Imaginário e Mito em Malrieu

by - março 23, 2012



Imaginário em Philippe Malrieu


Philippe Malrieu (1912-2005), professor de Psicologia na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Toulouse, caracteriza-se por ser um autor que se dedica, primordialmente, às pesquisas relacionadas à psicopedagogia e à linguagem e suas relações com a personalidade da criança . Apesar do olhar teórico de Malrieu advir da psicologia infantil, tema amplamente tratado em suas obras, é de suma importância nos referirmos às suas teorias e conceitos, já que este também trabalha o tema imaginário com fundamentos e contraposições com as teorias de Gaston Bachelard, Gilbert Durand, Maurice Leenhardt, Sigmund Freud e de Jean-Paul Sartre – entre outros, além de apresentar-nos um conceito que não é utilizado por outro estudioso do tema: imaginário mítico .

Em sua obra A Construção do Imaginário (1996), Malrieu (1996, p. 105) fala-nos que tal construção imaginativa se dá através de três comportamentos: através do sonho, do mito e da arte. Para o autor, esta construção consiste em uma simbolização que pode ser involuntária no sonho, “organizada e integrada num sistema de crenças coletivas, no mito” e também “procurada ou pelo menos controlada por um tema consciente, nas artes”. Malrieu (1996, p. 106) difere estes três comportamentos argumentando que o sonho é um desejo individual e imediato, o mito, por sua vez é o desejo compartilhado, o desejo dos homens de uma mesma sociedade, de um mesmo grupo, e a arte (do presente) é o comportamento que “nos revela os desejos do homem preocupado com o futuro da sociedade”.

 
Malrieu (1996, p. 115, grifo do autor) argumenta que o imaginário tem seu início numa “quase-questão sobre si a propósito do estímulo”, ele é uma “experiência de si mesmo” . Para o autor, o imaginário é essa descoberta de nossos sonhos, um olhar para nós próprios, é essa “surpresa por descobrir em si divisões e possibilidades ignoradas” . Malrieu (1996, p. 137-138) ressalta que é construindo relações simbólicas que o “imaginário apresenta-se como uma tentativa para identificar as experiências entre si”. Ele constitui-se da libertação de “atitudes desconhecidas e incontroláveis”, é também o viés que o homem encontra “para compor uma representação”, que pode tratar-se tanto “da arte, do devaneio, do mito” quanto do sonho.

 
Malrieu (1996, p. 125-126) defende a concepção de que o imaginário tem como base o símbolo, e, portanto é “simultaneamente obra e instrumento”. Para o autor, o símbolo é uma expressão, é uma forma de “reagir a duas realidades através de um mesmo ato” . O símbolo “representa uma forma por meio de outra”, permite diferenciar objetos através de suas diferenças e semelhanças, e este processo se dá de forma concreta, diferentemente do signo, que para Malrieu, assim como para Saussure , é arbitrário. Além disso, um “sistema de signos”, para Malrieu (1996, p. 128-129) representa os objetos de forma que os classifique, e os situe, um entre os outros.

Segundo Malrieu (1996, p. 125-126), o imaginário, de acordo com seus comportamentos, configura-se como “fugidio no sonho, inscreve-se na tradição que sustenta o mito, integra-se intencionalmente na obra de arte”. E sua ação pode ser de curta ou longa duração, pode ser breve ou prolongar-se por séculos, sendo que esta duração depende da coerência e da riqueza das relações que estes comportamentos mantêm com o “restante do mundo vivido, desde as estruturas fisiológicas aos saberes científicos”. São os três comportamentos que também caracterizam a “diferenciação entre imaginários”, sendo que esta diferença torna-se evidente através de seu nível organizador. Sendo assim, o imaginário pode ser “inconsciente no sonho, definido no mito”, ou “em progresso contínuo” na arte, nas palavras de Malrieu (1996, p. 129).

