Pensar as mÃdias
by
Tauana Jeffman
- julho 25, 2013
MATTELART, Armand;
MATTELART, Michèle. Pensar as mÃdias.
São Paulo: Edições Loyola, 2004.
Apresentação
A mÃdia não é mais
aquele quinto poder que a esquerda havia demonizado; ela se tornou o lugar da
transparência. O eco midiático torna-se, pelo mesmo motivo, o critério para
julgar tanto a eficácia polÃtica quanto a precisão de uma ideia ou de um
argumento. P. 10
[...] na sociedade
civil, nunca o discurso liso e unÃvoco esteve tanto em crise quanto agora. P.
10
A comunicação ocupa
doravante um lugar central nas estratégias que têm por objeto a reestruturação
de nossas sociedades. Pelo viés das tecnologias eletrônicas, ela é uma das
peças-mestras de reconversão dos grandes paÃses industrualizados. Ela acompanha
o redescobrimento dos poderes (e dos contrapoderes) no espaço doméstico, na
escola, na fábrica, no escritório, no hospital, no bairro, na região, na nação...
Além disso, ela se tornou um elemento-chave da internacionalização das
economias e das culturas. P. 12
1. Sobre a dificuldade de pensar a comunicação
Importação/exportação
Na sequência de Louis
Althusser, poderÃamos mencionar a escola linguÃstica estrutural francesa, com
Greimas, Barthes, Metz etc., e, mais perto de nós, as teorias sobre a
microfÃsica do poder de Foucault, as teorias de Deleuze e Guattari e,
evidentemente, a abordagem lacaniana. Todas essa teorias participaram
amplamente da emergência de novas questões dirigidas à cultura popular, Ã
interação texto-sujeito, aos processos de produção de sentido, à análise dos
poderes e contrapoderes. P. 28
[...] o linguÃsta Michel
Pêcheux mostrara a defasagem entre o progresso da influência da linguÃstica
estrutural francesa em muitos paÃses estrageiros, entre os especialistas das
ciências dos textos [...] e a sua crise in
domo. “O paradoxo desse inÃcio dos anos 1980”, dizia ele em julho de 1983,
“é que o atolamento do estruturalismo polÃtico francês, seu desmoronamento na
qualidade de ‘ciência real’ [...] coincide com um aumento da recepção dos
trabalhos de Lacan, Barthes, Derrida e Foucault no domÃnio anglo-saxão, tanto
na Inglaterra e na Alemanha como nos Estados Unidos. Assim, por um estranho efeito
de gangorra, no exato momento em que a América descobre o estruturalismo, a
intelectualidade francesa ‘vira a página’, desenvolvendo um ressentimento
maciço em relação às teorias, suspeitas de terem pretendido falar em nome das
massas, produzindo ao mesmo tempo uma longa série de atitudes simbólicas e
ineficazes e de performativos polÃticos infelizes”. P. 28
Na França foi permitido
ignorar uma escola tão irradiante como a escola de Birmingham, conduzida por
Stuart Hall, que inovou consideravelmente em matéria de estudo das culturas
populares depois de se ter alimentado de Althusser e de Barthes. Aliás, foi
permitido traduzir apenas parcialmente e muito mais tarde do que a maioria dos
outros paÃses as obras da escola de Frankfurt. O conceito de ‘indústria
cultural’ teve de transitar por uma obra de Edgar Morin para que Adorno e
Horkheimer, que criaram o conceito, se fizessem conhecer entre nós. P. 29
Os limites do nacional
O que, para Althusser,
constitui a unidade do corpo aparentemente discordante dos aparelhos
ideológicos de Estado é o próprio funcionamento. Assim, o Estado seria quase
tudo, uma vez que não há nada que esteja mais ou menos impregnado pela
ideologia dominante. P. 31
[...] outro ponto de
marcante da pesquisa sobre a comunicação na França é justamente a falta de
questionamento sobre o processo de internacionalização. P. 32
Apenas na segunda metade
dos anos 1970 começam a aparecer na França pesquisas – que continuam a ser
minoria – sobre a internacionalização dos sistemas de comunicação. P. 33
Os limites da centralidade
Há algum tempo, certas
abordagens geográficas francesas destacaram, bem antes da pesquisa sobre a
comunicação, a pertinência do objeto local. Com o impulso da descentralização e
do projeto de implantação das redes locais, essas contribuições adquirem hoje
um relevo particular. É o ponto de vista notadamente de um geógrafo como Armand
Frémont: “A comunicação ocupa hoje um local importante nas reflexões da
geografia confrontada com uma análise da transformação do espaço e da maneira
pela qual as coletividades o constroem e se apropriam dele”. P. 34
Uma área,
particularmente, anuncia-se promissora: a das relações entre cultura cientÃfica
e cultura popular. “Longe de querer identificar uma cultura ou uma religião
