Teorias das comunicações de massa

by - junho 28, 2013

                                                         Resumo até a página 72

Introdução
Se é verdade que “o estudioso das comunicações de massa quase sempre se interessou, desde o início do desenvolvimento desses estudos, sobretudo pela influência dos meios de comunicação de massa no público, [enquanto] a corrente europeia pretende conhecer as determinantes estruturais do pensamento” (Merton, 1949b, p. 84), a evolução atual da pesquisa sobre a mídia situa-se na confluência entre essas duas tradições. P. XIII

Primeira parte: a evolução da pesquisa sobre as comunicações de massa

1.2 A teoria hipodérmica
A posição sustentada por esse modelo pode ser sintetizada com a afirmação de que “todo membro do público massa é pessoal e diretamente ‘atacado’ pela mensagem (Wright, 1975, p. 79). P. 4

[...] a teoria hipodérmica é uma abordagem global da mídia, indiferente à diversidade entre os vários meios, e que corresponde principalmente à interrogação: qual efeito tem a mídia numa sociedade de massa? P. 5

1.2.1 A sociedade de massa
As “variantes” que podem ser encontradas no conceito de sociedade de massa são muitas: o pensamento político do século XIX, de cunho conservador, ressalta na sociedade de massa o resultado da crescente industrialização, da revolução nos transportes, no comércio, na difusão dos valores abstratos de igualdade e liberdade. Esses processos sociais determinam a perda de exclusividade por parte das elites, que se encontram expostas às massas. P. 6

[...] a massa “é tudo o que não avalia a si mesmo – nem no bem, nem no mal – mediante razões especiais, mas que se sente ‘como todo mundo’ e, no entanto, não se aflige por isso, ou melhor, sente-se à vontade ao se reconhecer idêntica aos outros (Ortega Y Gasset, 1930, p. 8). P. 6

[...] a massa é constituída por um agregado homogêneo de indivíduos que – enquanto seus membros – são substancialmente iguais, não distinguíveis, mesmo se provêm de ambientes diversos, heterogêneos e de todos os grupos sociais. P. 7

O isolamento de cada indivíduo na massa anônima é, portanto, o pré-requisito da primeira teoria sobre a mídia. Esse isolamento não é apenas físico e espacial, é também de gênero variado. P. 8

[...] esse é o fator de isolamento físico e “normativo” do indivíduo na massa que explica em grande parte a importância atribuída pela teoria hipodérmica às capacidades manipuladoras dos primeiros meios de comunicação de massa. P. 8

[...] a massa é um grupo que surge e vive além dos vínculos comunitários preexistentes e contra eles, que resulta da desintegração das culturas locais, e na qual as funções de comunicação são forçosamente impessoais e anônimas. A fraqueza de uma audiência indefesa e passiva nasce justamente pela dissolução e dessa fragmentação. P. 8

[...] segundo a teoria hipodérmica, “cada indivíduo é um átomo isolado que reage sozinho às ordens e às sugestões dos meios de comunicação de massa monopolizados” (Mills, 1963, p. 203). Se as mensagens da propaganda conseguem atingir os indivíduos da massa, a persuasão é facilmente “inoculada”: ou seja, se o “alvo” é alcançado, a propaganda obtém o êxito que propõe. P. 9

1.2.2 O modelo “de comunicação” da teoria hipodérmica
“Estímulo e resposta parecem ser as unidades naturais, em cujos limites pode ser descrito o comportamento” [...] A unidade estímulo/resposta exprime, portanto, os elementos de toda a forma de comportamento. P. 10

Sem dúvida, essa teoria da ação, de cunho behaviorista, podia ser facilmente integrada com as teorizações sobre a sociedade de massa, às quais fornecia o suporte que serviria de base para as convicções acerca da característica imediata e inevitável dos efeitos. P. 10

[...] a descrição da sociedade de massa [...] contribui de sua parte, para acentuar a simplicidade do modelo E > R (Estímulo > Resposta). P. 10

[...] se uma pessoa é atingida pela propaganda, pode ser controlada, manipulada, induzida a agir. P. 11