 
Malrieu (1996, p. 130) define o imaginário como uma projeção. O autor nota que esta projeção dá-se através de uma recuperação do passado, não com o objetivo de repeti-lo, mas com o intuito de “transfigurá-lo”. O imaginário, de acordo com Malrieu (1996, p. 130), “é sempre, em certa medida, imitação do passado”. Em suas palavras, através do imaginário, imitamos de uma maneira deformada o nosso passado, justamente através da projeção. Tanto os mitos como as lendas, podem servir de sustentação aos ritos, e assim, garantir a “manutenção da tradição”, adaptando e transformando o futuro de acordo com esse “passado imaginário” que serve de guia para os homens de uma determinada sociedade. Estes, por sua vez, “terão de recomeçá-lo, identificando-se com as forças originais” .

 
A relação do imaginário com o passado, defendida por Malrieu (1996, p. 130), é o ponto de encontro, na visão do referido autor, entre as teorias de Sartre, Freud e Bachelard. De acordo com Malrieu (1996, p. 147), “o passado é retomado nas diversas formas de imaginário e é sobre esta confirmação que assentam, em partes, as teorias de Freud e de Bachelard”. Salienta, porém, sua consideração de que o imaginário é uma tentativa de libertação, de superação deste passado, sendo que esta superação, esta criação, ou transfiguração do passado é “marcada por uma situação nova do sujeito no tempo”, e esta configuração é o ponto crucial da teoria sartreana. A imaginação configura-se, assim, como um meio de conservação, revivendo o passado através do imaginário. Para Malrieu (1996, p. 149) “deste ponto de vista, a imaginação surge como a persistência das nossas experiências anteriores, como a sobrevivência da nossa história”, sendo que o imaginário não visa o prolongamento das condutas antigas, mas sim sua reconstrução .

A vida do imaginário, para Malrieu (1996, p. 152) surge da conexão entre os seus elementos: o sonho, o mito e a arte. De acordo com o autor, através de um estudo do passado, poderemos analisar tendências e objetivos dos sujeitos, e isto nos permitirá conhecer como este cria o seu imaginário, “de que forma o seu sonho, a sua crença mítica, a sua obra de arte contribuem para reorientar as suas condutas”, enfim, através deste estudo podemos compreender e conhecer a “reestruturação das motivações e das aspirações pelo imaginário” . Já a etnografia do imaginário, segundo o autor, em um primeiro momento, procura definir: as ligações que o informador estabelece entre os elementos do imaginário e os acontecimentos vividos, tecendo deste modo uma primeira rede de associações, fenomenal, por assim dizer, atendendo à forma como é apreendida, sentida, vivida pelos sujeitos do grupo. [...] Num segundo momento, o imaginário é de novo imerso nos diversos tipos de atividades e intervém como regulador ou como fator de exibição: o imaginário é, então, situado na constelação das condutas sociais, sendo já possível vislumbrar a natureza da sua função. [...] Num terceiro momento, o destaque recai sobre as perspectivas teleológicas do imaginário, quer pela observação quer pela entrevista: a partir desse momento ele é atingido, não já apenas como um fato inerte mas como um fator de equilíbrio da vida social (MALRIEU, 1996, p. 160).

Para Malrieu (1996, p. 160) etnograficamente iremos compreender como o sujeito estabelece relações entre o imaginário e sua vida cotidiana, construindo assim, ligações e associações sobre suas concepções e as concepções partilhadas pelo grupo ao qual está inserido. Após esta relação, o imaginário atua então como “constelação das condutas sociais”, regulando e expondo, as atividades e percepções desse sujeito. Posteriormente, o imaginário configura-se como o “equilíbrio da vida social” deste grupo, pois já estabeleceu as regras, os conceitos, os ritos, enfim.

 
O autor defende que, após compreendermos os três níveis de imaginário (sonho, mito e arte), perceberemos que o imaginário é de certa forma, uma “expressão de uma personalidade pré-formada”. Malrieu (1996, p. 171) acrescenta que tal expressão constitui-se ao longo da vida, porém este processo apenas constitui o imaginário, mas o que o estabelece é “um comportamento que tem como ponto de partida os problemas vividos pelo sujeito”.

 
Por um lado, com efeito, notamos que Malrieu (1996) não estabelece uma distinção clara entre os conceitos de “imaginação” e de “imaginário”. Na conclusão de sua obra, Malrieu (1996, p. 225) assinala que “a imaginação é um momento de abertura para outrem. [...] ela é o desenvolvimento da imitação em representação”. O autor (1996, p. 225) considera que o sujeito, através deste desenvolvimento, descobre os símbolos, e assimila-os, sendo levado a deformar os sonhos, os mitos e a arte, criando assim “um mundo de formas novas”.