populares ‘puras’ que seriam de alguma maneira ‘originais’ e livres das
escórnias que o tempo nelas despejou, os historiadores, ao contrário, se
esforçaram para delimitar os locais estratégicos de encontro em que se operam
trocas, empréstimos mas também conflitos e resistências”. Em outro registro, os
trabalhos desenvolvidos pelos historiadores sobre a produção e a circulação do
livro, bem como sobre as práticas de leitura, oferecem pistas de reflexão sobre
a passagem de uma alfabetização restrita a uma alfabetização generalizada, de
uma cultura oral a uma cultura maciçamente escrita. P. 36
Os criadores do conceito
“sociedade do consumo”, fundindo todas as massas nesse cadinho, ao longo do
perÃodo de crescimento dos golden
sixties, fizeram dessa “maioria silenciosa” (outro nome da classe média)
uma componente inerte da sociedade moderna, uma espécie de denominador comum
apático que não tinha outra identidade a não ser aquela de representar “a
média” das aspirações, dos poderes de compra: em suma, o perfil estatÃstico do
cidadão consumidor. P. 36-37
[...] a sociologia
crÃtica adquiriu o hábito de ver o local em que a “indústria do abestamento”
moldava melhor as mentalidades. P. 37
O esquecimento da
economia
Desde a segunda metade
dos anos 1970 nascia, todavia, a ideia da importância de uma pesquisa
econômica. Era reconhecida por um punhado de pesquisadores a urgência de
re-situar a evolução das práticas culturais no contexto industrial e comercial
da produção cultural de massa. Foi assim que o centro de sociologia da educação
e da cultura, sob a direção de Pierre Bourdieu, desejava “vivamente atrair
economistas para essa nova economia dos bens simbólicos”. P. 39
[Pierre Bourdieu] [...]
será acusado de ter parodiado a sua linguagem com o intuito de superar o economismo
das abordagens da teoria econômica. P. 39
Os locais de inspiração
teórica e de tradição polÃtica que alimentam esse eixo de pesquisas são muito
diferentes daqueles em que se alimenta o estudo supracitado sobre as indústrias
culturais. Ao passo que em seu inÃcio o pólo “indústrias culturais” é coisa de
economistas e dos sociólogos crÃticos que se debruçam sobre as polÃticas de
animação e de democratização culturais e sobre sua dependência crescente do
circuito da mercadoria, pólo “rede” se liga mais a preocupações de planificação
industrial: ele abre a pesquisa para os sistemas de comunicação de grandes
corpos técnicos e administrativos de Estado. P. 40
[...] a análise e a
teoria dos sistemas começam a tomar corpo em meio a muitas contradições, no
campo renovado dos estudos operacionais sobre a comunicação. P. 40
Contradições que se
podem desvelar desde abril de 1977, durante um colóquio organizado pelo Centro
Nacional de Estudos em Telecomunicações, que assinala a entrada das ciências
sociais no âmbito das telecomunicações. Pela primeira vez, se farpa referência
à articulação entre inovação técnica e mudança social. P. 41
Legitimando uma visão
marcada pelos determinismo da inovação tecnológica, as propostas sobre a
“sociedade convivial” de amanhã evitarão colocar o problema das defasagens
entre as lógicas técnicas e as lógicas sociais, entre as lógicas de inovação e
as lógicas simbólicas e culturais. Essa é a crÃtica que farão Dominique Wolton
e Jean-Louis Missika na longa conclusão que eles redigiram [...]. p. 41
[Brams] “as ciências
sociais são consideradas como auxiliares que contribuem para melhorar, para
enriquecer as atividades modelizantes de um certo número de
engenheiros-pesquisadores, para introduzir em modelos matemáticos de
microeconomia, de econometria, uma dimensão sociológica qualquer, que torne o
modelo mais complexo e tente fazê-lo funcionar”. P. 41
A questão das novas
tecnologias começaram a revelar como, naquilo que correspondia também a uma
fase de modernização do Estado, se buscavam hegemonias no próprio interior do
aparelho estatal. P. 43
2. A busca da transdisciplinariedade
Embora, nas questões
dirigidas à comunicação, tenhamos tido a tendência de neglicenciar, na França,
o econômico, em contrapartida as problemáticas da lÃngua e do discurso se
beneficiaram de uma legitimidade indubitável. O projeto semiológico de Roland
Barthes está aà para dar prova disso. P. 45
O projeto barthesiano é
um dos três grandes eixos do projeto que visa construir uma abordagem francesa
das comunicações de massa em uma perspectiva resolutamente transdisciplinar. P.
