O instante eterno
Instante eterno. Eterno instante. É sobre essa sequência de momentos que compõe a nossa vida que Maffesoli (2003) decorre cerca de 200 páginas. Esta busca pelo gozo momentâneo, essa perca de alguns valores que ficaram nas gerações passadas, é o que Maffesoli observa com total destreza e propriedade de assunto. Crenças momentâneas, ídolos momentâneos, paixões momentâneas, crenças momentâneas.... O valor dado ao "aqui e agora", ao efêmero. E então, nos perguntamos: o que ficará para a posterioridade? Não cabe aqui encontramos a(s) resposta(s), mas talvez, através das palavras de Maffesoli, conseguimos compreender melhor do que se trata essa tal "pós-modernidade".
O cotidiano é o verdadeiro princípio da realidade, ainda melhor, da surrealidade. 7
Digamos categoricamente: com a sensibilidade trágica o tempo se imobiliza ou, ao menos, se lenteia. 8
A vida não é mais que uma concatenação de instantes imóveis, de instantes eternos, dos quais se pode tirar o máximo de gozo.
Presenteísmo
[...] a pós-modernidade nascente –, o que está em jogo são grupos, “neotribos” que investem em espaços específicos e se acomodam a eles. 8
É isto o que importa aqui: assinalar a passagem de um tempo monocromático, linear, seguro, o do projeto, a um tempo policromático, trágico por essência, presenteísta e que escapa ao utilitarismo do cômputo burguês. 9
Os bens intencionados, hoje em dia, chamaram a isso “globalização” ou “mundialização”. Sem se dar conta, desconectados com estão da surrealidade societal, de que tudo isso é pura abstração, limitada à ordem econômica ou política. 9
Além da aparente uniformização “mundializante”, é surpreendente constatar a multiplicidade de atividades, de centros de interesse, de mestiçagens de toda ordem, de diversos sincretismos religiosos, filosóficos, musicais. 10
“Sinergia do arcaísmo e do desenvolvimento tecnológico.” É a única definição que me permite dar conta da pós-modernidade. 10
Não esse o traço que caracteriza o corporeísmo místico das novas gerações, seu presenteísmo que corre paralelo com inegáveis formas de generosidade, seu hedonismo profundo que concorda facilmente com o sentido das realidades não menos evidente, seu surpreendente mimetismo tribal conjugado com a busca furiosa da realização pessoal? 11
[...] uma sucessão de instantes eternos. 12
Os proprietários da sociedade se empenham em minimizar as forças nascentes, que se arriscam a tomar seu lugar, mostrando o aspecto obsoleto de seu discurso e de sua ação. 13
Os videoclipes, a publicidade, os jogos de informática, as diversas formas de “ciberespaço” o mostram de sobra; entramos, novamente, no tempo do mito. O reencantamento do mundo provém da conjunção do cavaleiro de nossos contos e lendas e do raio laser. Sabendo ou não, os mitologemas que veiculam esses heróis paradoxais da pós-modernidade são esses, iniciáticos, de provas, da queda, dos castigos e da reintegração. Isso é o que dá o aspecto incisivo de que falei. 14
O mito está no domínio das identificações múltiplas [...] Não tem identidade definida, daí a impossibilidade das definições a priori, ou dos conceitos assegurados pelos que enlouquecem o pensamento moderno: da História, da política e do social racional. 15
À “repetição perfeccionista” (G. Durand) do Mito responde a redundância perfeccionista das análises e das ilustrações propostas. É a única maneira, em minha opinião, de ser coerente com o retorno cíclico do que chega, ou seja, do que foi e é de novo. 15
I – Uma vida sem objetivo
Assim, as sociedades tradicionais privilegiam o passado. A modernidade, como todas as épocas progressistas, o futuro. Outras civilizações, como a decadência romana ou o Renascimento, acentuaram mais o presente. 17
Oriente e Ocidente “míticos”, que põem em jogo sensibilidades existentes radicalmente alternativas.
