Os órfãos de Jânio

by - janeiro 06, 2012


     Confesso que nunca li nada escrito pelo Millôr Fernandes. Iniciei nessa empreitada, depois da dica de uma amiga sobre o livro Os órfãos de Jânio, um livro escrito para a realização de uma peça de teatro. E este é exatamente o gênero do livro, que não apresenta uma narrativa canônica, mas segmentada entre diálogos de personagens, intercalados entre si, e que nem sempre, possuem ligação uns com os outros. Achei muito interessante o título e a proposta da peça, que não se intitula uma peça política, mas segundo o autor, deixa qualquer peça política parecendo uma peça infantil. 
   Millôr argumenta que esta é uma peça que fala sobre a "falência das ideologias", que trabalha sobre a "inutilidade das teorias". Apesar de seu forte conteúdo político, o autor diz que isso não é o mais importante, pois "esta é, basicamente, uma peça sobre a angústia humana". 

A peça acontece com os personagens: 
Barman – Negro. Um símbolo quase silencioso. O Autor?
Conceição – Branca. Uma funcionária pública que amava Jânio.
Beto – Negro. Um cantor que esteve lá em cima. (Apesar de suas afirmativas, não deve ficar definido se é homossexual, ou não. Atitudes agressivas, vagos maneirismos.)
Nelita – Branca. Uma moça que se emancipou. Ainda usa alguns colares e anéis, restos do tempo em que foi “A Rainha dos Berloques”.
Carlos – Branco. Jornalista, isto é, prisioneiro de uma profissão excessivamente vulnerável.
Gilda – Branca. Uma diletante que já mais entendeu bem o enredo. Apenas uma, da turma.

     Interesso-me especialmente por Conceição, a simples funcionária pública que possui amor e adoração pelo (ex) presidente Jânio Quadros. Vejo que no Brasil existem muitas "Conceições", e Millôr soube mostrar com seu humor "prafentex", uma crítica à esta idolatria política. 

As palavras da Conceição: 

     Agosto é fogo. Pela primeira vez eu fui pro Ministério com aquela roupa que o presidente tinha recomendado – e ele próprio usava! Uma idéia muito socialista, mas coisa descontraída, tropical, nada daquele uniforme chinês que é uma pobreza. O presidente tinha pegado a idéia na Índia, não, no Egito – ele era tarado pelo Nasser: eu era tarada por ele. Tudo que ele fazia eu estava de acordo – fiquei de acordo até quando, lá no Palácio Alvorada, ele mandou o Zé Aparecido botar a mala do governador Carlos Lacerda no meio da rua – e eu era fanzíssima do Lacerda! Tinha colegas que achavam ridículo. Presidente não deve se meter em certas coisas. Eu acho que presidente tem que se meter em tudo. Ele é o pai de todos nós. Jânio era. Eu assisti ele na televisão, com o Estado de S. Paulo na mão – isso, no tempo em que os Mesquitas mandavam no país: o Estadão falou, tá falado. Mas Jânio não via cara: mandou brasa nos Mesquitas, explicando pra gente que aquele montão de papel cheio de anúncios era tudo subsidiado! Tudo pago pela gente. Uma pouca – vergonha. Olha: pra ser presidente da República tem que ser macho. É por isso que eu sou contra mulher em política. (p. 5)  

Jânio era macho. Levantava às 5 da manhã e lia todos os jornais – não era recorte não; com ele não tinha esse negócio de sinopse! Lia tudinho enquanto tomava café. E tacava bilhetinho pra todo mundo: ministro, general, embaixador, pra Deus e o diabo na terra do sol. Agora, tudo no devido respeito. E com português perfeito, chamando todo mundo de V. Excelência.

    Eu sei do que tou falando; minha maior emoção foi no dia em que meu chefe me disse: “Dona Conceição, o presidente mandou um bilhetinho pra senhora”. Achei que era trote. Todos sabiam que eu adorava ele. Mas, quando vi o timbre do papel, meu coração saltou pela boca. Comecei a suar e a tremer. (p. 5)

      As duas maiores emoções da minha vida – essa e a outra, naquele dia calorento de agosto de 1961, quando seu Pelé, o pretão enorme, chefe da limpeza, entrou na minha sala, quase branco, e gritou pra todo mundo: “O presidente se matou!”. (p.5)

     Alguém tinha misturado a renúncia de Jânio com o suicídio de Getúlio e seu Pelé gritava que Jânio tinha estourado os miolos. Mas, no arquivo, o rádio tava dando tudo. Eu não entendia é por que ele estava preso em Cumbica; não tinha renunciado? Era crime? Todo mundo fazia declarações cívicas, estavam procurando o vice-presidente na China – o que é que o vice estava fazendo na China, Deus do céu, na hora em que o presidente mais necessitava dele? O negócio é que a essa altura já tinha mais de mil urubus voando em cima da carniça do poder – tinha os milicos, tinha o cunhado do Jango, tinha as multinacionais e, como sempre, tinha o Tancredo Neves. (p. 6-7)

