Epistemologia: conceitos-chave em filosofia

by - julho 16, 2013



    Segundo o autor, seu objetivo é  trazer a epistemologia à terra firma, 'entendível' para o leitor comum. Apesar de este ter uma escrita muito clara e coerente, a quantidade de autores e informações que apresenta na obra a torna densa e pesada. Mostrando a epistemologia a partir de uma visão ampla, apresentando seus principais autores e linhas guias, não sei se a leitura da obra me esclareceu o tema, ou enrolou mais ainda os meus miolos. Bom, a leitura é válida e 'a tentiada é livre'. 


Resumo: 
Introdução

[...] distinção grega inaugural entre doxa e episteme, ou, de um lado, ‘opinião’ (com fortes conotações de ‘mera crença tomada por certa’), e, de outro, “conhecimento’, a opinião ou crença que passou pelo teste de boa garantia de evidência ou de justificação racional. [...] essa distinção [foi] desenvolvida claramente pela primeira vez no diálogo Teeteto de Platão”. P. 12

[...] Wittgenstein – de que a filosofia teria finalmente emergido da angústia da dúvida cética legada por pensadores como Descartes, Locke, Berkeley, Hume e outros adeptos do ‘modo das ideias’, em sua versão racionalista ou empirista. P. 14

[...] tal é a mensagem a ser extraída da ideia wittgensteiniana de que qualquer alegações de verdade de qualquer tipo, desde as da matemática, da lógica e das ciências naturais, às da ética, da estética e da religião, são todas delimitadas pelos múltiplos ‘jogos de linguagem’, práticas culturais ou ‘formas de vida’ e, portanto, devem ser julgadas (cada uma) conforme os seus próprios critérios específicos do que constitui uma declaração válida ou significativa. P. 17

[Quine]: as ciências físicas são de longe o nosso melhor guia em questões filosóficas, e [...] portanto, a epistemologia deveria sem demora ‘encontrar o seu lugar’ como um estudo totalmente naturalizado dos processos pelos quais a ‘escassa entrada’ de estímulos sensoriais de algum modo resulta em ‘saída torrencial’ de conjeturas, hipóteses, proposições observacionais teoricamente informadas, e assim por diante. De fato, se poderia argumentar que o problema de compatibilizar esses dois compromissos (diante das circunstâncias) absolutamente conflitantes, exerceu uma poderosa influência sobre o curso da discussão epistemológica nos últimos 50 anos ou mais. P. 19-20

Uma ideia que tem ganhado sustentação [...] é a ideia de que toda boa teoria do conhecimento deve incluir uma explicação das virtudes epistêmicas (ou dos vários tipos de atitude, esquema mental, caráter intelectual, e assim por diante) que conduzem ao conhecimento e que capacitam investigadores virtuosos [...] a realizar sua tarefa com a melhor perspectiva de sucesso. Somente assim – acredita-se – será possível romper com as influências das estéreis antinomias legadas por filósofos como Descartes, Berkeley, Hume e Kant, para não mencionar a sua mais recente progenitora ‘analítica’ cujos legatários ainda estão [...] presos aos mesmos tipos de dilemas rigorosamente insolúveis. P. 21

[...] a epistemologia teve um falso começo quando permitiu que a sua agenda fosse estabelecida pelo ‘problema do conhecimento’ tal como foi concebido por filósofos da antiga linhagem cartesiano-humeana. Segundo a sua concepção, a única alternativa ao ceticismo total era alguma forma de apelo ‘fundamental’, seja à quimera racionalista (cartesiana) das ‘ideias claras e distintas’, seja à noção empirista humeana dos dados dos sentidos como uma justificação ou defesa em última instância contra a dúvida epistemológica que, de algum modo, acaba por consumir a si própria. P. 22

[...] há uma forte razão para se afirmar que os estudos de Bachelard em história e filosofia da ciência [...] apresentam uma certa similaridade com os de Thomas Kuhn, mas, também, algumas significativas diferenças de ênfase. De fato, pode-se argumentar que a abordagem desses assuntos por Bachelard confunde-se de muitas maneiras com a ideia da filosofia ‘continental’ como deploravelmente propensa a excessos de relativismo cultural, enquanto a filosofia ‘analítica’ se manteria fiel às virtudes do rigor disciplinado na busca da verdade. P. 24

1. A título de resposta: verdade, conhecimento e o credo de Rumsfeld

De um lado, há o sentido epistêmico no qual ‘conhecimento’ é definido – no estilo de Dummentt – como co-extensivo às nossas máximas capacidades de prova, averiguação, verificação, falsificação e assim por diante. De outro lado, há o sentido realista/objetivista segundo o qual o ‘conhecimento’ se estende para além de tudo aquilo que estejamos racionalmente justificados a alegar conhecer por inferência tendo em vista o fato de a verdade tão frequentemente haver enganado ou transcendido os melhores esforços da investigação anterior. P. 44    

