Pensar as mídias

by - julho 25, 2013


MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. Pensar as mídias. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

Apresentação
A mídia não é mais aquele quinto poder que a esquerda havia demonizado; ela se tornou o lugar da transparência. O eco midiático torna-se, pelo mesmo motivo, o critério para julgar tanto a eficácia política quanto a precisão de uma ideia ou de um argumento. P. 10

[...] na sociedade civil, nunca o discurso liso e unívoco esteve tanto em crise quanto agora. P. 10

A comunicação ocupa doravante um lugar central nas estratégias que têm por objeto a reestruturação de nossas sociedades. Pelo viés das tecnologias eletrônicas, ela é uma das peças-mestras de reconversão dos grandes países industrualizados. Ela acompanha o redescobrimento dos poderes (e dos contrapoderes) no espaço doméstico, na escola, na fábrica, no escritório, no hospital, no bairro, na região, na nação... Além disso, ela se tornou um elemento-chave da internacionalização das economias e das culturas. P. 12

1. Sobre a dificuldade de pensar a comunicação

Importação/exportação
Na sequência de Louis Althusser, poderíamos mencionar a escola linguística estrutural francesa, com Greimas, Barthes, Metz etc., e, mais perto de nós, as teorias sobre a microfísica do poder de Foucault, as teorias de Deleuze e Guattari e, evidentemente, a abordagem lacaniana. Todas essa teorias participaram amplamente da emergência de novas questões dirigidas à cultura popular, à interação texto-sujeito, aos processos de produção de sentido, à análise dos poderes e contrapoderes. P. 28

[...] o linguísta Michel Pêcheux mostrara a defasagem entre o progresso da influência da linguística estrutural francesa em muitos países estrageiros, entre os especialistas das ciências dos textos [...] e a sua crise in domo. “O paradoxo desse início dos anos 1980”, dizia ele em julho de 1983, “é que o atolamento do estruturalismo político francês, seu desmoronamento na qualidade de ‘ciência real’ [...] coincide com um aumento da recepção dos trabalhos de Lacan, Barthes, Derrida e Foucault no domínio anglo-saxão, tanto na Inglaterra e na Alemanha como nos Estados Unidos. Assim, por um estranho efeito de gangorra, no exato momento em que a América descobre o estruturalismo, a intelectualidade francesa ‘vira a página’, desenvolvendo um ressentimento maciço em relação às teorias, suspeitas de terem pretendido falar em nome das massas, produzindo ao mesmo tempo uma longa série de atitudes simbólicas e ineficazes e de performativos políticos infelizes”. P. 28

Na França foi permitido ignorar uma escola tão irradiante como a escola de Birmingham, conduzida por Stuart Hall, que inovou consideravelmente em matéria de estudo das culturas populares depois de se ter alimentado de Althusser e de Barthes. Aliás, foi permitido traduzir apenas parcialmente e muito mais tarde do que a maioria dos outros países as obras da escola de Frankfurt. O conceito de ‘indústria cultural’ teve de transitar por uma obra de Edgar Morin para que Adorno e Horkheimer, que criaram o conceito, se fizessem conhecer entre nós. P. 29

Os limites do nacional
O que, para Althusser, constitui a unidade do corpo aparentemente discordante dos aparelhos ideológicos de Estado é o próprio funcionamento. Assim, o Estado seria quase tudo, uma vez que não há nada que esteja mais ou menos impregnado pela ideologia dominante. P. 31

[...] outro ponto de marcante da pesquisa sobre a comunicação na França é justamente a falta de questionamento sobre o processo de internacionalização. P. 32 

Apenas na segunda metade dos anos 1970 começam a aparecer na França pesquisas – que continuam a ser minoria – sobre a internacionalização dos sistemas de comunicação. P. 33

Os limites da centralidade
Há algum tempo, certas abordagens geográficas francesas destacaram, bem antes da pesquisa sobre a comunicação, a pertinência do objeto local. Com o impulso da descentralização e do projeto de implantação das redes locais, essas contribuições adquirem hoje um relevo particular. É o ponto de vista notadamente de um geógrafo como Armand Frémont: “A comunicação ocupa hoje um local importante nas reflexões da geografia confrontada com uma análise da transformação do espaço e da maneira pela qual as coletividades o constroem e se apropriam dele”. P. 34