É estabelecendo uma relação entre a imaginação e o conhecimento, que Malrieu (1996, p. 227) apresenta-nos suas concepções acerca das teorias de Bachelard e Durand. O autor sublinha que “distrito do conhecimento perceptivo, o imaginário distingui-se do conhecimento conceptual, quer pelo seu caráter de transferência quer pelo imediatismo da transferência simbólica” (MALRIEU, 1996, p. 227-228). Malrieu critica Bachelard afirmando que este nega “ao psicólogo o direito de estudar a imagem”, assim como nega “ao filósofo a introdução do jogo das imagens na rede das relações racionais”, porque, segundo a teoria de Bachelard, “a imagem só pode ser estudada através da imagem, sonhando as imagens, tal como elas se combinam no devaneio”. Malrieu defende então, que é “um absurdo pretender estudar objetivamente a imaginação, já que só reconhecemos verdadeiramente a imagem se a admiramos” e ainda salienta que “aceitar um ponto de vista como este seria virar as costas a uma teoria científica do conhecimento e, nomeadamente, a uma explicação genética da inteligência” (MALRIEU, 1996, p. 228). É a relação dialética entre a imaginação e a inteligência que Malrieu assinala que deva ser definida, “de preferência à oposição de ambas como duas funções irredutíveis”.

O autor critica também os conceitos de Durand, afirmando que, apesar este ser discípulo de Bachelard, admite a possível passagem do imaginário à inteligência, porém “privilegiando o conhecimento por imagens”. Malrieu afirma que “a representação que G. Durand dá do imaginário está dominada pela função que ele lhe atribui: ‘o símbolo surge como restabelecimento do equilíbrio vital comprometido pela inteligência da morte” (MALRIEU, 1996, p. 228). Malrieu (1996, p. 228) entende por isto que é ilusório buscar compreender o imaginário através da história, já que “o único poder da história consiste em ‘legitimar esta ou aquela adaptação do comportamento, da percepção ou das técnicas’, o que torna a história incapaz de “explicar a força fundamental dos símbolos que é a de unir, para além das contradições naturais, os elementos inconciliáveis, compartimentações sociais e as agregações dos períodos da história” (DURAND apud MALRIEU, 1996, p. 228-229).

Outra crítica de Malrieu (1996, p. 229) à Durand é a sua substituição do método genético para o método da convergência. Através desta substituição, Durand “prolonga o pensamento mítico, [...] biológico, lógico, arquetípico”, classificando-os “num sistema de categorias fundamentais, transcendentais, que permite afirmar a permanência do pensamento mítico, a universalidade dos arquétipos”. Essa classificação organiza os símbolos em três comportamentos: “postural, nutritiva e sexual” (DURAND apud MALRIEU, 1996, p. 229), sendo que os arquétipos integrar-se-ão em um destes tipos de comportamento, que correspondem a “dominantes naturais e culturais (esquizomorfa, sintética, místicas)”. O que Malrieu (1996, p. 230) argumenta sobre a teoria de Durand é que não há “qualquer clivagem possível” entre tais estruturas, sendo que seria necessário, então “apelar para a arbitrariedade” para conseguirmos localizar uma correspondência entre elas.

Para Malrieu (1996, p. 230) a correspondência entre as estruturas pode ser plausível, entretanto, “nem sempre estão inscritas na realidade sociológica”. Também considera o método estrutural de Durand indispensável, argumenta, porém, que “ele apenas pode ser útil se as diferenciações e as categorias que puser a descoberto se situarem no interior de uma totalidade de comportamentos sociais realizados”, identificados através da análise comportamental dos homens que vivem em tal sistema, e não “a partir de uma sistematização hipotética”.

Outra crítica que Malrieu (1996, p. 230) defere contra a teoria durandiana é com relação ao seu “estatismo”, alegando que Durand optou pela “teoria do eterno retorno” (alternância entre o regime diurno e o regime noturno da imagem) ao invés “perspectiva evolucionista”. Esta escolha inquieta Malrieu (1996, p. 231) que se pergunta: “será possível acreditar que não haja uma transformação dos comportamentos da imaginação em função dos contextos culturais em que os mesmos se inserem?”. O autor afirma então, que o psicólogo deve buscar “atingir a construção das estruturas”.