     Tinha gente que até encarnava em mim porque uma das coisas que eu mais admirava no presidente era a forma mesoclítica. Ele não perdia uma. Fui professora seis anos, português eu sei. Às vezes eu ficava ouvindo ele falar (Corrige, irônica.) ouvindo-o falar e pensava: nessa próclise ele vai entrar bem, mas nunca! Acertava todas na mosca. Como é que agora a gente pode respeitar uns politicóides que, quando falam uma frase com mais de dez palavras, o sujeito não se dá mais com o predicado? Não conseguem organizar uma frase e querem organizar o país? O mundo? Qual é? (Bebe.) São uns ineloqüentes. (p.9)

     Meu chefe, um velho de mais de quarenta anos, falou que tinham sido os comunistas, pra botar Jango no poder. Um despachante da alfândega, um antipaticão, aliás, votou contra: “É evidente que foi o complexo industrial-militar a serviço do imperialismo ianque procurando conservar os latifúndios improdutivos da oligarquia paulista. Nós sabemos”. O encarregado de Relações Públicas lembrou que Jânio Quadros já tinha renunciado uma vez, no meio da campanha: “Está pensando que vai voltar de novo nos braços do povo, mas o povo já encheu”. Mas quem me deu raiva mesmo foi o calhorda do crioulo da limpeza, um tremendo cachaceiro, que rosnou: “Não foi nada disso não, puta que pariu!” Assim mesmo; esse palavrão. (p. 10)

    Acho que o Brasil não tem é sorte. Quando o Jânio tomou posse, pareceu até que a coisa ia engrenar. Depois daquela roubalheira toda do JK – bem, não vou dizer que ele roubou pessoalmente, a gente sempre tem que dizer que o presidente é uma vítima, está mal cercado; país em que o presidente rouba pessoalmente é republiqueta. Depois do Juscelino, ter entrado o Jânio, forte, decidido, com seis milhões de votos!, eu achei uma coisa sensacional! O Jânio era honestérrimo. E impunha esse carisma. Foi com ele, aliás, que essa palavra ficou popular. Nos Ministérios, ninguém levava mais nem um clip pra casa. Antes sumia até aparelho de ar-condicionado. E, de repente, tum!, tudo acabado. Um azar! Eu, se fosse presidente – embora seja contra mulher... eu já disse? Ah! Bom, se eu fosse, a primeira coisa que fazia era nomear um ministro da umbanda pra fechar o corpo do país. Todo despacho presidencial realmente importante seria feito sexta-feira, numa encruzilhada, acompanhado de um despacho do ministro tranca-ruas. (p. 13)


     No dia seguinte, passei na Igreja de Santa Luzia e rezei por ele, pelo presidente, e rezei pelo Brasil. Agora eu já sabia de tudo; que ele estava mesmo preso em Cumbica, que tinham traído ele, lendo logo a renúncia, quando o certo era esperar a opinião do povo, e saiu aquela invenção das forças ocultas, quando ele nunca, nunca falou isso. Ele falou em forças terríveis que não tinham nada de ocultas. Era gente assim mesmo, como esse Auro Mazzili e esse Rainiere de Moura Andrade que logo repartiram o poder com os militares. Eu estava com medo. Todo mundo estava. Na repartição, a bagunça voltou logo ao que era antes. Nesse mês, desapareceram três máquinas de escrever. (p.18)

     Hoje é fácil criticar ele, ridicularizar: “Histrião!” “Palhaço!” “Mulherengo!” Falar que botava caspas de mentira na roupa, que a maior virtude dele era conseguir comer aqueles sanduíches nos comícios, depois de uma bruta refeição. (Carlos sai pro banheiro.) Mas eu sei que ele foi o homem mais sincero do mundo e provou, depois! Quem combate ele que me diga: com o talento dele, com aquela autoridade!, ex-presidente! não podia estar dirigindo um banco, estar prestando serviço a uma multinacional? Todo mundo não está lá, na folha? O Golbery não está? Ele não. Choveu proposta. (p. 21)

     Nunca topou. Nem quis a guerra civil. Foi pra casa e foi fazer um dicionário (Bate no livro, levanta-o.) que é uma coisa muito, muito útil e exige muita capacidade. Sacrificou a vista dia e noite no trabalho. (Joga o livro na mesa.) E quando os engraçadinhos vêm me gozar dizendo que isso é muito pouco pra quem teve seis milhões de votos eu respondo logo: “E os comunistas, que ridicularizavam ele, tiveram quantos votos? Fizeram quantos dicionários?” (Pausa.) Eu queria ver o dicionário do Jango. (p. 22)

