Simulacros e Simulação
"Livre do real, você pode fazer algo mais real que o real: o hiper-real” (Jean Baudrillard).
Jean Baudrillard, em 1981 escreve um de seus mais inovadores livros, Simulacros e Simulações.
A simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real. 08
Este imaginário da representação, que culmina e ao mesmo tempo se afunda no projeto louco dos cartógrafos, de uma coextensividade ideal do mapa e do território, desaparece na simulação - cuja operação é nuclear e genética e já não espetacular e discursiva. É toda a metafísica que desaparece. Já não existe o espelho do ser e das aparências, do real e do seu conceito. Já não existe coextensividade imaginária: é a miniaturização genética que é a dimensão da simulação. O real é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando - e pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir daí. 08
Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. 08
Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuassão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos de real e lhes curta-circuita todas as peripécies. 09
Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças.
A irreferência divina das imagens
Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. Mas é mais complicado, pois simular não é fingir: "Aquele que finge uma doença pode simplesmente meter-se na cama e fazer crer que está doente. Aquele que simula uma doença determina em si próprio alguns dos respectivos sintomas" (Littré). Logo fingir, ou dissimular
Hiper-real e imaginário
A Disneylândia é um modelo perfeito de todos os tipos de simulacros confundidos. 20
Na Disneylândia desenha-se, pois, por toda a parte, o perfil objectivo da América, até na morfologia dos indivíduos e da multidão. 20-21
A Disneylândia é colocada como imaginário a fim de fazer crer que o resto é real, quando toda Los Angeles e a América que a rodeia já não são reais, mas do domínio do hiper-real e da simulação. 21
Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuassão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos de real e lhes curta-circuita todas as peripécies. 09
Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças.
A irreferência divina das imagens
Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. Mas é mais complicado, pois simular não é fingir: "Aquele que finge uma doença pode simplesmente meter-se na cama e fazer crer que está doente. Aquele que simula uma doença determina em si próprio alguns dos respectivos sintomas" (Littré). Logo fingir, ou dissimular
Hiper-real e imaginário
A Disneylândia é um modelo perfeito de todos os tipos de simulacros confundidos. 20
Na Disneylândia desenha-se, pois, por toda a parte, o perfil objectivo da América, até na morfologia dos indivíduos e da multidão. 20-21
A Disneylândia é colocada como imaginário a fim de fazer crer que o resto é real, quando toda Los Angeles e a América que a rodeia já não são reais, mas do domínio do hiper-real e da simulação. 21
O imaginário da Disneylândia não é não é verdadeiro nem falso, é uma máquina de dissuasão encenada para regenerar no plano oposto a ficção do real. Daí a debilidade deste imaginário, a sua degenerescência infantil. O mundo quer-se infantil para fazer crer que os adultos estão noutra parte, no mundo “real”, e para esconder que a verdadeira infantilidade está em toda a parte, é a dos próprios adultos que vêm aqui fingir que são crianças para iludir a sua infantilidade real. 21
[...] centrais imaginárias [...]. 21
Disneylândia um espaço de regeneração do imaginário como noutros sítios, e mesmo aqui, as fábricas de tratamento de detritos. 22
O encantamento político
Watergate. O mesmo cenário que na Disneylândia (efeito imaginário escondendo que não há mais realidade além como aquém dos limites do perímetro artificial): aqui efeito de escândalo escondendo que não há qualquer diferença entre os factos e a sua denúncia [...]. A mesma operação, tendente a regenerar através do escândalo um princípio moral e político, através do imaginário um princípio de realidade em dissipação. 23
Poder-se-ia dizer, como Bourdieu: “O que é próprio a toda a correlação de forças é dissimular-se enquanto tal e não assumir toda a sua força senão porque se dissimula enquanto tal”, entendendo-o assim: o capital, imoral e sem escrúpulos, só pode exercer-se por detrás de uma superestrutura moral, e quem quer que seja que regenere esta moralidade pública [...] trabalha espontaneamente para a ordem do capital. Foi esse o caso dos jornalistas do Washington Post. 23
O capital, esse, nunca esteve ligado por contrato a esta sociedade que domina. É uma feitiçaria da relação social, é um desafio à sociedade e deve ser-lhe dada uma resposta em conformidade. 24
A negatividade em espiral – Moebius
É por simulação de um campo perspectivo restrito, convencional, em que as premissas e as conseqüências de um acto ou de um acontecimento são calculáveis, que pode manter-se uma verosimilhanla política [...]. 25
A simulação caracteriza-se por uma precessão do modelo, de todos os modelos sobre o mínimo facto – os modelos já existem antes, a sua circulação orbital como a da bomba, constitui o verdadeiro campo magnético do acontecimento. 26
Conjunção do desejo e da lei, gozo última metamorfose da lei [...]: só o capital goza, dizia Lyotard, antes de pensar a partir de agora que nós gozamos no capital. Aterradora versatilidade do desejo em Deleuze, viragem enigmática pelo avesso, portadora do desejo “revolucionário por si próprio e como que involuntariamente, querendo o que ele quer”, a querer a sua própria repressão e a investir em sistemas paranóicos e fascistas? Torção maligna que remete esta revolução do desejo para a mesma ambigüidade fundamental que outra, a revolução histórica. 28
Trata-se sempre de provar o real pelo imaginário, provar a verdade pelo escândalo, provar a lei pela transgressão, provar o trabalho pelo greve, provar o sistema pela crise e o capital pelo revolução, como noutros lugares (os Tasaday), provar a etnologia pela despossessão do seu objecto [...]. 28-29