1.2.3 O modelo de Lasswell e a superação da teoria hipodérmica
Elaborado inicialmente nos anos 30, no “período áureo” da teoria hipodérmica, como aplicação de um paradigma para a análise sociopolítica [...], o modelo lasswelliano, proposto em 1948, explica que

Um modo apropriado de descrever um ato de comunicação é responder às seguintes perguntas:
Quem
Diz o quê
Por qual canal
A quem
Com qual efeito?
O estudo científico do processo de comunicação tende a se concentrar numa ou noutra dessas interrogações (Lasswell, 1948, p. 84). P. 12

O esquema de Lasswell organizou a nascente communication research em torno de dois dos temas centrais e de maior duração – a análise dos efeitos e a análise dos conteúdos. P. 14

“A audiência se mostrava intratável. As pessoas decidiam sozinhas se queriam ouvir ou não. E, mesmo quando ouviam, a comunicação podia revelar-se desprovida de efeitos ou apresentar efeitos opostos aos previstos. Gradualmente, os estudiosos devia deslocar sua atenção para a audiência, para compreender os assuntos e o contexto que a formavam” (Bauer, 1958, p. 127). P. 16

1.3 A abordagem empírico-experimental ou “da persuasão”
[...] a abordagem experimental conduz ao abandono da teoria hipodérmica [...]. p. 17

A “teoria” dos meios de comunicação de massa [...] consiste sobretudo na revisão do processo de comunicação, compreendendo como uma relação mecanicista e imediata entre estímulo e resposta: esta evidencia (pela primeira vez na pesquisa em mídia) a complexidade dos elementos que entram em jogo na relação entre emissor, mensagem e destinatário. P. 18

[...] as duas coordenadas que orientam essa “teoria” da mídia são determinadas: a primeira, representada pelos estudos sobre o caráter do destinatário, que atuam como intermediários na realização do efeito; a segunda, representada pelas pesquisas sobre a melhor forma de organização das mensagens com fins lucrativos. P. 19

Causa (estímulo) > (processos psicológicos intervenientes) > efeito (resposta)

1.3.1 Os fatores relativos à audiência
“Pressupor uma perfeita correspondência entre a natureza e a quantidade de material apresentado numa campanha informativa, além da sua absorção por parte do público, é uma perspectiva ingênua porque a natureza real e o grau de exposição do público ao material informativo são determinados, em grande parte, por algumas características psicológicas da própria audiência [...]: o interesse em adquirir informação, a exposição seletiva provocada pelas opiniões existentes, a interpretação seletiva, a memorização seletiva. P. 20

[...] nem todas as pessoas representam um “alvo” igual para a mídia [...]. p. 21

[...] grande parte do efeito de cada programa é predeterminada pela estrutura da audiência. P. 22

As campanhas de persuasão são recebidas sobretudo por indivíduos que já concordam com as opiniões apresentadas ou que, de todo modo, já apresentam alguma sensibilidade para os temas propostos. Também por causa disso, as campanhas fracassam e os efeitos da mídia não são tão relevantes quanto supunha a teoria hipodérmica [...]. p. 23

A interpretação transforma e modela o significado da mensagem recebida, preparando-a para as opiniões e para os valores do destinatário, às vezes ao ponto de mudar radicalmente o sentido da própria mensagem. P. 24
1.3.2 Os fatores relativos à mensagem
Os estudos experimentais sobre essa variável questionam-se se a reputação da fonte é um fator que influencia as mudanças de opinião que podem ser obtidas na audiência e, correlativamente, se a falta de credibilidade do emissor incide de modo negativo sobre a persuasão. P. 27

[...] a aprendizagem pode ocorrer, mas a escassa credibilidade da fonte seleciona sua aceitação. P. 28

A intenção é [...] estabelecer se são mais eficazes as argumentações em primeira [efeito primacy] ou segunda [efeito recency] posição, numa mensagem em que os aspectos a favor e os contra encontram-se igualmente presentes. P. 28

[...] conforme as diferentes condições experimentais [...] verificam-se tanto efeitos de recency quanto de primacy. P. 29

O caráter exaustivo das argumentações: [...] trata-se de estudar o impacto que a apresentação de um único aspecto ou de ambos os aspectos de um tema controverso produz, a fim de mudar a opinião da audiência. P. 29