Uma área, particularmente, anuncia-se promissora: a das relações entre cultura científica e cultura popular. “Longe de querer identificar uma cultura ou uma religião populares ‘puras’ que seriam de alguma maneira ‘originais’ e livres das escórnias que o tempo nelas despejou, os historiadores, ao contrário, se esforçaram para delimitar os locais estratégicos de encontro em que se operam trocas, empréstimos mas também conflitos e resistências”. Em outro registro, os trabalhos desenvolvidos pelos historiadores sobre a produção e a circulação do livro, bem como sobre as práticas de leitura, oferecem pistas de reflexão sobre a passagem de uma alfabetização restrita a uma alfabetização generalizada, de uma cultura oral a uma cultura maciçamente escrita. P. 36

Os criadores do conceito “sociedade do consumo”, fundindo todas as massas nesse cadinho, ao longo do período de crescimento dos golden sixties, fizeram dessa “maioria silenciosa” (outro nome da classe média) uma componente inerte da sociedade moderna, uma espécie de denominador comum apático que não tinha outra identidade a não ser aquela de representar “a média” das aspirações, dos poderes de compra: em suma, o perfil estatístico do cidadão consumidor. P. 36-37

[...] a sociologia crítica adquiriu o hábito de ver o local em que a “indústria do abestamento” moldava melhor as mentalidades. P. 37           

O esquecimento da economia
Desde a segunda metade dos anos 1970 nascia, todavia, a ideia da importância de uma pesquisa econômica. Era reconhecida por um punhado de pesquisadores a urgência de re-situar a evolução das práticas culturais no contexto industrial e comercial da produção cultural de massa. Foi assim que o centro de sociologia da educação e da cultura, sob a direção de Pierre Bourdieu, desejava “vivamente atrair economistas para essa nova economia dos bens simbólicos”. P. 39

[Pierre Bourdieu] [...] será acusado de ter parodiado a sua linguagem com o intuito de superar o economismo das abordagens da teoria econômica. P. 39

Os locais de inspiração teórica e de tradição política que alimentam esse eixo de pesquisas são muito diferentes daqueles em que se alimenta o estudo supracitado sobre as indústrias culturais. Ao passo que em seu início o pólo “indústrias culturais” é coisa de economistas e dos sociólogos críticos que se debruçam sobre as políticas de animação e de democratização culturais e sobre sua dependência crescente do circuito da mercadoria, pólo “rede” se liga mais a preocupações de planificação industrial: ele abre a pesquisa para os sistemas de comunicação de grandes corpos técnicos e administrativos de Estado. P. 40

[...] a análise e a teoria dos sistemas começam a tomar corpo em meio a muitas contradições, no campo renovado dos estudos operacionais sobre a comunicação. P. 40

Contradições que se podem desvelar desde abril de 1977, durante um colóquio organizado pelo Centro Nacional de Estudos em Telecomunicações, que assinala a entrada das ciências sociais no âmbito das telecomunicações. Pela primeira vez, se farpa referência à articulação entre inovação técnica e mudança social. P. 41

Legitimando uma visão marcada pelos determinismo da inovação tecnológica, as propostas sobre a “sociedade convivial” de amanhã evitarão colocar o problema das defasagens entre as lógicas técnicas e as lógicas sociais, entre as lógicas de inovação e as lógicas simbólicas e culturais. Essa é a crítica que farão Dominique Wolton e Jean-Louis Missika na longa conclusão que eles redigiram [...]. p. 41
[Brams] “as ciências sociais são consideradas como auxiliares que contribuem para melhorar, para enriquecer as atividades modelizantes de um certo número de engenheiros-pesquisadores, para introduzir em modelos matemáticos de microeconomia, de econometria, uma dimensão sociológica qualquer, que torne o modelo mais complexo e tente fazê-lo funcionar”. P. 41

A questão das novas tecnologias começaram a revelar como, naquilo que correspondia também a uma fase de modernização do Estado, se buscavam hegemonias no próprio interior do aparelho estatal. P. 43