[...] ausência de prova não é prova de ausência. P. 52

Com poucas exceções, os filósofos têm tratado o testemunho como uma fonte menos confiável de conhecimento, se comparada com a conhecimento direto obtido em primeira mão, ou com verdades que obtemos por meio de um raciocínio independente a partir de primeiros princípios (auto-evidentes). Se nós devemos confiar no testemunho – assim segue o argumento – deveríamos ter sempre em mente que ele perde credibilidade ou se torna sempre mais dúbio com a passagem de um informante para o outro [...]. p. 53

2. Realismo, referência e mundos possíveis

Putnam propôs um série de engenhosos experimentos de pensamento projetados com o objetivo de insistir sobre a ideia realista de que os significados ‘não estão simplesmente dentro da cabeça’. Ou seja, o que fixa as condições de verdade das diversas proposições pelas quais nos referimos ao mundo físico não é o conjunto de critérios descritivos pelos quais individualizamos os objetos desse ou daquele tipo, mas, antes, precisamente a existência desses objetos com exatamente essas estruturas e propriedades únicas de identificação. P. 66

Os anti-realistas atribuem frequentemente grande importância ao assim chamado ‘argumento do erro’, isto é, à alegação de que não podemos nunca estar justificados ao afirmar a verdade das nossas melhores teorias atuais quando sabemos que a maior parte do ‘conhecimento’ científico de uma época se revela finalmente falso, ou, então, (como as teorias newtonianas do espaço, do tempo e da gravidade), possui somente um campo restrito de aplicação. P. 74

Realismo [...] trata-se da afirmação segundo a qual existe um domínio-mundo-real de objetos físicos, eventos, estruturas, propriedades, poderes causais, e assim por diante, que decide o valor de verdade das nossas diversas proposições ou teorias, e que não pode ser tratado, em nenhum sentido, como dependente do nosso mais avançado estágio atual de conhecimento, ou mesmo do nosso mais avançado estágio futuro de conhecimento alcançável em direção a ele. P. 79

Onde os pensadores precedentes se equivocaram bastante desastrosamente – empiristas e racionalistas igualmente – foi em deixar de observar esse requisito fundamental, opondo-se, assim, ao dito kantiano segundo o qual ‘intuições sem conceitos são cegas’, enquanto que ‘conceitos sem intuições’ são vazios’. P. 80-81

[...] o ‘atual’ não é (como em Lewis) um subconjunto determinado de vários mundos similares e igualmente ‘reais’ que ocupam todo o espaço da possibilidade lógica, mas um produto de certas operações específicas – envolvendo (digamos) microscópios eletrônicos, rádio, telescópio ou potentes aceleradores de partículas – que envolvem certos aspectos ou constituintes da realidade física que, de outra maneira, permaneceriam inescrutáveis. P. 88-89

3. ‘Fog sobre o canal isolado’: epistemologia das ‘duas tradições’

[...] a epistemologia tem como seu objeto de estudo as intuições, os conceitos ou os pensamentos que ocorrem ‘na mente’ deste ou daquele indivíduo cognoscente. Objeções similares foram posteriormente formuladas por seguidores de Wittgenstein que adotaram a ideia de que qualquer apelo desse tipo deve envolver alguma versão da falácia da ‘linguagem privada’ (ou do acesso epistêmico privilegiado). P. 97-98

[Foucault tratou] todo o conhecimento e, consequentemente, os objetos (em particular os objetos das ciências-da-vida), como construções culturais que teriam seu lugar somente dentro deste ou daquele período específico de ‘discurso’, modelo ou esquema conceitual. P. 102
[...] a filosofia analítica foi deixada com poucos recursos com os quais desafiar o tipo de crítica radical formulada por céticos como Quine ou relativistas como Kuhn. O que faltou aí – em comparação com a tradição pós-hantiana continental – foi uma explicação adequada dos diversos modos da atividade perceptual cognitiva e teórica constitutivos do conhecimento e cuja função foi tão enfaticamente desvalorizada pelos adeptos da filosofia analítica. P. 107

Husserl [...] adotou uma posição completamente oposta a qualquer forma de reação irracionalista ou anti-iluminista. O mesmo pode ser dito dos filósofos da teoria crítica da Escola de Frankfurt (como Jürgen Habermas), que defendem o ‘projeto inacabado da modernidade’ contra seus atuais detratores, examinando os diversos tipos de alegações de verdade – ou as diferentes esferas de validade – que têm sido emitidas através do discurso das ciências físicas, sociais e humanas. Assim, de acordo com Habermas, é vital conservar os impulsos mais importantes, isto é, críticos e progressivos, do pensamento iluminista, derivando, no entanto, aqueles valores emancipadores de uma teoria da ‘ação comunicativa’ baseada na ideia da troca livre e igual entre todas as partes que tenham acesso às fontes relevantes de informação (mais ou menos especializada). P. 109

Essa abordagem abandona o velho paradigma epistemológico centrado no sujeito, mas o faz – decisivamente – sem dar razão às variedades de relativismo cultural que têm frequentemente sido propostas por seguidores de Wittgenstein ou por aqueles que apelam para ‘jogos de linguagem’ ou ‘formas de vida’ como o máximo que nós podemos obter na busca de bases, razões ou princípios de validação. P. 109