Confrontada com a teoria hipodérmica, a teoria da mídia, vinculada às pesquisas psicológico-experimentais, redimensiona a capacidade indiscriminada dos meios de comunicação de manipular o público [...]. p. 31

1.4 A abordagem empírica em campo ou “dos efeitos limitado”
A perspectiva que caracteriza o início da pesquisa sociológico-empírica sobre as comunicações de massa refere-se globalmente a toda a mídia do ponto de vista da sua capacidade de influência sobre o público [...]. p. 32

O “coração” da teoria da mídia, ligada à pesquisa sociológica em campo, consiste de fato em unir os processos de comunicação de massa às características do contexto social em que eles se realizam. A partir desse ponto de vista, completa-se a revisão crítica da teoria hipodérmica. P. 33

1.4.1 As pesquisas sobre o consumo dos meios de comunicação de massa

Como estudar a atração dos programas.
Existem três maneiras diferentes de saber o que um programa significa para o público. Se possível, todas deveriam ser empregadas juntas.
Análise de conteúdo
Características dos ouvintes
Estudos sobre as gratificações p. 34-35

1.4.2 O contexto social e os efeitos dos meios de comunicação de massa

[...] a eficácia dos meios de comunicação de massa pode ser analisada apenas dentro do contexto social em que estes agem. Sua influência deriva mais das características do sistema social a eles circunstante do que do conteúdo que difundem. P. 37

[...] o grau de participação e de envolvimento na campanha, observa-se que o grau máximo de interesse e de conhecimento a respeito do tema é apresentado por alguns indivíduos “muito envolvidos e interessados no tema e dotados de mais conhecimento sobre ele. Chamá-los-emos de líderes de opinião” (Lazarsfeld-Berelson-Gaudet, 1944, p. 49). P. 38

Os líderes de opinião constituem o setor da população [...] mais ativo na participação política e mais decidido no processo de formação de opiniões de voto. P. 38

A oposição entre a teoria hipodérmica e o modelo do two-step flow pode ser representada graficamente do seguinte modo:



Os efeitos dos meios de comunicação de massa são compreensíveis apenas a partir da análise das interações recíprocas entre os destinatários: os efeitos da mídia se realizam como parte de um processo mais complexo, que é o da influência pessoal. P. 40

[...] a teoria da mídia ligada à abordagem sociológica e empírica sustenta que a eficácia da comunicação de massa é largamente vinculada a e depende de processos de comunicação internos à estrutura social em que vive o indivíduo e que não são efetuados pela mídia. P. 43

“Nos últimos vinte anos, a televisão se impôs como meio predominante de comunicação de massa e mudou radicalmente o uso do tempo livre. Com isso, o sistema de comunicação de massa diferenciou-se consideravelmente. Os líderes de opinião foram quase totalmente dispensados da sua função de filtro, em consequência da difusão de temas, informações e opiniões (Böckelmann, 1975, p. 123). P. 44-45

1.4.3 Retórica da persuasão ou efeitos limitados?

A diversidade das conclusões esconde, na verdade, um fator crucial no estudo dos processos de comunicação: a situação de comunicação. P. 46

A definição da situação de comunicação torna-se, portanto, uma variável relevante ao se focalizarem certos elementos em vez de outros, no processo de comunicação de massa. P. 48

Aquilo que, vez por outra, a pesquisa pôs à mostra em relação ao problema dos efeitos sempre foi pensado em termos de aquisições globais e gerais, reciprocamente incompatíveis (se a perspectiva é “apocalíptica”, os efeitos caracterizados e imaginados são de um certo tipo; se, por outro lado, o comportamento é “integrado”, a perspectiva quanto aos efeitos opõe-se à precedente). P. 48

As teorias a respeito da influência da mídia apresentam um andamento oscilatório: partem de uma atribuição de forte capacidade manipulativa, passam depois por uma fase intermediária, na qual o poder de influência é redimensionado de modo variado, e por fim repropõem nos últimos anos posições que atribuem aos meios de comunicação de massa um efeito considerável, ainda que motivado diferentemente do afirmado na teoria hipodérmica. P. 48-49.