A realização, individual ou social, é uma conquista. 17
Às vezes, pelo contrário, predomina uma concepção cíclica do mundo. Concepção que acentua a proximidade desses dois aspectos. Ou, como ressalta G. Durand, o “trajeto” que os une. 18
Integrar homeopaticamente a morte é o melhor meio de se proteger ou, ao menos, de se tirar proveito. 22
[...] o importante é identificar essas coisas primeiras, esses arquétipos, que podem ser mais ou menos visíveis, mas que ao menos constituem invariantes antropológicas. Para retomar um esquema que apliquei ao mito dionisíaco, eles podem ser secretos, discretos ou exibicionistas. A relação com a fatalidade é um deles. Arraiga-se profundamente nas histórias humanas, e se expressa, no dia-a-dia, em numerosas práticas contemporâneas. 22
Porque há [...] uma forte ligação entre o trágico e o hedonismo. Um e outro se dedicam a viver, com intensidade, o que se deixa viver. A vida é vivida sob uma forma de avidez. 23
Mesmo se esse tudo não for grande coisa, mesmo se esse tudo, seja religioso, cultural, técnico, econômico, se tornar rapidamente obsoleto. Essa avidez é que permite compreender o predomínio da “moda” de tudo, ou ainda, a surpreendente versatilidade que marca as relações políticas, ideológicas, vias afetivas, constitutivas do laço social. 23
[...] podemos dizer que a teatralidade cotidiana, a busca do supérfluo, inclusive do frívolo, certamente a importância dada ao carpe diem, sem esquecer o culto ao corpo sob suas diversas modulações, tudo isso é a expressão de tal consciência trágica. 25
[...] o nomadismo ambiente traduz bem o retorno dos bárbaros aos nossos muros, isso significa a fragmentação do universo policiado, ordenado pacientemente por três séculos de modernidade. 25
A cultura do prazer, o sentimento do trágico, o afrontamento do destino, tudo isso é causa e efeito de uma ética do instante, de uma acentuação das situações vividas por elas mesmas, situações que se esgotam no ato mesmo, e que já não se projetam em um futuro previsível e dominável à vontade. 26
O Retorno Cíclico
Para retomar a oposição modernidade/pós-modernidade, podemos dizer que, na primeira, a história se desenrola, enquanto que na segunda o acontecimento advém. Ele se intromete. Ele força e violenta. Daí o aspecto brutal, inesperado, sempre surpreendente que não deixa de ter. 26
Esse retorno ao antigo, ao arcaico, é próprio da pós-modernidade. Como se, além de um parênteses, para bem e para mal, no cotidiano, ou no paroxismo, de uma maneira suavizada ou, ao contrário, nos excessos destrutivos, encontrássemos o aspecto sublime da beleza do mundo. 28
Marx assinala que os homens fazem história sem saber que história fazem.
[...] os campos de concentração não foram senão a forma paroxística desses “campos” que são as sociedades contemporâneas, onde a obrigação “fazer” isto ou aquilo, seu trabalho, seu dever político ou conjugal, a educação de seus filhos, suas vocações, etc., transforma uma liberdade ilusória em uma escravidão real, a dos “tempos modernos”. 28
Pode ser assim que passamos do “domínio” hegeliano-maxista próprio da modernidade ao que Bataille chama “soberania”, que funciona sobre a reversibilidade estrutural, e que seria as marcas dos períodos pré e pós-modernos. 29
[...] todo o mito de Édipo está construído sobre uma “necessidade” semelhante, com as conseqüências paroxísticas que já sabemos. 31
[...] o livre arbítrio, a decisão do indivíduo ou dos grupos sociais que atuam de comum acordo para fazer a História, cuja conseqüência é o grande fantasma da universalidade.
Enquanto expressões de mitologia contemporânea, os filmes de ficção científica, numerosos videoclipes, às vezes a publicidade, fazem ressurgir essa relativização do livre arbítrio pela “força” supra-individual.
Atravessa o imaginário social, assegura o êxito dos espetáculos folclóricos e das constituições históricas, lança multidões aos lugares de peregrinação, e triunfa em romances iniciáticos. 31-32
Em uma observação plena de perspicácia, Gilbert Durand sublinha que as grandes figuras trágicas, como Dom Giovanni, tornam-se puros “objetos”. Mais objetos do que sujeitos, dado que não existem a não ser na mente dos outros, tornam-se “tipo-ideal”. 33
Em última instância, cada tribo pós-moderna terá sua figura emblemática [...].