2. A busca da transdisciplinariedade
Embora, nas questões dirigidas à comunicação, tenhamos tido a tendência de neglicenciar, na França, o econômico, em contrapartida as problemáticas da língua e do discurso se beneficiaram de uma legitimidade indubitável. O projeto semiológico de Roland Barthes está aí para dar prova disso. P. 45

O projeto barthesiano é um dos três grandes eixos do projeto que visa construir uma abordagem francesa das comunicações de massa em uma perspectiva resolutamente transdisciplinar. P. 46

As pesquisas de Edgar Morin se situavam sob o signo daquilo que ele chamava então por nealogismo, a “sociologia do presente”: “o termo sociologia do presente não designa uma doutrina e não circunscreve um campo. Ele reúne, antes, um certo número de preocupações. Em que medida o acontecimento presente não é apenas dado histórico, mas revelador sociológico? P. 47

Rumo à cibernética    
As ausências da história e da economia influenciam particularmente a indefinição dos “emissores”. Essa imprecisão tem como resultado prático promover uma concepção de um poder midiático perfeitamente unificado e monolítico, onde a ação dos diversos componentes da sociedade civil não se exerce. P. 50
[...] a história foi a grande ausente quando a pesquisa estrutural negligenciou as questões sobre a natureza dos emissores (enunciadores) e o papel dos receptores (enunciatários), isolando os conteúdos em corpus fechados, as “mensagens”. P. 50

Em 1965 [...] o sociólogo Lucien Goldmann lançou uma questão provocante: o lugar do receptor na definição da informação. “A informação é a transmissão de um certo número de mensagens, de afirmações verdadeiras ou falsas a um indivíduo que as recebe, as deforma, as aceita ou as recusa, ou ainda permanece completamente surdo ou refratário a qualquer recepção”. P. 51

A análise estrutural quase não outorgava um lugar ao sujeito na produção do sentido. Tanto mais na medida em que os poucos estudos que abordavam o papel do emissor lhe devolviam uma imagem idêntica do receptor, colocando-se de acordo sobre a natureza passiva deste último, e pensavam exclusivamente o dispositivo de emissão como máquina reprodutiva do sistema de dominação social. P. 51-52

[...] esses sujeitos só poderiam estar submissos à racionalidade imperativa da estrutura. Poderiam eles fazer outra coisa a não ser obedecer em sua leitura ou sua visão das mensagens ao esquema estímulo-resposta? P. 52        

Em 1971 [...] aparecem as “ciências da vida” que são amplamente chamadas para acudir e se tornar o núcleo duro em torno da qual Edgar Morin pensa reconceber a transdisciplinariedade. P. 52           

3. A tentação metafórica
As metáforas oriundas das ciências biológicas se reinvestem no pensamento social e político. A área da comunicação está mais do que nunca exposta a essas transferências. P. 58

Por comunicação, esses discursos entendem com frequência uma função de regulação no interior de um sistema ou de um organismo. A noção de sistema, comum à biologia e à informática, permite então passar por cima das diferenças de natureza que poderiam existir entre o organismo vivo dos biólogos e a sociedade dos antropólogos e dos sociólogos. P. 58-59

Do progresso à comunicação
Hoje a comunicação, na qualidade de herdeira do progresso, não é mais apenas usada por um discurso publicitário. Ela está cada vez mais no próprio centro do discurso científico. P. 60

[Jacob] “Com a escrita, a comunicação pode se libertar do tempo e a experiência passada de cada indivíduo pode ser acumular em uma memória coletiva. Com a eletrônica, com os meios de conservar a imagem e som, de transmiti-los no mesmo estado a qualquer ponto do planeta, toda a restrição de tempo e de espaço desapareceu”. P. 62

Uma ciência carente de epistemologia
Há também e sobretudo esquecimento do local de produção intelectual. Recusa de uma verdadeira episteologia. P. 64