46
As pesquisas de Edgar
Morin se situavam sob o signo daquilo que ele chamava então por nealogismo, a
“sociologia do presente”: “o termo sociologia do presente não designa uma
doutrina e não circunscreve um campo. Ele reúne, antes, um certo número de
preocupações. Em que medida o acontecimento presente não é apenas dado
histórico, mas revelador sociológico? P. 47
Rumo à cibernética
As ausências da história
e da economia influenciam particularmente a indefinição dos “emissores”. Essa
imprecisão tem como resultado prático promover uma concepção de um poder
midiático perfeitamente unificado e monolÃtico, onde a ação dos diversos
componentes da sociedade civil não se exerce. P. 50
[...] a história foi a
grande ausente quando a pesquisa estrutural negligenciou as questões sobre a
natureza dos emissores (enunciadores) e o papel dos receptores (enunciatários),
isolando os conteúdos em corpus fechados, as “mensagens”. P. 50
Em 1965 [...] o
sociólogo Lucien Goldmann lançou uma questão provocante: o lugar do receptor na
definição da informação. “A informação é a transmissão de um certo número de
mensagens, de afirmações verdadeiras ou falsas a um indivÃduo que as recebe, as
deforma, as aceita ou as recusa, ou ainda permanece completamente surdo ou
refratário a qualquer recepção”. P. 51
A análise estrutural
quase não outorgava um lugar ao sujeito na produção do sentido. Tanto mais na
medida em que os poucos estudos que abordavam o papel do emissor lhe devolviam
uma imagem idêntica do receptor, colocando-se de acordo sobre a natureza
passiva deste último, e pensavam exclusivamente o dispositivo de emissão como
máquina reprodutiva do sistema de dominação social. P. 51-52
[...] esses sujeitos só
poderiam estar submissos à racionalidade imperativa da estrutura. Poderiam eles
fazer outra coisa a não ser obedecer em sua leitura ou sua visão das mensagens
ao esquema estÃmulo-resposta? P. 52
Em 1971 [...] aparecem
as “ciências da vida” que são amplamente chamadas para acudir e se tornar o núcleo
duro em torno da qual Edgar Morin pensa reconceber a transdisciplinariedade. P.
52
3. A tentação metafórica
As metáforas oriundas
das ciências biológicas se reinvestem no pensamento social e polÃtico. A área
da comunicação está mais do que nunca exposta a essas transferências. P. 58
Por comunicação, esses
discursos entendem com frequência uma função de regulação no interior de um
sistema ou de um organismo. A noção de sistema, comum à biologia e Ã
informática, permite então passar por cima das diferenças de natureza que
poderiam existir entre o organismo vivo dos biólogos e a sociedade dos
antropólogos e dos sociólogos. P. 58-59
Do progresso Ã
comunicação
Hoje a comunicação, na
qualidade de herdeira do progresso, não é mais apenas usada por um discurso
publicitário. Ela está cada vez mais no próprio centro do discurso cientÃfico.
P. 60
[Jacob] “Com a escrita,
a comunicação pode se libertar do tempo e a experiência passada de cada
indivÃduo pode ser acumular em uma memória coletiva. Com a eletrônica, com os
meios de conservar a imagem e som, de transmiti-los no mesmo estado a qualquer
ponto do planeta, toda a restrição de tempo e de espaço desapareceu”. P. 62
Uma ciência carente de
epistemologia
Há também e sobretudo
esquecimento do local de produção intelectual. Recusa de uma verdadeira
episteologia. P. 64
Constatando a
proliferação do que ele [o matemático René Thom] chama de “obras de
epistemologia popular” [...] – entre as quais ele engloba aliás, Henri Atlan
(Entre o cristal e a fumaça), Jacques Monod (o acaso e a necessidade), Edgar
Morin (o método), todas obras fortemente ligadas à expansão do esquema
cibernético – escreve: “uma questão se coloca no plano sociológico: de onde vem
a floração desse gênero relativamente novo, que cultiva de maneira tão
ostensiva a aproximação e o “flow artÃstico”?