Notemos, ademais, que esses arquétipos retomam força e vigor ao mesmo tempo em que se afirma o ambiente trágico do momento. Há aqui uma correlação que merece atenção. 33
Ironia do trágico, ou “artimanha” do imaginário coletivo, que restituiu ao circuito social essa dimensão numinosa [...]. 35-36
As figuras arquetípicas procedem sempre por redundâncias, fazem sempre referencia a um tempo mítico, que não se pode datar, o de nossos contos e lendas: “naquele tempo...”
Lévy-Strauss e Gilbert Durand insistiram, no vigor, neste aspecto: a repetição e a “bricolagem” correlatas às grandes obras espirituais da humanidade. 38
Tendo em mente a redundância o mito e a repetição nas criações cotidianas, sem esquecer que está em prática na vida corrente, compreenderemos a íntima emoção exposta na familiaridade dos fenômenos, das situações, das idéias, etc., que se repetem com regularidade. 38
A metáfora do “costume”, sobre a qual Deleuze se propôs a refletir é uma maneira de atualizar a pregnância do hábito. 38
A relação com a política é certamente a manifestação mais nítida de uma mudança semelhante de paradigma. 39
Santo Agustinho: “a medida do amor é amar sem medida”. 41
O sentimento trágico da vida, reconhecido ou não, consciente ou inconsciente, recorda que a monotonia cotidiana corre junto com aberturas que a iluminam periodicamente. 41
De fato, é preciso insistir nisso, há momentos em que a grande História dá lugar às pequenas histórias vividas no dia-a-dia. Nesses momentos, a História se esgota nos mitos. 43
Nietzsche insistiu com freqüência neste ponto: ao dizer sim “em um só instante dizemos sim, por aqui, não somente a nós mesmos, mas a toda existência”. Em um só instante, prossegue, todas as eternidades se expressam. Aceitando um só instante, toda a eternidade se encontra aprovada, redimida, justificada e afirmada. 46
Sucessão de agoras
Aqui e agora, uma paixão amorosa, Goethe “instante resplandeceste de perfeição”. 47
Tudo isso expressa o prazer do instante: a quase consciência do trágico no dia-a-dia e, ao mesmo tempo, porque esse trágico é sentido como tal, o desejo de aproveitar o que é naturalmente efêmero. 48
Da mesma maneira, os historiadores da arte têm assinalado por que esta ética do instante era uma característica essencial do mito dionisíaco. Como W. Pater, que associa os versos de Word Sworth ao frágil esplender de Dionísio. 48
Nas relações inter-individuais, os psicólogos mostram que se fala de um sentimento quando esse já não existe mais ou está bem atenuado. É a prática conhecida do encantamento. 49
É exatamente esta a lição do mito dionisíaco: sob suas diversas formas, o carpe diem.
Então encontramos no tempo do mito feito de repetição, tempo para o qual o passado nunca está morto, para o qual ele nunca é o passado.
Mas tal repetição, assinatura do mito, como bem mostraram C. Lévy-Strauss e G. Durand, é amplamente vivida de modo empírico. Redundância das conversações. 49
A vida ordinária como destino 50
Tese sobre a filosofia da história de Walter Benjamim, [...] a realização plena consiste em passar da “pura possibilidade” à “eterna atualidade”. Eis aqui a força natural do instante eterno! 51
Visão mítica. 51
A imagem, no que representa diretamente, e como disse mais acima, “atualiza”. 52
“vida imediata” 53
E é isso que necessita de amor, ou seja, de intensidade. 53
Podemos dizer que a filosofia do devir cede então, lugar a uma antropologia do ser; ou ainda, para retomar uma expressão de Gilbert Durand, à abstração da história sucede a “porção do presente”, a duração concreta. 54
Com efeito, é esse mesmo ambiente presenteísta, assim compreendido, que permite o conhecimento de si e o conhecimento do outro. Não é esse o ponto, strictu senso, o símbolo? Conhecer-se e reconhecer o outro, não mais como entidade abstrata, autônoma, puramente racional – a do indivíduo moderno, separado da natureza, distinguido de seu vizinho, e que faz desta separação e distinção o fundamento da lógica da dominação e do domínio que conhecemos bem – mas, pelo contrário, conhecimento e reconhecimento vividos pela pessoa em seu quadro comunitário: o do grupo, da tribo, o das “afinidades eletivas”, todas as coisas que nos fala a tradição, e que parecem renascer ante nossos olhos. É isso mesmo o que dá ao presente sua identidade trágica. 55
Poesia, certamente, não é reivindicada enquanto tal, mas que se encontra presente na ironia para com toda instancia dominante, no humor próprio das múltiplas discussões anódinas ou, em especial, nessas comunicações não verbais pelas quais se expressam a paixão social. 56
R. Caillois fala, em outro contexto, da “aventura da monotonia”. A expressão é bem-vinda para descrever esse conservatório que é a vida de todos os dias. 57
Por paradoxal que possa parecer, a acentuação do presente não é mais que outra maneira de expressar a aceitação da morte. Viver no presente é viver sua morte de todos os dias, é afrontá-la, é assumi-la. Os termos intensidade e trágico não dizem outra coisa: só vale o que sabemos que vai acabar. 58
A morte e o presente estão no coração de numerosos fenômenos contemporâneos. 59
Com efeito, desde o momento que construímos sua existência como uma obra de arte, ou seja, como algo global, a vida contém seu contrário e se consagra a se ajustar a ele.