     Quarenta e três anos. Prum presidente, era muito moço! Nasceu no mesmo ano do John Kennedy. E tinha até as mesmas letras no nome: era só a gente escrever Quadros com K ou Kennedy com Q. Eu achava ele tremendamente sexy. E não só eu que, que não sou nada. Mas a Laiz Strongossi, uma das grã-finas que trabalhavam na repartição – ela sai muito nas colunas –, um dia ela entrou no elevador comigo – eu não gosto de mulher, mas ela estava esplendorosa – e, como sabia que eu era vidrada no presidente, foi logo me dizendo, assim, na cara, que era capaz de dar pra ele a qualquer momento. Era só ele convocar. E olha que ela é casada com um diretor da IBM! Mas nos Estados Unidos também era a mesma coisa – todas viviam loucas pra dar pro Kennedy. Pois era esse homem que atraía dessa forma a Mulher Brasileira que eles diziam que era um populista sem talento e só gostava de cachaça e bang-bang. Ele, que era respeitado até pelo Fundo Monetário Internacional! (p. 25)

     Ele foi o primeiro – e o último – presidente a ter escrúpulos. Depois dele, nunca mais ouvi essa palavra. Nem ética. Nem probidade. Começaram a entrar outras na moda: código de vantagens, grupo de trabalho, assessorias e tudo culminou com o Gérson posando pra esse anúncio indecente ensinando a juventude a levar vantagem em tudo. Tinha razão aquele escritor de São Paulo, me esqueço o nome – ele dizia que a Constituição brasileira só devia ter um artigo. Assim: “Artigo primeiro e único: Todo brasileiro fica obrigado a ter caráter”. (p. 28)

     Jânio tinha tudo pra ser e, se tivessem deixado ele voltar com mais força, ele tinha sido – o nosso De Gaulle. Ninguém mais se lembra que, naquele jeito excêntrico, ele escondia que era o mais esquerda de todos, o mais revolucionário: foi o primeiro que visitou Castro. Jango nunca foi em Cuba. Teve medo. Depois, Jânio condecorou Che Guevara e recebeu Gagárin, o astronauta comunista, que até teve um filho com uma moça de Belo Horizonte. Mas só o que sabem dizer, esses jornalistas despeitados, é Jânio, o ambíguo, legislador de briga de galo, moralista que proibiu o biquíni e o lança-perfume. E não reconhecem que isso era uma coisa muito humana: quando era criança foi um lança-perfume que destruiu pra sempre a vista dele. (p. 29)

    Com ele tinha desaparecido o espírito público. Os ministérios já estavam de novo cheios daquelas funcionariazinhas que recebem só pra rebolar as partes pra lá e pra cá, o dia inteiro. Na minha repartição tinha seis grã-finas que só vinham mesmo assinar o ponto. Vinham de carro, com chofer. Um jornalista publicou um artigo com o nome de 38 delas na verba secreta do novo ministro do Planejamento. Foi mexer em casa de marimbondo. Elas divulgaram uma lista denunciando 47 jornalistas na verba secreta do novo ministro da Agricultura, inclusive o que tinha assinado o artigo. É... tinham inventado a mordomia. Enquanto isso, ele, o homem mais sério que este país já teve, agora até diziam que tinha recebido um milhão de dólares pra renunciar. É, como sempre acontece no Brasil, acabaram descobrindo que era homossexual. Que tinha tido um caso com o Otto Lara Rezende. E possível uma coisa dessas, diz? Existe no mundo coisa mais fitiquícia? (p. 32)

Foi nesse mês que tia Amália morreu – já estava doente há algum tempo, tinha 73 anos –, eu vivia com ela. Aí, quando eu chegava do trabalho, não tinha mais com quem conversar, tomava um banho demorado. Encolhia meus ossos comprimidos na banheirinha diminuta, deixava um filete de água quente correndo pro banho não esfriar, e ficava lá, sonhando um sonho que eu achava possível no passado, quase hipnotizada pela voz da televisão, sempre ligada no quarto. Uma vez eu dormi; quando acordei eram duas horas da manhã, a água estava transbordando, saindo pelo corredor afora, a televisão chiava, já sem programa. Alguém batia na porta violentamente, devia ser o vizinho, reclamando. Botei um roupão de qualquer jeito, abri. Na verdade, morta de vergonha da minha solidão. (Disfarça choro com um lenço.) (p.37)

     Li no jornal que ele pretende voltar – vai se candidatar a alguma coisa lá em São Paulo. Me deu uma tristeza! Que é que ele pretende? Ser vereador de novo, e deputado estadual, e prefeito, e governador, e chegar lá em cima outra vez? Com que idade? Ele pensa que é eterno? Meu Deus do céu, alguém tem que dizer pra ele – que é que adianta o poder, agora (Pausa.), de cabelos brancos? (p.40) 


A peça me parece ser bem interessante. :D


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