Malrieu (1996, p. 231) observa que o imaginário introduz as quatro características da base da atividade intelectual, ou seja, “a representação, a analogia, a metáfora e a comparação geradora de questões”, isto porque o “conhecimento imaginativo” não está longe, ou alheio ao “conhecimento intelectual”, pelo contrário, ele lança seus fundamentos. Para o autor, o imaginário é ambíguo porque descentra, mas também se concretiza “por meio de um processo de projeção que culmina, não apenas no sonho, mas nas formas mais nobres, mito ou arte, numa situação irrealista do sujeito” (MALRIEU, 1996, p. 237-238). Contudo, o que o autor sublinha como a função essencial do imaginário não é “desrealizar-nos”, colocar-nos às margens do real, mas sim, ser, “sempre um pouco, instrumento de adivinhação”. O autor justifica tal concepção:
o sonho, mesmo quando não é considerado premonitório, é inspecionado com curiosidade. [...]

A obra de arte interessa-nos porque nos ensina o que poderíamos ou teríamos podido fazer com os nossos sentidos, a nossa sensibilidade, a nossa vida. E não há necessidade de insistir sobre esta função do mito (MALRIEU, 1996, p. 238).
Como sublinha Malrieu (1996, p. 238) o imaginário é um fator de superação e de procura. Ele está longe de constituir-se como uma manifestação da irrealidade pura e simplesmente, pois sua irrealidade “é o ponto de partida para uma nova ‘retoma’, a partir do momento em que o sujeito tenha consciência dela, por mínima que esta seja opondo-se ao conhecimento objetivo que foi capaz de conquistar”.


Mito em Philippe Malrieu

Para Malrieu (1996, p. 105), como já citamos anteriormente, o mito é um dos três comportamentos que constituem o imaginário, juntamente com o sonho e a arte. Ao explanarmos sobre o conceito de “imaginário mítico ”, afirmamos que, na teoria de Malrieu (1996, p. 61), o imaginário é um conceito pobre, que precisa ser enriquecido e regulado pelo mito, para tornar-se assim, modelo de conduta social. Por outro lado, o referido autor também afirma que o “mito” tampouco “sobreviveria sem as emoções individuais” (MALRIEU, 1996, p. 105-106). Neste contexto, compreendemos que o imaginário e o mito enriquecem-se mutuamente, necessitando um do outro para sobreviver.

O mito, na concepção do autor, tem uma profunda relação com o passado e o futuro, pois este recupera o passado ao mesmo tempo em que efetua uma abertura para o futuro, isto é, para Malrieu (1996, p. 135) “o futuro está implicado na repetição do passado dos heróis”. Malrieu (1996, p. 162) nota, assim como nós (pois este é um dos motivos por debruçar-nos sobre este trabalho), a perpetuação de alguns mitos através das gerações, fato que, de acordo com o autor, vem sendo amplamente pesquisado. Malrieu (1996, p. 162) precisa esta afirmação ao dizer que o mito “fixa a personalidade em quadros que orientam o conjunto das suas condutas”. Nas palavras do autor, “o aspecto mais evidente do mito é, pois, a fixação ao passado” (MALRIEU, 1996, p. 162). O mito também “presentifica o futuro no ato propiciatório simbólico, ao mesmo tempo em que faz o mesmo em relação ao passado, dado que este ato repete um ato de fundação ancestral” (MALRIEU, 1996, p. 172).

As experiências pessoais e a tradição revivificam e reforçam o mito (MALRIEU, 1996, p. 75). É nele que o homem irá encontrar o sossego de que necessita, pois o mito possui uma função afetiva que o preenche, reconciliando a natureza e a sociedade (MALRIEU, 1996, p. 74). Ainda, na concepção do autor, “o mito e a educação devem, indubitavelmente, ser concebidos como sendo os efeitos de uma estrutura social geral, comandada pelas exigências da adaptação ao mundo” (MALRIEU, 1996, p. 163).

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