A isto remete o presenteísmo e sua encarnação na vida ordinária: uma espécie de intensidade que, consciente ou quase consciente da precariedade das coisas, se consagra a gozar ao máximo e o mais rápido possível, hic et nunc. 59-60
Curioso retorno, que faz com que, após a dominação exclusiva do modo de ser e de pensar ocidental, sustentada pela concepção de tempo linear, sejam agora os “Orientes míticos” os que se vingam e impõem, pela acentuação do presente, uma presença no mundo, em seus prazeres, em suas alegrias, mas também em suas crueldades e em suas penas. 61
O instante eterno
Nos sonhos, as imagens penetram o inconsciente individual, forçando, de alguma maneira, o indivíduo a “explodir”, ou seja, a sair da temporalidade linear e racional que caracteriza a atividade diurna. O mesmo ocorre nos sonhos de massa [...]. 61
A imagem arquetípica cristaliza as diversas facetas da tríade temporal. É nesse sentido que é interrupção, suspensão do tempo. 61
Há na imagem cotidiana, na imagem arquetípica, uma dimensão trans-histórica. 62
Se me faço entender bem, a “régrédience” é uma maneira homeopática de viver sua morte todos os dias. Uma expressão muito conhecida e analisada a resumo: é o ritual. 63
Seja esse o grupo primário, a tribo afetual ou a sociedade contratual, não há dúvida de que só há ritos coletivos. 64
O tempo individual não tem existência mas que sob o modo da participação de algo que o supera. Memória coletiva, esperanças comuns, recordações comunitárias, tudo o que constitui o tempo é qualquer coisa menos individual. 64
Pondo em curto-circuito o tempo linear, o ritmo redinamiza a presença no mundo, favorece a contemplação, ou seja, a apreciação deste mundo tal como é, tal como se dá a viver aqui e agora, no cotidiano. 64-65
Repetir faz entrar em um tempo mítico ou, como observou Gilbert Durand, em um “não-tempo” mítico. Acrescentarei que o redobramento é a marca simbólica do plural. Por isso, cada um torna-se um outro. Comunga como outro e com a auteridade em geral. 65
O rito cotidiano introduz então a um não tempo: da comunidade.
A repetição natural, a rotina cotidiana são maneiras idêntica de expressar e de viver o retorno do mito e, portanto, de escapar de uma temporalidade muito marcada pela utilidade e linearidade. 65
Com efeito, o próprio do “presenteísmo” é, justamente, viver de uma maneira mais global, ou seja, não considerando que há coisas importantes e outras que não são. 65-66
O ritual cotidiano, pelo próprio fato da redundância, tem sabor de trágico: eterno recomeço do mesmo, mas também um trágico fundador. Um trágico que representa o mesmo papel que o exis ou o habitus, como dizem Aristóteles e Tomás de Aquino, a saber, o que confirma a familiaridade, o mesmo plano, a proxemia. 66-67
[...] o rito não é senão o ritmo específico pelo qual o sentimento de finitude e de pertença se expressam no cotidiano.
Reconciliação da filosofia da “civilização” com a da “cultura”, ou seja, união de um pensamento progressivo com a vida orgânica de todos os dias.
