Sem tesão não há solução
“Tesudos
de todo o mundo, uni-vos”
Já
que a obra de Roberto Freire (1987) possui um tom pessoal e confessional,
permito-me também escrever esta consideração com a minha experiência com o
livro. Conheci a obra por intermédio da minha irmã. Em uma viagem, durante sua
estadia na casa de seu cunhado, ela encontrou o livro e começou sua leitura.
Envolvida com as percepções do autor, sequestrou-o, voltou para Porto Alegre e
ligou para o proprietário, contando-lhe sobre o “sequestro” e afirmando-lhe que
devolveria o livro, mas somente depois de concluir sua leitura.
As
ideias da obra pautaram grande parte de nossas conversas no período da leitura
de minha irmã. Era tanta empolgação, que eu sentia que o Roberto Freire tomava
café, almoçava e jantava conosco. A
cada conversa, percebia como a Marília estava envolvida com a obra, o quanto a
leitura lhe deu o que pensar ou simplesmente colocou em palavras o que nela
ainda eram sentimentos e pensamentos. Concluindo a leitura, devolveu o livro,
mas sentia que precisava de sua presença. Precisava das palavras do Roberto
Freire à sua disposição. Ela se apaixonou pelo Roberto Freire (e como é bom
quando nos apaixonamos por um autor). Adorou a leitura de Cleo e Daniel
e também se interessou pelo Soma.
Era
tanto entusiasmo, que eu decidi trocar uma Melissa pelo livro, afinal, eu
precisava saber o que é que esse Roberto Freire tem. E, concluindo minha
leitura eu percebo: o cara é foda (com o perdão do trocadilho). No entanto, sei
que a obra tocou, motivou e modificou muito mais a minha irmã do que eu. Eu
conseguia ver a aura dela nas palavras do Roberto Freire. Minha irmã é livre,
solta, feliz. Ainda carrega a esperança que o bem possa se propagar, tem ideais
nobres, quer fazer mudança, quer mudar, quer ir e voltar. Enfim, acredito que
ela sente um tesão incrível pela vida. Já eu, bem, sou mais racional. Talvez
minha irmã ainda acredite em tudo e todos e eu esteja um pouco calejada da
“filha da putice” alheia. Não que eu tenha perdido as esperanças, isso nunca.
Mas aprendi a baixar as minhas expectativas para evitar frustrações.
Mas
sim, eu precisava ler Sem tesão não há solução, porque eu também
acredito muito nisso. Sem tesão não fazemos nada, ou fazemos por obrigação e
isso é uma das piores coisas para mim. Precisava ler o livro para entender um
pouco sobre essa ideologia do tesão, o que são as pessoas tesudas, quem são os
protomutantes. Aliás, minha irmã sempre tenta me contagiar com sua esperança,
com seu pensamento positivo, com sua crença de que o bem prevalece, uma hora ou
outra. E eu quero me contagiar, preciso me contagiar. Mas o faço da minha
maneira, com um pé no chão e o outro no ar. E vendo nós duas, tão iguais e tão
diferentes, eu percebo que minha irmã quer alçar voo, voar longe, ir além sem
criar raízes. E eu procuro estabilidade, segurança, voando com a convicção de
que não irei me perder. Vejo-me como a terra firma, que ela sempre irá
encontrar, quando cansar dos ventos ou quando quiser me contar com quais
andorinhas fez verão.
Sobre o livro, ele fala desse amor livre, que não
aprisiona, julga ou asfixia. Fala sobre nos apaixonarmos pelas pessoas, pelas
coisas, pela beleza, pela vida. Roberto Freire não acredita em casamentos, mas
em acasalamentos. Acredita na beleza e na alegria, e não na felicidade.
Acredita que o tesão é “uma dimensão fundamental à vida no universo”. Com um tom
confessional, fala-nos como vive a ideologia do tesão, como sente e age o amor.
Confessa-se um anarquista, um poeta, um romancista, um terapeuta, um
revolucionário e um drogado. Por meio de suas palavras e das transcrições de
algumas de suas entrevistas e palestras, compreendemos porque o tesão é
essencial em nossa vida (não apenas a sexual). É preciso ter amor, é preciso
ter tesão, é preciso ter prazer. “Porque é o amor, não a vida, o contrário da
morte”.
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| Linda no verso e no inverso. S2 |


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