Constatando a proliferação do que ele [o matemático René Thom] chama de “obras de epistemologia popular” [...] – entre as quais ele engloba aliás, Henri Atlan (Entre o cristal e a fumaça), Jacques Monod (o acaso e a necessidade), Edgar Morin (o método), todas obras fortemente ligadas à expansão do esquema cibernético – escreve: “uma questão se coloca no plano sociológico: de onde vem a floração desse gênero relativamente novo, que cultiva de maneira tão ostensiva a aproximação e o “flow artístico”? Por que, na França, a raça dos verdadeiros epistemólogos, a dos Poincaré, dos Duhem, dos Meyerson, Cavaillès, Koyré parece extinta? Por que a filosofia cienífica francesa não produziu – a exemplo da anglo-saxã – um Popper, ou, mais recentemente, um Kuhn? Seria o caráter fundamentalmente subjetivista e acientífico de uma tradição universitária oriunda de Husserl e Heidegger? Aqui, evidentemente, pensamos em um responsável; seria Bachelar, com um largo sorriso, quem estaria na origem desse desvio literário da epistemologia?  P. 64-65

II- Novos paradigmas

Acreditáramos ter certezas. O estruturalismo havia sido uma delas. Com ele, pensávamos possuir um método unitário, válido para todas as ciências, incluindo as ciências humanas. Na busca de cientificidade que marca estas últimas desde sua origem, uma etapa importante não terá sido a etapa estruturalista? Apesar das fortes resistências opostas pela história e pela sociologia, a linguística estrutural instalou-se como ciência real, “a ciência das ciências”. Assistiu-se à generalização, por parte da abordagem estrutural, do conceito que se tornou central de sistema de comunicação. Conceito unificador por excelência segundo Lévi-Strauss, a comunicação servirá para explicar as regras do parentesco, da linguagem e dos intercâmbios econômicos. P. 70

Na apoteose estruturalista, ainda que todos invaquem à saciedade o sistema de comunicação, foi o processo de comunicação que menos foi estudado. P. 71

4- a teoria da informação
Em seu livro Teoria matemática da comunicação, Claude Shannon propõe, em 1949, um esquema do “sistema geral de comunicação”. Shannon estabelecia o quadro matemático no interior do qual era possível colocar os problemas concernetes ao custo de uma mensagem, ao custo de uma comunicação entre um emissor, “a fonte”, e um receptor, na presença de perturbações aleatórias, chamada “ruído”. Se nos aplicarmos a tornar tão mínima quanto possível a despesa total, transmitiremos, por meio de signos convencionados, os menos custosos. P. 73

[...] só se fala para informar, para transmitir uma mensagem. É o que expressava Jacques Derrida em outubro de 1984: “A função de comunicação não esgota a essência da linguagem. Naturalmente, a linguagem comunica, transmite, transporta sentido, mensagens, conteúdos. Mas os efeitos produzidos por um ato de linguagem ou de escrita não se reduzem necessariamente ao transporte de uma informação ou de um saber...[...]” p. 78


5- A pós-lineariedade

A mecânica e o fluido
Tentando das conta da evolução das grandes sociedades industriais, o conceito de sociedade pós-industrial veio oferecer um quadro orgânico para compreender as modificações dos modos de pensamento. Como acontece muitas vezes com conceitos consagrados sem benefício de inventário, a “sociedade pós-industrial” apareceu como um todo liso, homogêneo, realizando a fusão das famílias ideológicas historicamente disjuntas, repartindo os modos de apreensão do mundo segundo a clivagem arcaísmo/modernidade. P. 80

6- O poder negociado

Propondo sua hipótese sobre a microfísica do poder, Michel Foucault fazia avançar o debate, desestabilizando à sua maneira a clivagem heróis positivos/heróis negativos, desencravando-os de seus pólos tradicionais. Afirmando que o poder não é “privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas, é também a posição do “dominado” nesse sistema de poder que ele questionava: “Esse poder não se aplica, pura e simplesmente, como uma obrigação ou como uma proibição, aos que ‘não o têm’, ele os investe, passa por eles e através deles; apóia-se neles, assim como eles mesmos, em sua luta contra ele,apóiam-se por sua vez nas influências que ele exerce sobre eles”. P. 94

[Naïr] “com Sartre há história demais, com Lévi-Strauss, Foucault, Althusser e Lacan não há mais história”. P. 95

7- O retorno do sujeito

A reabilitação do sujeito
A necessidade de identificar o outro tende a ser reconhecida como um problema decisivo. P. 103
Na abordagem estrutural, o desejo de acabar com a obsessão das ciências psicológicas em relação a um sujeito isolado de qualquer estrutura ou de qualquer dispositivo social havia se traduzido em um afastamento do sujeito. P. 104

