Amor, Poesia, Sabedoria

by - janeiro 06, 2012



     Morin, Amor, poesia e sabedoria: assuntos que particularmente me interessam. Aliás, amor, poesia e sabedoria são assuntos muito interessantes, refletivos por um dos autores que mais gosto. O livro é bem fininho, tem 68 páginas e muito bom de ler. Consegui ler e resumir ele em duas horas. 
  O autor inicia seu livro afirmando: "Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor, em carregar consigo uma fonte permanente de delírio; em crer na virtude dos sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação" (p. 07). Morin afirma que a razão tenta excluir, afastar a loucura, mas é através da loucura, dessa desordem de sentimentos e de afetividades, é através destas irrupções do imaginário que há "élan, criação, invenção, amor, poesia"  (p. 07).
   No amor, por exemplo, "loucura e sabedoria não são inseparáveis, mas se interpenetram mutuamente". O autor afirma ainda que, "se o amor expressa o ápice supremo da sabedoria e da loucura, é preciso assumir o amor" (p. 9). 
   Morin argumenta que o amor é um sentimento único, é uma tapeçaria de fios de afetividade. Ele não pode ser racionalizado, o amor não pode ser medido nem calculado, muito menos controlado. Para o autor, "o amor, mesmo que decorrente de um desenvolvimento cultural e social, não obedece à ordem social: quando aparece, ignora barreiras, despedaça-se nelas ou simplesmente as rompe" (p. 23). Afirma ainda que há tragédia no amor, também, porque as pessoas confundem o sentimento com o desejo carnal. Para Morin, "o verdadeiro amor se reconhece naquilo que sobrevive ao coito, enquanto que o desejo sem amor se dissolve na famosa tristeza pós-coital" (p. 23). 
   Morin afirma que a diferença entre fazer amor e procriar, começou quando nossos antepassados deixaram de realizar o coito por trás, assim como os animais, pois a relação face a face foi o que trouxe o olhar amoroso à relação, aquilo que existe, além do desejo de procriar.  Os casais também começaram a exercitar o beijo, que para o autor, é "um analogon da fusão física [...] e representa a fusão de duas respirações, que é também uma fusão de almas" (p. 26). 
    Sabiamente, o autor não acredita na divisão entre homo sapiens e homo demens, entre a razão e a loucura. Para ele, o amor é  "o ápice da união entre loucura e sabedoria" (p. 28). Por isso, não somos apenas loucos, ou apenas sábios, somos os dois, ou seja, apaixonados. 
     Percebi muita veracidade, quando o autor argumenta que "[...] projetamos sobre o outro nossa necessidade de amor, fixamo-lo e o amadurecemos, ignoramos o outro, transformando-o em nossa imagem e totem. Efetivamente, aqui reside uma das tragédias do amor: a incompreensão de si e do outro" (p. 31).  O verdadeiro amor é a descoberta do outro. Muitas vezes, idealizamos, projetamos pessoas que não existem, pois queremos amar aquela imagem perfeita, construída em nossa cabeça, e com isso, acabamos ignorando o verdadeiro "eu", do outro. Amar é amar a pessoa, conhecendo-a, sabendo seus defeitos, suas manias, seus erros, e mesmo assim, ter plena consciência de que o melhor lugar do mundo é ao lado dela. 
    Morin cita Fernando Pessoa ao falar de poesia, afirmando que o poeta português argumenta que possuímos dois seres (para Pessoa, um verdadeiro e um falso, para Morin não), um ser do sonho, que nos acompanha desde a infância, e outro ser que é o das aparências, dos gestos, dos discursos. Somos seres duplos, e desenvolvemos nossa inteligência, a partir do desenvolvimento de nossas afetividades. 
   O autor questiona-se: "o que é uma vida racional? Não existe nenhuma critério racional para defini-la. (p. 54). "O que é a vida? A vida é um sentido mesclado ou alternativo de prosa e poesia" (p. 58-59). Resumindo, "a poesia é a estética, o amor, o gozo, o prazer, a participação e, no fundo, é a vida!" (p. 59). 

     Enfim, amor, poesia e sabedoria se mesclam, se fundem e se necessitam. O amor é a união entre loucura e sabedoria. A poesia só existe porque existe a prosa, bem como só existe o mal, porque existe o bem. Só sabemos que somos felizes, quando conhecemos a infelicidade. Alías, infelicidade é um mundo sem amor, poesia, sabedoria e chocolate. 

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