Por que, na França, a raça dos verdadeiros epistemólogos, a dos Poincaré, dos
Duhem, dos Meyerson, Cavaillès, Koyré parece extinta? Por que a filosofia
cienÃfica francesa não produziu – a exemplo da anglo-saxã – um Popper, ou, mais
recentemente, um Kuhn? Seria o caráter fundamentalmente subjetivista e
acientÃfico de uma tradição universitária oriunda de Husserl e Heidegger? Aqui,
evidentemente, pensamos em um responsável; seria Bachelar, com um largo
sorriso, quem estaria na origem desse desvio literário da epistemologia? P. 64-65
II- Novos paradigmas
Acreditáramos ter certezas.
O estruturalismo havia sido uma delas. Com ele, pensávamos possuir um método
unitário, válido para todas as ciências, incluindo as ciências humanas. Na
busca de cientificidade que marca estas últimas desde sua origem, uma etapa
importante não terá sido a etapa estruturalista? Apesar das fortes resistências
opostas pela história e pela sociologia, a linguÃstica estrutural instalou-se
como ciência real, “a ciência das ciências”. Assistiu-se à generalização, por
parte da abordagem estrutural, do conceito que se tornou central de sistema de
comunicação. Conceito unificador por excelência segundo Lévi-Strauss, a
comunicação servirá para explicar as regras do parentesco, da linguagem e dos
intercâmbios econômicos. P. 70
Na apoteose
estruturalista, ainda que todos invaquem à saciedade o sistema de comunicação,
foi o processo de comunicação que menos foi estudado. P. 71
4- a teoria da
informação
Em seu livro Teoria matemática da comunicação, Claude
Shannon propõe, em 1949, um esquema do “sistema geral de comunicação”. Shannon
estabelecia o quadro matemático no interior do qual era possÃvel colocar os
problemas concernetes ao custo de uma mensagem, ao custo de uma comunicação
entre um emissor, “a fonte”, e um receptor, na presença de perturbações
aleatórias, chamada “ruÃdo”. Se nos aplicarmos a tornar tão mÃnima quanto
possÃvel a despesa total, transmitiremos, por meio de signos convencionados, os
menos custosos. P. 73
[...] só se fala para
informar, para transmitir uma mensagem. É o que expressava Jacques Derrida em
outubro de 1984: “A função de comunicação não esgota a essência da linguagem.
Naturalmente, a linguagem comunica, transmite, transporta sentido, mensagens,
conteúdos. Mas os efeitos produzidos por um ato de linguagem ou de escrita não
se reduzem necessariamente ao transporte de uma informação ou de um
saber...[...]” p. 78
5- A pós-lineariedade
A mecânica e o fluido
Tentando das conta da
evolução das grandes sociedades industriais, o conceito de sociedade
pós-industrial veio oferecer um quadro orgânico para compreender as
modificações dos modos de pensamento. Como acontece muitas vezes com conceitos
consagrados sem benefÃcio de inventário, a “sociedade pós-industrial” apareceu
como um todo liso, homogêneo, realizando a fusão das famÃlias ideológicas
historicamente disjuntas, repartindo os modos de apreensão do mundo segundo a
clivagem arcaÃsmo/modernidade. P. 80
6- O poder negociado
Propondo sua hipótese
sobre a microfÃsica do poder, Michel Foucault fazia avançar o debate,
desestabilizando à sua maneira a clivagem heróis positivos/heróis negativos,
desencravando-os de seus pólos tradicionais. Afirmando que o poder não é
“privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de
conjunto de suas posições estratégicas, é também a posição do “dominado” nesse
sistema de poder que ele questionava: “Esse poder não se aplica, pura e
simplesmente, como uma obrigação ou como uma proibição, aos que ‘não o têm’,
ele os investe, passa por eles e através deles; apóia-se neles, assim como eles
mesmos, em sua luta contra ele,apóiam-se por sua vez nas influências que ele
exerce sobre eles”. P. 94
[Naïr] “com Sartre há
história demais, com Lévi-Strauss,
Foucault, Althusser e Lacan não há mais história”.