À noção de comunicação isolada como ato verbal, consciente e voluntário, opõe-se à ideia da comunicação como processo social permanente integrante de múltiplos modos de comportamento: a palavra, o gesto, o olhar, o espaço interindividual. É assim, por exemplo, que Birdwhistell e Hall introduzirão, no campo tradicional da comunicação, a gestualidade (cinésica) e o espaço interpessoal (proxêmica), ao passo que o sociólogo Goffman se dedicará a mostrar como os acidentes ou as dificuldades do comportamento humano revelam a trama do meio social. P. 106

Estamos evidentemente longe dos tempos em que a noção de interação teria podido assumir uma conotação de participação crítica em um projeto de sociedade. Volta-se, na realidade, ao sentido original do conceito tal como foi moldado pelas teorias cibernéticas para as quais os intercâmbios participam do mecanismo de auto-regulação do sistema. P. 109

Quem poderia negar com efeito que a socialização das novas tecnologias em países como a França busca seu caminho entre dois pólos: de um lado, o caminho do marketing e da demanda solvável, da atitude promocional do material; de outro, o caminho da comunicação-emancipação que prolonga a tradição do militantismo sociocultural do qual subsistem traços nas noções de “demanda social”, de “apropriações” e de “participação nas escolhas tecnológicas”? Daí a necessidade de analisar a maneira pela qual o imaginário herdado de um período recente de conquistas e de lutas sociais se reinveste no imaginário que preside à formação dos usos sociais das novas tecnologias. P. 110

8- Os procedimentos de consumo

O funcionalismo do pior    
Durante muito tempo, com efeito, as escolas críticas, tanto a escola de Frankfurt como as correntes que se referem a Althusser, aceitaram a título de postulado implícito o mito da onipotência da mídia. P. 112

Esse viés havia sido bem compreendido desde o início dos anos 1960 por Bourdieu e Passeron. Eles serão, na época, os únicos a recusar o “funcionalismo do pior”, as intenções maquiavélicas desse novo Leviatã que seriam as mídias tecnológicas. P. 112

“Se a mass-midiologia não realiza as ambições que proclama”, escreviam então Bourdieu e Passeron em 1963, “ela atinge pelo menos o fim inconfesso que todas as suas atitudes traem, a saber, esquivar as questões terra-a-terra que questionam sua existência. Cada meio de comunicação não segmenta no interior da ‘massa’ conjuntos que são os tantos públicos de um momento? ... Por que, por exemplo, conceder (anteriormente a qualquer existência) ao falso face-a-face da televisão um poder de persuasão a nada comparável, procurando ignorar a eficácia demasiado conhecida da presença em carne e osso? [...] Há mil maneiras de ler, de ver e de escutar. Por que querer determinar ‘a influência’ das mass media pela medida, estranhamente burocrática, da quantidade de informação emitida ou pela análise da ‘estrutura’ da mensagem [...]? Seria preciso lembrar que a significação não existe como tal na coisa lida, mas que ela tem, aqui como alhures, a modalidade da consciência intencional que a constitui? A leitura superficial talvez traga em si mesma a própria defesa e a escuta distraída transforma o discurso do locutor em simples ruído, que pode, a partir de então, ser medido em decibéis. E por que ignorar as proteções das quais se armam as massas contra a precipitação mass-midiática?”. P. 112-113

O essencial da questão era esse: os usos sociais da mídia não reproduzem forçosamente as lógicas destacadas pela análise das estruturas dessa mídia. E mesmo o que é pretensiosamente concebido para isso não tem forçosamente o efeito previsto. Toda hipótese que não aceita o princípio dessa descontinuidade inscreve-se antes na ficção científica do que em uma análise séria do real da mídia. P. 113

Na América Latina [...] estudos pioneiros desde o início dos anos 1970 consideram os públicos receptores como produtores de sentido, analisando, por exemplo, os usos desvirtuados das novelas no interior de diversos grupos das classes populares chilenas. P. 113