Encontramos tal utopia no que podemos chamar de mundo “imaginal” pós-moderno. Ou seja, um mundo onde a imagem, sob suas diversas modulações, é o elemento essencial do laço social. Trata-se de uma utopia vivida no cotidiano, tanto é assim que a imagem é onipresente.
A imagem indica Benjamim, é uma sedimentação da história. Assim, escapamos desse famoso risco teórico que é a antítese “eternidade-história”. 67
[...] a imagem é o vetor de que chamei em outra ocasião, de uma “ética do instante” ou uma “ética da estética”. Ou seja, um laço social baseado em emoções comuns, sentimentos compartilhados, afetos postos em jogo na cena pública. Nesse sentido, a imagem põe em curto-circuito a história ou o tempo finalizado do projeto. 68
Destino e astrologia 68
O presente é privilegiado como expressão da presença da vida. Podemos resumir em uma espécie de “instante eterno”, em que a suspensão do tempo, a diminuição da velocidade da existência favorecem a intensidade, o qualitativo, o aprofundamento das relações sociais e a apreciação do mundo tal como é. 69
[...] sincretismo religiosos, relativismos filosóficos, técnicas espirituais de toda ordem, mas indício que é fácil de estigmatizar ou marginalizar. Poucos são os que, como Edgar Morin, Gilbert Durand ou Jacques Vanaise, prestaram atenção nesse fenômeno. 70
Porque estamos submetidos a influencias exteriores, porque a impermanência está então na natureza das coisas, assim como em gozar, aqui e agora, o que nos é dado viver. 73
Isso está em prática de uma maneira disseminada em todos os pensamentos ou técnicas que, mais ou menos, quase lá, se inspiram ou se referem ao Extremo Oriente, ou ao menos, a esses “Orientes míticos” (G. Durand) que constituem o espírito do tempo. 73
Capítulo III – Alegria do mundo 77
A potência do jogo 77
Experimentamos um estado de coisas que nos ultrapassam. Mas a aceitação desse estado não é, de fato, senão o reconhecimento do aspecto complexo, polissêmico, da natureza humana. 80
Breve apólogo que sublinha bem que tudo é certo, assim como o seu contrário. 81
Em resumo, são causa e efeito do jogo das aparências. Estão ligadas a situações concretas, sem nenhuma pretensão de temporalidade ou de universalidade. Esse aspecto efêmero o faz, ao mesmo tempo, intensos e excitantes. 82
Há momentos, ao contrário, em que a orgia tende a inundar o conjunto da vida social. Os sentimentos dominam a vida privada e pública, as emoções entram no passo da política, o divertimento e o culto ao corpo são unipresentes, as esterias coletivas – esportivas certamente, mas também musicais ou mesmo religiosas e consumistas – são legião. Sem dúvida, é possível – e é bastante freqüente – analisar tudo isso em termos de alienação. 83
Em certo momento, a razão pura não é uma razão suficiente. 84
A versatilidade das massas, suas adesões sucessivas a este ou aquele partido político, suas sinceridades, também sucessivas, a esse ou aquele governo, dão fé a isso. 85-86
A figura de Dionísio, certamente, na mitologia grega, da qual encontramos numerosas variantes em todas as culturas. Mas também as belas figuras do esporte, da música, que ocupam, como “notícias”, jornais e revistas. 87
É possível ver aí, no “Dionísio dos tempos modernos” (R. Scherer), a expressão de um arquétipo invariável. 87
Idêntico às bolhas do champanhe, o gozo é o indício mais seguro deste borbulhar, desta efervescência contínua que é a vida. 88
Eis aqui a lição do trágico: dar lugar à alegria demoníaca de viver. 88
Os transbordamentos podem ser considerados como um mal menor na experiência da paixão. Trata-se aqui, não esqueçamos, de uma espécie de “estrutura antropológica” de toda a vida em sociedade. 89
Ora, para compreender o mundo, a anomia está aí, de uma maneira constante, para recordar que as imagens e os sonhos são sempre os precursores da realidade. 90
[...] a ironia é uma força eficaz de resistência contra todos os poderes. Ironia e ira que Baudellaire intenta expressar “por meio de livros espantosos”, a fim, disse ele, de por a “raça humana inteira contra mim”. (baudellaireanas) 91
[...] o que chamamos de “crise” não é outra coisa senão o fato de que uma sociedade inteira já não tem mais consciência dos valores que a constituíram e, portanto, não tem mais confiança nesses mesmos valores. 92