1.5 A teoria funcionalista das comunicações de massa

A teoria funcionalista da mídia também representa essencialmente uma abordagem global dos meios de comunicação de massa em seu conjunto: é verdade que suas articulações internas distinguem-se entre gêneros e meios específicos, mas a importância mais significativa está voltada para a explicitar as funções desenvolvidas pelas comunicações de massa na sociedade. P. 50

Desse modo, completa-se o percurso seguido pela pesquisa de mídia, que no início havia se concentrado nos problemas da manipulação, para passar aos de persuasão e depois à influência, atingindo justamente as funções. P. 50

As funções analisadas não são vinculadas a contextos de comunicação particulares [campanhas políticas], mas à presença normal da mídia na sociedade. P. 50

[...] a teoria funcionalista ocupa uma posição muito precisa, que consiste em definir a problemática da mídia a partir do ponto de vista da sociedade e do seu equilíbrio, da possibilidade do funcionamento total do sistema social e da contribuição que os seus componentes (inclusive os meios de comunicação de massa) lhe trazem. P. 51

1.5.1 A elaboração estrutural-funcionalista

[...]  teoria sociológica do estrutural funcionalismo salienta [...] a ação social (e não o comportamento) na sua aderência aos modelos de valor, interiorizados e institucionalizados. O sistema social no seu conjunto é compreendido como um organismo, cujas diversas partes desenvolvem funções de integração e de conservação do sistema. P. 52

[...] toda estrutura parcial tem uma função se contribuiu para a satisfação de uma ou mais necessidades de um subsistema social. P. 53

[...] raramente um sistema social depende de um único mecanismo ou de um único subsistema para a solução de um dos quatro imperativos funcionais. P. 54

1.5.2 As funções das comunicações de massa

O “inventário” das funções correlaciona-se a quatro tipos de fenômeno de comunicação diversos: a. a existência do sistema global dos meios de comunicação de massa numa sociedade; b. Os tipos de modelos específicos de comunicação, ligados a cada meio particular (imprensa, rádio, etc.); c. A ordem institucional e organizacional com que os diversos meios de comunicação operam; d. As consequência do fato de as principais atividades de comunicação se desenvolverem por intermédio dos meios de comunicação de massa. P. 55

[...] uma abordagem funcionalista da mídia não “desaparece” completamente, suplantada por outros paradigmas, mas se prolonga até hoje [...]. p. 59

1.5.3 Dos usos como funções as funções dos usos: a hipótese dos uses and gratifications

As funções [se referem] às consequências  de certos elementos regulares, padronizados e rotineiros do processo de comunicação (Wright, 1974, p. 209). P. 59

Se a ideia inicial da comunicação como geradora de influência imediata numa relação de estímulo/reação é suplantada por uma pesquisa mais atenta aos contextos e às interações sociais dos receptores, e que descreve a eficácia da comunicação como o resultado complexo de múltiplos fatores, à medida que a abordagem funcionalista se enraíza nas ciências sociais os estudos sobre os efeitos passam da pergunta “o que os meios de comunicação de massa fazem às pessoas?” para “o que as pessoas fazem com os meios de comunicação de massa?”. P. 60

“O receptor é também um iniciador, seja no sentido de dar origem a mensagens de retorno, seja no sentido de encaminhar processos de interpretação com um certo grau de autonomia. O receptor ‘age’ sobre a informação que lhe é disponível e a ‘usa’” (McQuail, 1975, p. 17). P. 60

Emissor e receptor são companheiros ativos no processo de comunicação. P. 61

A ligação entre satisfação da necessidade e escolha do meio de comunicação a que se expor é representada como uma opção do destinatário, num processo racional de adequação dos meios disponíveis para os fins almejados. P. 68
Os meios de comunicação de massa não são a única fonte de satisfação dos vários tipos de necessidades experimentados pelos indivíduos, ou melhor, às vezes, a comunicação de massa é usada como remedeio na ausência de alternativas mais adequadas. No entanto, é preciso ter em mente que estas não são equivalentes e que nem todas são igualmente acessíveis ou significativas [...]. p. 69 

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