Compreende-se que, nesse contexto dominado pela tendência estruturalista de isolar emissores e mensagens, supondo à mídia um poder tão potente quanto misterioso, as análises de Jean Baudrillard haviam sido um sobressalto salutar. Enfatizando a não reciprocidade no interior do processo de “comunicação”, não possuía ele o mérito de refutar a ideia da comunicação como intercâmbio sempre realizado? Essa ideia estremecia o postulado de toda mass-midiologia pouco preocupada com o detalhe: existe comunicação e, onde ela não existe, encontra-se o “ruído”. Baudrillard inverte as coisas: pelo fato da não-reciprocidade, pelo fato da ruptura de intercâmbio, a mídia vive no tempo da incomunicação e só produz a comunicação como o simulacro de si mesma. Essa hipótese parece certamente mais fecunda que a primeira, que acredita na comunicação dada a priori, pelo menos ela torna seu objeto profundamente ambíguo. Mas ela comete o erro de interpretar o fracasso da injunção midiática por meio de uma espécie de autodiluição do sentido sob o efeito de a ação dos “dominados”. P. 114

Goethe [...]. Ele igualmente compreendera “que com as mesmas palavras ninguém pensa o que pensa o seu semelhante, que uma conversa, uma leitura desperta, em indivíduos diferentes encadeamentos diferentes de ideias”. P. 115

O que durante muito tempo a sociologia da mídia moderna ignorou é o que os historiadores do livro e da alfabetização, bem como os historiadores das mentalidades, haviam pacientemente recolhido sobre as resistências das subculturas operárias e camponesas na primeira onda da “normalização” cultural, a saber: a entrada da escrita na tradição oral e do impresso na tradição do manuscrito. É o que o americano Jack Goody chama “a domesticação do pensamento selvagem”. P. 116

Enquanto a sociologia da mídia seguiu a tendência muito clara de globalizar a paisagem dos novos meios técnicos e de apreender sob um aspecto uniforme o ambiente midiático, os historiadores do livro puderam discernir as complementariedades, os níveis de rivalidade, as influências recíprocas da escrita sobre o oral e do oral sobre a escrita, do texto reservado às elites sobre o conto popular. Eles puderam, notadamente, apreciar como o texto escritural era compreendido em função da riqueza maior ou menor da tradição oral de seu leitor. P. 116

Em contrapartida, a teoria que prevaleceu tanto na esquerda quanto na direita para explicar o funcionamento dos meios modernos de difusão de massa mimetizou-se no esteriótipo de “massa”, que se conjugou com o de “sociedade de massa”. Onde os historiadores das culturas populares viam diferenças, conflitos e resistências, os teóricos da “sociedade de massa” viam um conjunto atomizado, amorfo, incapaz de contra-atacar. P. 116

[...] a postura teórica sobre a ação massificante dos meios de difusão de massa [...] via “a sociedade moderna” como o resultado do desaparecimento geral dos elementos de diferenciação que caracterizam as sociedades do passado e o resultado, paralelamente, da perda do sentido do sagrado: a tecnologia, a abundância econômica, a igualdade política haviam suscitado uma sociedade homogênea. Antes da “sociedade moderna”, tínhamos as comunidades, o povo-popular. Agora, a maioria se identificava com a massa, e o homem com o homem-massa. P. 116-117.
        
É precisamente mérito de Michel de Certeau considerar também a cultura popular uma cultura do presente. Ele vai, assim, ao encontro do desejo de antropólogos que querem reagir contra o confinamento das culturas populares e étnicas nas noções passadistas do “paraíso perdido” das culturas originais em face da “homogeneização” presente. P. 117

Passivo/ativo
Durante muito tempo, à imagem de um consumidor passivo em face de uma mídia ativa correspondeu a ideia da oposição fetichista entre uma mídia “passiva” e uma mídia “ativa”, opondo o triste passado a um futuro promissor. P. 118

A profissionalidade dese ser considerada um campo de inovação para as práticas de intervenção social. Foi o que começaram a entender certos setores do mundo associativo e do movimento operário, quando constatam que é tempo de sair “de uma imagem do social, morosa e entediante”, e que aí se encontra o desafio de sua própria “identidade cultural”. É então que os novos paradigmas ajudam a responder a esta questão: Que imagens? A busca de novas formas e de novos conteúdos é com efeito inseparável das novas tendências que emergem: busca do indivíduo por trás da massa, direito ao sensível, à ficção, ao imaginário. P. 122


III- a redefinição de uma relação: intelectuais/cultura midiática

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