[...] a orgia não é o resquício de uma época primitiva. É o substrato “arcaico” de todo o ser conjunto. 93
Não são, dizia ele, mais que “festejos grosseiros, orgias, bebedeiras, e tudo que se segue”. 94
Para dizer nos termos que emprega Max Scheler, estamos em confronto com uma série de “participações afetivas”, feitas de emoções, de sentimentos, iras e alegrias, compartilhadas com os de sua tribo, no quadro de uma estética generalizada. Para o melhor e o pior, “vibramos” juntos, entramos em sintonia (A. Schutz) com o outro. Participação afetiva, poderíamos dizer participação mágica ou mística, que se inscreve em uma “identificação cósmica”. 97
Essa lógica “contraditorial”, encontrada em S. Lupasco e G. Durand, permite pensar, para além do maniqueísmo ambiente, de que maneira a aceitação do mundo tal como é, com o júbilo que ele implica, participa de uma sensibilidade trágica. 98
Intemporalidade
[...] o ritmo como estabilidade e movimento, é uma maneira de trágico. 99
A História, própria da modernidade, dá lugar às pequenas histórias pós-modernas. Essas “pequenas histórias” que compartilhamos com os outros constituíam o conhecimento social dos serões de Antanho, e que voltamos a encontrar na base da sociedade contemporânea. 100-101
M. Weber: “compreender o real a partir do irreal”.
[...] “tempo einsteimizado” (G. Durand) metáfora pra designar um tempo que se contrai no espaço. 101
A nostalgia, através de suas diversas expressões, ironia, humor, pilhérea, etc., é assim o conservatório que permite viver aqui, em função de “outro lugar” mítico. 103
A nostalgia do que chamo de “país do tempo imóvel” traduz o desejo por algo que nunca existiu, algo que, portanto, está presente no imaginário social, com uma pregnância insuspeita.103
O mito do paraíso é um tema decorrente que toma as formas mais diversas. Todas as “Atlântida”, como as “utopias”, são não-lugares, países de sonhos, que surgem na confluência desses parâmetros humanos que são precisamente o onírico, o lúdico e a realidade imaginária. 103-104
Ainda que a subjetividade em questão seja individual, remete a uma espécie de subjetividade de massa: memória coletiva que expressa a partilha das emoções, verdadeiro cimento de toda sociedade. 105-106
Afrontamento do destino. Mesmo que o problema não seja formulado exatamente nesses termos, assim é sentido. Assim é que inconsciente coletivo se expressa nesta memória emocional que é o mito. 106
Capítulo IV – O mundo das aparências
Sabedoria do parecer
O “formismo”, no fim das contas, é uma boa maneira de ter os dois extremos da cadeia em questão. Nesse sentido, o estilo, a estilização podem ser as duas faces, popular e culta, de uma mesma realidade holística que une estreitamente a razão e o sensível, a luz e a sombra, ou, para citar duas figuras emblemáticas: Apolo e Dionísio. 115
É verdade que a perspectiva holística, que aceita a vida em sua totalidade, não é nada moralista. “Se esse mundo existe”, disse Gilles Deleuze, “não é porque é o melhor, mas o inverso, é o melhor porque é, porque é esse que é”. 116
Mitologia das máscaras
A especificidade do trágico é considerar a existência em sua totalidade: a luz necessita da sombra, o bem não é possível se não consentir ao seu contrário, o lugar que lhe corresponde. 116
A pessoa, em contrapartida, não é senão uma máscara (persona); pontual, representa seu papel, sem dúvida tributário de um conjunto, mas do qual poderá, amanhã, escapar para expressar e assumir outra figura. O presenteísmo é sua temporalidade. Em função dele, a aparência é acentuada. O paroxismo é, certamente, o disfarce dos grandes momentos festivos ou, o que não está muito distante, dos diversos rituais da “alta-costura”. 118
Se a aparência é o lugar do trágico, não o é do individualismo. Muito pelo contrário, simboliza para além do dualismo que conhecemos bem, a unicidade, o fato de que tudo está relacionado, a complexidade ou a reversibilidade. 118
É interessante notar que o jogo das aparências, ou ainda, dando a essa expressão toda a sua força teórica, a mitologia das máscaras, expressa-se regularmente nas histórias humanas, quando a morte, sob suas diversas modulações, se faz onipresente. 119