Bachelard [...] explora [...] a função heurística da analogia e da metáfora em episódios de mudanças de paradigma científico, ou seja, sua capacidade de produzir insights que não poderiam ter sido produzidos sem um salto criativo-explicativo do pensamento, através do qual foi possível expressar novos conceitos ou hipóteses em uma linguagem mais ou menos familiar. P. 111-112

Bachelard rejeita firmemente qualquer versão da ideia ultracética nietzscheana de que a ‘verdade’ não é nada mais que um pálido resíduo das diversas metáforas, imagens e figuras antropormóficas do pensamento que, em vão, os filósofos se esforçam para dominar e superar através do seu ilusório trabalho conceitual.  P. 112

[...] nós sempre erramos ao julgar uma teoria anterior (presumivelmente falsa ou desacreditada) segundo padrões que são tão-somente aqueles do nosso próprio estágio mais ‘esclarecido’ ou ‘avançado’ de conhecimento. Se essas ideias encontram hoje uma fonte no trabalho de pensadores pós-modernos como Jean-François Lyotard, ou nos dos teóricos hermeneutas influenciados por Heidegger, é porque elas são, na mesma e exata medida, um produto da ‘reviravolta linguística’ wittgensteiniana, ou da doutrina kuhniana do relativismo radical concernente aos paradigmas científicos. P. 115

4. Dependência responsiva: qual o seu interesse para o realista?

A dependência responsiva é uma ideia que deriva principalmente da discussão que Locke elaborou das ‘qualidades secundárias’ tais como cor, gosto e cheiro. Essas se distinguem das ‘qualidades primárias’ – atributos objetivos tais como forma e tamanho [...]. p. 130

[...] os teóricos da [...] DR [...] propuseram sua aplicação a domínios que vão desde a filosofia da lógica, matemática e ciências formais, até a estética, a ética, a sociologia e a teoria política. P. 130

 [...] alegação antifundamentalista de Wittgenstein segundo o qual nenhum padrão de ‘correção’ no procedimento aritmético pode ser somente uma questão de garantia da comunidade ou de aprender o que é ‘correto’ de acordo com um certo modo aceito de realizar tarefas como adição ou subtração. P. 133

5. No interesse da verdade: alguns problemas da epistemologia baseada na virtude

[...] o argumento wittgensteiniano [...] toda a regra que se aplica à conduta do raciocínio correto em matemática, lógica ou a qualquer outro campo de investigação, estará sempre sujeita tanto a um regresso ao infinito (vicioso) quanto à acusação de ser uma circularidade trivial. P. 167

[...] a principal fonte de desacordo concernente às epistemologias da virtude é o que alguns considerariam como o seu compromisso excessivo com uma abordagem baseada na prática (leia-se aristotélica) que deposita sua fé naquelas virtudes epistêmicas que atualmente desfrutam de ampla aceitação, e que, por isso, dente a evitar – ou a desprezar – a possibilidade de submetê-las ao exame crítico. Daí o perigo, sustentam esses críticos, de pender para o tipo de pensamento comunitário influenciado por Wittgenstein, segundo o qual simplesmente não pode fazer sentido questionar ou criticar os valores e as crenças incorporados em alguma prática, jogo de linguagem ou ‘forma de vida’. P. 197

6. Pós-escrito realista científico conclusivo

[...] todo o debate pode ser visto como um conjunto de posições assumidas e relação à questão básica disputada entre realismo e ceticismo concernente à existência de um mundo exterior (objetivo ou independente da mente) que não é somente uma construção elaborada a partir dos nossos múltiplos dados dos sentidos, esquemas conceituais, paradigmas, jogos de linguagem, discursos, formas de vida culturais e assim por diante. P. 205  

[...] está claro que os epistemólogos – inclusive aqueles de convicção realista – têm muito a aprender com as abordagens adotadas por alguns sociólogos do conhecimento e historiadores culturais da ciência. Afinal de contas, esses investigadores produziram alguns estudos de caso altamente informativos concernentes aos detalhes cotidianos da ‘vida no laboratório’, sobre o papel dos fatores ideológicos na origem ou na decisão das disputas científicas, bem como sobre os vários interesses motivadores (políticos, religiosos, profissionais, etc.) que afetam o modo como os cientistas trabalham ou pensam. P. 214

[...] a questão disputada entre Hobbes e Boyle pode ser vista como um ensaio da questão disputada entre, de um lado, os foucaultianos e sociólogos do ‘programa forte’ de hoje e, de outro, os pensadores hábeis, como Jürgen Habermas, que procuram conservar os valores ‘iluministas’ do consenso racional não-coagido. P. 216

[...] podemos sempre pretender assumir uma posição definitiva, como, por exemplo, quando vemos um ‘anarquista epistemológico’ confesso como Paul Feyerabed adotar uma moral tão duvidosa quanto é a sua base científica ao recomendar um atitude de ‘vale tudo’ em termos de verdade científica. P. 221


NORRIS, Christopher. Epistemologia: conceitos-chave em filosofia. São Paulo: Artmed, 2007.

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