nossos ancestrais, que possuía "tendência à conexão, à reunião, ou à comunicação", inverte-se e há um "movimento [...] de dispersão" (LÉVY, 2003. p. 197).
O autor precisa que a humanidade começou a reconectar-se a partir do século XV, mais ou menos, pois é quando ocorre um "certo número de 'revoluções' na demografia, na economia, na organização política, no habitat e nas comunicações" (LÉVY, 2003, p. 197). Os meios de transporte e a comunicação começam a se desenvolver, e assim, a reconectar uma sociedade antes dissipada. Pessoas que antes eram isoladas, umas das outras, passam a conectar-se, conviver, enfim, passam a se encontrar.
De acordo com Lévy (2003, p. 200), assim como no início de nossos tempos, só que te uma maneira diferente, a humanidade volta a torna-se uma só sociedade. Esse fato, de acordo com o referido autor, é tão recente, que nossos conceitos, estudos e teorias, formas culturais e políticas, "são radicalmente inadequados para dar conta dele".
Ao explanar sobre conflitos e poderes, Lévy (2003, p. 2002) considera que "o poder e a identidade de um grupo dependem mais da qualidade e da intensidade da sua conexão consigo mesmo do que da sua resistência em comunicar-se com o seu meio". Ou seja, não é levantando muros ou muralhas, delimitando fronteiras e separando-se dos demais que um grupo torna-se coeso e de qualidade. É preciso ampliar nossas fronteiras para que assim, possamos nos desenvolver através da coletividade.
Nesta coletividade há troca, reciprocidade, ampliação de conhecimento. Neste sentido, Lévy (2003, p. 203) ressalta que, ao contrário da televisão, por exemplo, "um computador é um instrumento de troca, de produção e de estocagem de informações. Ao canalizar e entrelaçar múltiplos fluxos, torna-se um centro virtual, instrumento de poder". Claro que só a máquina em si não pode fazer isto, ela precisa estar conectada à internet.
Porém, assim como a invenção da escrita também criou os "analfabetos", o desenvolvimento rápido da tecnologia e da internet também criou os "analfabetos digitais", criando também, excluídos. Cada vez que algo novo for criado, haverá aqueles que não o possuam, não o conheçam. Lévy (2003, p. 204) é otimista ao afirmar que com todo esse desenvolvimento, cada vez mais veloz, haverá mais pessoas que convivam e interagem com esta tecnologia, e assim, haverá cada vez menos excluídos.
Ao explanar sobre o ciberespaço, Lévy (2003, p. 2006) afirma que este "é hoje o sistema com o desenvolvimento mais rápido de toda a história das técnicas de comunicação", além disso, "o ciberespaço encarna um dispositivo de comunicação qualitativamente original, que se deve bem distinguir das outras formas de comunicação de suporte técnico". Lévy salienta que o ciberespaço combina tanto as qualidades dos meios tradicionais de comunicação, como o rádio, jornal e a televisão, pois divulga as informações destes em suas páginas, quanto as qualidades do correio e do telefone, ou seja, troca de mensagens com precisão, e sobretudo, reciprocidade. Para além disso, a memória de nossa sociedade, ao invés de resultar de um emissor "todo poderoso", agora "emerge da interação entre os participantes". A mensagem é de todos para todos (LÉVY, 2003, p. 207). O autor considera que a Word Wide Web é, provavelmente, a "maior revolução na história da escrita, desde a invenção da imprensa (LÉVY, 2003, p. 207 - 208).
Como já percebemos, ao utilizar a internet, "quase" qualquer pessoa pode produzir textos, mensagens e informações e publicá-las na internet, tornando-a acessível à todos aqueles que conectam-se à rede. Isso não quer dizer que todas essas informações são verdadeiras, pois é pertinente ao lembrar que, "no plano filosófico, ao menos que se aceitem os argumentos de autoridade, uma notícia não é 'verdadeira'" (LÉVY, 2003, p. 209). No entanto, a internet nos oferece uma ampla gama de informações ao nosso dispor, e o que mais ganhamos com isso é o desenvolvimento de nossas concepções críticas.
Outro fato a considerar, é que na internet não há hierarquia, os poderes são iguais, horizontais. Lévy afirma que "como dizia um consultor americano a um dirigente da IBM, uma criança encontra-se aí, em situação de igualdade com uma multinacional". E é esse um dos fatores que, ao meu ver, estão fazendo os setores de comunicação e rp das empresas terem surtos, pois elas tem de aprender a lidar e conviver com consumidores que sabem que possuem o poder em suas mãos.
Outra consideração importante de Lévy (2003, p. 214), é quando este afirma que "a Web articula uma multiplicidade de pontos de vistas". Ou seja, aqueles que constroem páginas, perfis na rede, expõem seus pontos de vistas. Tanto sobre um determinado assunto, quanto sobre sua própria vida. Quando alguém escreve algo em um blog, por exemplo, mostra ali sua opinião, seu ponto de vista sobre o determinado assunto. Quando alguém cria um perfil em uma rede social, posta suas melhores fotos, seus melhores links, suas melhores frases, aquilo que ela pensa de si, e da sociedade ao qual está inserida. Lévy (2003, p. 214) afirma que "qualquer um terá a sua página, o seu mapa, o seu site, o seu ou os seus pontos de vista. Cada um se tornará autor, proprietário de uma parcela do ciberespaço. Entretanto, essas páginas, sites e mapas dialogam, interconectam-se e confluem através de canais móveis e labirínticos. O autor ou o proprietário coletivo toma corpo". Cabe lembrar também que o "espaço" para material é ilimitado, no mundo WWW, "sempre há mais lugar", um post, uma informação, não exclui a outra.
Vivemos essa evolução dia a dia, e como acontece tudo muito rápido, talvez não nos damos conta de tudo que já mudou em nossa vida, em nossa sociedade. Esse pequeno artigo de Pierre Lévy é perfeito para compreendermos que todos somos camponeses, de um campo universal.
Referência:
LÉVY, Pierre. A Revolução contemporânea em matéria de Comunicação. In: MARTINS, F. M.; SILVA, J. M (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas/Edipucrs, 2003. 280p

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