[...] a aparência é tudo menos individualista. Muito pelo contrário, constrói-se sob e para o olhar do outro. É nesse sentido, aliás, que remete ao simbolismo, é por isso também que podemos falar de uma mitologia da máscara. 119
De minha parte, é aquilo que chamei de “socialidade”: um ser conjunto primordial, arquetípico, que põe em cena todos os parâmetros do humano, inclusive os mais frívolos, os que ao reputados como tais, a fim de celebrar a vida, ainda que seja teatralizando a morte. 120
[...] é necessário ver e ser visto para existir. Para dizer de outro modo, não existimos senão no e pelo olhar do outro. 129
O “homem perfeito”, no imaginário social ou no inconsciente coletivo, é o que supera o homem, até integrar o que uma concepção encolhida, contábil, econômica, acreditou devolvida às trevas da natureza-objeto e do obscurantismo primitivo. 133
A característica essencial da modernidade foi, sem dúvida, ter “domesticado” o homem, ter racionalizado a vida em sociedade. Inútil voltar às análises feitas nesse sentido. No entanto, não ressaltamos o suficiente que essa “curialização” conduziu a uma assepsia de vida social. Isso mesmo o que chamei de “violência totalitária”: um corpo social totalmente desresponsabilizado, que perdeu seus modelos, seus mecanismos de defesa, e que se tornou incapaz de resistir às agressões internas e externas. 140
[...] já não podemos negar que o que eu tenho, de minha parte, chamado de “subjetividade de massa” é o que permite explicar a emergência, a consolidação e, em seguida, a saturação dos diversos mitos sociais sobre os quais se fundam, por um tempo determinado, as diversas sociedades das quais a história nos conta a sorte e a desgraça. 143
A Razão, a propósito, já não é a deusa única que devemos celebrar, mas ela deve aceitar compor o panteão social com outras entidades que veneramos, o corpo, a imaginação onírica, lúdica, e que tem, sobretudo, uma eficácia existencial e concreta, cuja importância não podemos negar. 146
O mito, qualquer que seja, é o fundamento necessário de todo ser-conjunto. Podemos, aliás, notar que há crise durante os períodos de interregno. Assim, para nós, saturação do mito progressista, democrático, sem que outro mito alternativo tenha ainda surgido. 146
É, pois, para captar em seu estado nascente o mito pós-moderno, que é importante delimitar bem o aspecto heróico da vitalidade sempre e de novo renascente, e do vitalismo que lhe serve de expressão teórica. Isso certamente não é, como é freqüente classificar, irracional. Digamos que expressa as modalidades do humano que não podemos encerrar no que foi o racionalismo instrumental moderno. 146
[...] só há vontade coletiva, força interior, mito vivido em comum, se houver afeto compartilhado. 147
Mostrei, em um livro anterior, como o “exílio e a reintegração” são os dois pólos da tensão existencial. Trata-se, sem dúvida, de mitologemas estruturais, mas vividos através de múltiplas notícias que aparecem frequentemente nos jornais, que encontramos na nossa vida afetiva, nos romances para empregadinhas, nas obras cinematográficas, assim como nas obras-primas encontradas na literatura de todos os tempos. 149
[...] a estabilidade pela transformação. Transformação do sujeito, decerto, o que C. G. Jung mostra perfeitamente. Mas também transformação antropológica, iniciática, o que G. Durand ressalta com veemência. 149
Experiências místicas, criações artísticas, emoções estéticas ou a vida de todos os dias somam-se, frequentemente, para demonstrar que a vida e a morte estão intimamente misturadas e atingem a renovação de tudo. 149
Transfiguração da vida: passagem de figura e figura, o que lhe assegura, em última instância, uma inegável eternidade. 150
Podemos dizer, retomando o mitologema do exílio, que a aceitação do trágico cotidiano é a melhor maneira de resistes às diversas imposições políticas, econômicas e sociais que constituem a vida das sociedades. 150
[...] a publicidade [...] para muitos, é a mitologia do mundo contemporâneo. Porque é exatamente isso o que está em jogo. A história moderna simplifica, a mitologia moderna complexifica. 154