P. 95
7- O retorno do sujeito
A reabilitação do
sujeito
A necessidade de
identificar o outro tende a ser reconhecida como um problema decisivo. P. 103
Na abordagem estrutural,
o desejo de acabar com a obsessão das ciências psicológicas em relação a um
sujeito isolado de qualquer estrutura ou de qualquer dispositivo social havia
se traduzido em um afastamento do sujeito. P. 104
À noção de comunicação
isolada como ato verbal, consciente e voluntário, opõe-se à ideia da
comunicação como processo social permanente integrante de múltiplos modos de comportamento:
a palavra, o gesto, o olhar, o espaço interindividual. É assim, por exemplo,
que Birdwhistell e Hall introduzirão, no campo tradicional da comunicação, a
gestualidade (cinésica) e o espaço interpessoal (proxêmica), ao passo que o
sociólogo Goffman se dedicará a mostrar como os acidentes ou as dificuldades do
comportamento humano revelam a trama do meio social. P. 106
Estamos evidentemente
longe dos tempos em que a noção de interação
teria podido assumir uma conotação de participação crÃtica em um projeto de
sociedade. Volta-se, na realidade, ao sentido original do conceito tal como foi
moldado pelas teorias cibernéticas para as quais os intercâmbios participam do
mecanismo de auto-regulação do sistema. P. 109
Quem poderia negar com
efeito que a socialização das novas tecnologias em paÃses como a França busca
seu caminho entre dois pólos: de um lado, o caminho do marketing e da demanda
solvável, da atitude promocional do material; de outro, o caminho da
comunicação-emancipação que prolonga a tradição do militantismo sociocultural
do qual subsistem traços nas noções de “demanda social”, de “apropriações” e de
“participação nas escolhas tecnológicas”? Daà a necessidade de analisar a
maneira pela qual o imaginário herdado de um perÃodo recente de conquistas e de
lutas sociais se reinveste no imaginário que preside à formação dos usos
sociais das novas tecnologias. P. 110
8- Os procedimentos de
consumo
O funcionalismo do pior
Durante muito tempo, com
efeito, as escolas crÃticas, tanto a escola de Frankfurt como as correntes que
se referem a Althusser, aceitaram a tÃtulo de postulado implÃcito o mito da
onipotência da mÃdia. P. 112
Esse viés havia sido bem
compreendido desde o inÃcio dos anos 1960 por Bourdieu e Passeron. Eles serão,
na época, os únicos a recusar o “funcionalismo do pior”, as intenções
maquiavélicas desse novo Leviatã que seriam as mÃdias tecnológicas. P. 112
“Se a mass-midiologia não realiza as ambições
que proclama”, escreviam então Bourdieu e Passeron em 1963, “ela atinge pelo
menos o fim inconfesso que todas as suas atitudes traem, a saber, esquivar as
questões terra-a-terra que questionam sua existência. Cada meio de comunicação
não segmenta no interior da ‘massa’ conjuntos que são os tantos públicos de um
momento? ... Por que, por exemplo, conceder (anteriormente a qualquer
existência) ao falso face-a-face da televisão um poder de persuasão a nada
comparável, procurando ignorar a eficácia demasiado conhecida da presença em
carne e osso? [...] Há mil maneiras de ler, de ver e de escutar. Por que querer
determinar ‘a influência’ das mass media pela
medida, estranhamente burocrática, da quantidade de informação emitida ou pela
análise da ‘estrutura’ da mensagem [...]? Seria preciso lembrar que a
significação não existe como tal na coisa lida, mas que ela tem, aqui como
alhures, a modalidade da consciência intencional que a constitui? A leitura
superficial talvez traga em si mesma a própria defesa e a escuta distraÃda
transforma o discurso do locutor em simples ruÃdo, que pode, a partir de então,
ser medido em decibéis. E por que ignorar as proteções das quais se armam as
massas contra a precipitação mass-midiática?”.
P. 112-113
O essencial da questão
era esse: os usos sociais da mÃdia não reproduzem forçosamente as lógicas
destacadas pela análise das estruturas dessa mÃdia. E mesmo o que é
pretensiosamente concebido para isso não tem forçosamente o efeito previsto.
Toda hipótese que não aceita o princÃpio dessa descontinuidade inscreve-se antes
na ficção cientÃfica do que em uma análise séria do real da mÃdia. P. 113
Na América Latina [...]
estudos pioneiros desde o inÃcio dos anos 1970 consideram os públicos
receptores como produtores de sentido, analisando, por exemplo, os usos
desvirtuados das novelas no interior de diversos grupos das classes populares
chilenas. P. 113
Compreende-se que, nesse
contexto dominado pela tendência estruturalista de isolar emissores e
mensagens, supondo à mÃdia um poder tão potente quanto misterioso, as análises
de Jean Baudrillard haviam sido um sobressalto salutar. Enfatizando a não
reciprocidade no interior do processo de “comunicação”, não possuÃa ele o
mérito de refutar a ideia da comunicação como intercâmbio sempre realizado?