A introdução da tecnologia na vida cotidiana mostra bem como os valores proxêmicos, domésticos, banais, recebem ajuda da “cibercultura”. O imaginário, a fantasia, o desejo de comunhão, as formas de solidariedade, as diversas ações de caridade encontram, na Internet e no “ciberespaço” em geral, vetores particularmente eficientes. Mas o que expressam esses fenômenos senão a antiga preocupação simbólica que, desde sempre, tem configurado o imaginário do homem que vive em sociedade? 154
O presenteísmo e a sensibilidade ecológica, sob suas diversas manifestações, em particular juvenis, dão prova do fim das diversas atitudes projetivas e/ou políticas. 156
Seria fácil ver em que sentido tal “força” anônima está efetivamente presente no contemporâneo, e como, dessa forma, traduz o retorno do selvagem. O selvagem dos diversos relatos “mitológicos” da publicidade, o selvagem musica onipresente na vida cotidiana, o selvagem na utilização dos elementos naturais, enfim, o selvagem na criação artística, como na criação da vida corrente, convocam o animal que dorme, com um olho só, em cada um de nós. 161
[...] o individualismo é a marca da modernidade. 163
Faz tempo que chamei a atenção para a “correspondência” natural e social que “quebra” o certo do próprio corpo coletivo, participar de um espaço mais amplo. Isso, em muitos aspectos, permite superar o que Gilbert Durand chama de “estrutura esquizomorfa” do Ocidente. É o que permite delinear os problemas em termos de relações. 164
Estejamos consciente ou não, a figura emblemática de Dionísio, o deus terreno, natural, é onipresente na vida social. 167
Dionísio o mais “oriental” dos deuses gregos. Dionísio, deus da ambígua sexualidade. 168
G. Durand mostra a relação existente entre os símbolos da água, a feminização, a pilosidade e a natureza ou a animalidade. É o “complexo de Ofélia”, de G. Bachelard: a cabeleira flutuando à vontade da água. Remeto a essas análises, as mais prospectivas possíveis, para compreender a mudança em questão. 168
Vida e morte conjugada e aliadas ao grande todo, à Grande Mãe, cujas guardiãs são as bacantes dionisíacas, modelos do princípio feminino. 170
Há aqui uma espécie de indistinção, que convém compreender em seu sentido mais forte, e que resulta no que Mircea Eliade chama, no mais próximo de sua etnologia, de “androgenia divina”. “Forma arcaica da bi-unidade divina”, ele acrescenta, uma maneira de “cosmizar” a experiência individual, de favorecer a “coincidência dos contrários”, e de integrar cada um na ordem das coisas do mundo. 173
Dionísio, deus das mulheres, deus introduzido pelas mulheres na cidade de Tebas [...] pode ser considerado como o símbolo da feminilidade escondida, que dá sentido ao universo. 176
Mas, como indica o próprio Santo Agostinho, é uma árdua tarefa destruir os ídolos que a humanidade leva em seu coração. E, às vezes, estes ressurgem. 178
É o tempo dos “pequenos deuses”. 181
[...] já não haverá uma separação estrita entre objeto e sujeito, o que é a tese, essencial, da filosofia ocidental, mas um ir e vir entre estes dois pólos: o “trajetivo” oposto ao simples subjetivo ou objetivo, um “trajeto antropológico” (G. Durand), como elemento fundador da relação com o mundo. 182
[...] tribos urbanas: estas, tenho dito, comungam ao redor de um totem. E é essa comunhão que permite que a monotonia da vida cotidiana seja um verdadeiro conservatório, permite durar no ser. Daí a importância dos rituais, dos signos de reconhecimento, das práticas lingüísticas específicas, que são novas éticas, cimentos de laço social. 182-183
Depois de alguns séculos dominados pela História, e suas conseqüências “extensivas” (política, economia), voltamos a viver o que é da ordem do intensivo, da intensidade ligada ao espaço. 184
No primeiro caso, a História é o vetor da emancipação social. No segundo, o Território é o receptáculo de um destino coletivo. 188
O trágico gera identificação. 189
O indivíduo moderno, autor da História, é uno, indivisível. A pessoa pós-moderna, confrontada pelo destino, não pode estar limitada ao pequeno eu produzido pela crispação egocêntrica, que foi a marca dos dois ou três séculos que acabaram de transcorrer. 189

1 comentários
Ótimo post. Ainda não tinha encontrado uma resenha de instante eterno.
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