Essa ideia estremecia o postulado de toda mass-midiologia
pouco preocupada com o detalhe: existe comunicação e, onde ela não existe,
encontra-se o “ruÃdo”. Baudrillard inverte as coisas: pelo fato da
não-reciprocidade, pelo fato da ruptura de intercâmbio, a mÃdia vive no tempo
da incomunicação e só produz a comunicação como o simulacro de si mesma. Essa
hipótese parece certamente mais fecunda que a primeira, que acredita na
comunicação dada a priori, pelo menos
ela torna seu objeto profundamente ambÃguo. Mas ela comete o erro de
interpretar o fracasso da injunção midiática por meio de uma espécie de
autodiluição do sentido sob o efeito de a ação dos “dominados”. P. 114
Goethe [...]. Ele
igualmente compreendera “que com as mesmas palavras ninguém pensa o que pensa o
seu semelhante, que uma conversa, uma leitura desperta, em indivÃduos
diferentes encadeamentos diferentes de ideias”. P. 115
O que durante muito
tempo a sociologia da mÃdia moderna ignorou é o que os historiadores do livro e
da alfabetização, bem como os historiadores das mentalidades, haviam
pacientemente recolhido sobre as resistências das subculturas operárias e
camponesas na primeira onda da “normalização” cultural, a saber: a entrada da
escrita na tradição oral e do impresso na tradição do manuscrito. É o que o
americano Jack Goody chama “a domesticação do pensamento selvagem”. P. 116
Enquanto a sociologia da
mÃdia seguiu a tendência muito clara de globalizar a paisagem dos novos meios
técnicos e de apreender sob um aspecto uniforme o ambiente midiático, os
historiadores do livro puderam discernir as complementariedades, os nÃveis de
rivalidade, as influências recÃprocas da escrita sobre o oral e do oral sobre a
escrita, do texto reservado às elites sobre o conto popular. Eles puderam,
notadamente, apreciar como o texto escritural era compreendido em função da riqueza
maior ou menor da tradição oral de seu leitor. P. 116
Em contrapartida, a
teoria que prevaleceu tanto na esquerda quanto na direita para explicar o
funcionamento dos meios modernos de difusão de massa mimetizou-se no
esteriótipo de “massa”, que se conjugou com o de “sociedade de massa”. Onde os
historiadores das culturas populares viam diferenças, conflitos e resistências,
os teóricos da “sociedade de massa” viam um conjunto atomizado, amorfo, incapaz
de contra-atacar. P. 116
[...] a postura teórica
sobre a ação massificante dos meios de difusão de massa [...] via “a sociedade
moderna” como o resultado do desaparecimento geral dos elementos de
diferenciação que caracterizam as sociedades do passado e o resultado,
paralelamente, da perda do sentido do sagrado: a tecnologia, a abundância
econômica, a igualdade polÃtica haviam suscitado uma sociedade homogênea. Antes
da “sociedade moderna”, tÃnhamos as comunidades, o povo-popular. Agora, a
maioria se identificava com a massa, e o homem com o homem-massa. P. 116-117.
É precisamente mérito de
Michel de Certeau considerar também a cultura popular uma cultura do presente.
Ele vai, assim, ao encontro do desejo de antropólogos que querem reagir contra
o confinamento das culturas populares e étnicas nas noções passadistas do
“paraÃso perdido” das culturas originais em face da “homogeneização” presente.
P. 117
Passivo/ativo
Durante muito tempo, Ã
imagem de um consumidor passivo em face de uma mÃdia ativa correspondeu a ideia
da oposição fetichista entre uma mÃdia “passiva” e uma mÃdia “ativa”, opondo o
triste passado a um futuro promissor. P. 118
A profissionalidade dese
ser considerada um campo de inovação para as práticas de intervenção social.
Foi o que começaram a entender certos setores do mundo associativo e do
movimento operário, quando constatam que é tempo de sair “de uma imagem do
social, morosa e entediante”, e que aà se encontra o desafio de sua própria
“identidade cultural”. É então que os novos paradigmas ajudam a responder a
esta questão: Que imagens? A busca de novas formas e de novos conteúdos é com efeito
inseparável das novas tendências que emergem: busca do indivÃduo por trás da
massa, direito ao sensÃvel, à ficção, ao imaginário. P. 122
III- a redefinição de
uma relação: intelectuais/cultura midiática