O poder pode encarnar a sua própria morte para reencontrar um vislumbre de existência e de legitimidade. Foi o caso dos presidentes americanos: os Kennedys morriam por terem ainda uma dimensão política. Os outros, Johnson, Nixon, Ford, não tiveram direito senão a atentados fantoches, a assassínios simulados. 29
A estratégia do real
Do mesmo tipo que a impossibilidade de voltar a encontrar um nível absoluto do real é a impossibilidade de encenar a ilusão. A ilusão já não é possível porque o real já não é possível. É todo o problema político da paródia, da hiper-simulação ou simulação ofensiva, que se coloca. 29-30
[...] a saber que é doravante impossível isolar o processo do real e provar o real. 31
A única arma do poder, a sua única estratégia contra esta deserção é a de reinjectar real e referencial em toda a parte, é a de nos convencer da realidade do social, da gravidade da economia e das finalidades da produção. 32
A hiper-realidade e a simulação, essas, são dissuasivas de todo o princípio e de todo o fim, viram contra o poder esta dissuasão que durante muito tempo ele tão bem utilizou. É que finalmente é o capital que se alimentou, no decurso da sua história, da desestruturação de todo o referencial, de todo o fim humano, que rompeu todas as distinções ideais do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, para estabelecer uma lei radical de equivalências e de trocas, a lei de bronze do seu poder. 33
O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. É por isso que esta produção “material” é hoje, ela própria, hiper-real. Ela conserva todas as características do discurso da produção tradicional mas não é mais que a sua refracção desmultiplicada. 34
Assim, em toda parte o hiper-realismo da simulação traduz-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio. 34
Com o esgotamento da esfera política, o presidente torna-se cada vez mais parecido com esse manequim de poder que é o chefe nas sociedades primitivas (clastres). 34
A morte nunca é um critério absoluto mas neste caso é significativa: a era dos James Dean, Marylin Monroe e dos Kennedy, daqueles que morriam de facto justamente porque tinham uma dimensão mítica que implica a morte (não por romantismo, mas pelo princípio fundamental de reversão e de troca) – essa era terminou. De agora em diante é a era do assassínio por simulação, da estética generalizada da simulação, do assassínio-alibi – ressurreição alegórica da morte que já não existe senão para sancionar a instituição do poder, o qual, sem isso, já não tem substância nem realidade autónoma. 35
Estas encenações de assassínio presidenciais são reveladoras porque assinalam o estatuto de toda a negatividade no Ocidente: a oposição política, a “esquerda”, o discurso político, etc. – simulacro-cinzel com o qual o poder tenta quebrar o círculo vicioso da sua inexistência, da sua responsabilidade fundamental, da sua “flutuação”. 35
Não há que resistir a esse processo procurando afrontar o sistema e destruí-lo, pois ele, que morre por ser desapossado da sua morte, não espera outra coisa de nós: que lha restituamos, que o ressuscitemos pela negativa. 36
[...] a função de usar a morte, ou a profecia, etc., contra o poder, sempre foi exercida, desde as sociedades primitivas, por dementes, loucos ou neuróticos, que nem por isso são menos portadores de uma função social tão fundamental como a dos presidentes [...]. 36
Ao contrário do mito primitivo, que prevê a morte oficial e sacrificial do rei (o rei ou o chefe nada são sem a promessa do seu sacrifício), o imaginário político moderno vai cada vez mais no sentido de retardar, de esconder durante o máximo de tempo possível a morte do chefe de Estado. Esta obsessão acentuou-se a partir da era das revoluções e dos líderes carismáticos: Hitler, Fraco, Mao, não tendo herdeiros “legítimos”, filiação de poder, vêem-se forçados a sobreviver indefinidamente a si próprios – o mito popular recusa-se a reconhecer que estão mortos. 37
De todas as maneiras há muito que um chefe de Estado – um qualquer – não é mais que um simulacro de si próprio e que só isso lhe dá o poder e a qualidade para governar. Ninguém daria o menor apoio, nem teria a menor devoção por uma pessoa real. É para o seu duplo, estando já sempre morto, que vai a fidelidade. Este mito não faz mais que traduzir a persistência, e ao mesmo tempo a decepção, da exigência da morte sacrificial do rei. 37
Completamente expurgado da dimensão política, o poder depende, como qualquer outra mercadoria, da produção e do consumo de massas. Todo o brilho desapareceu, só se salvou a ficção de um universo político. 38
É por isso que o poder, no fundo, está tão de acordo com os discursos ideológicos e os discursos sobre a ideologia, é que são discursos de verdade – sempre bons, mesmo e sobretudo se forem revolucionários, para opor aos golpes mortais da simulação. 40
O fim do panóptico
A televisão, por exemplo, no caso dos Loud, já não é um medium espetacular. Já não estamos na sociedade do espetáculo de que falavam os situciacionistas, nem no tipo de alienação e de repressão específicas que ela implicava. O próprio medium já não é apreensível enquanto tal, e a confusão do medium e da mensagem (Mac Luhan) é a primeira grande fórmula desta nova era. Já não existe medium no sentido literal: ele é doravante inapreensível, difuso e difractado no real e já nem sequer se pode dizer que este tenha sido, por isso, alterado. 43-44
Há que pensar antes no medium como se fossem, na órbita externa, uma espécie de código genético que comanda a mutação de real em hiper-real, assim como o outro código, o micromolecular, comanda a passagem de uma esfera, representativa, do seu sentido, para a esfera genética, do sinal programado. 45
O orbital e o nuclear
O suspense nuclear não faz mais que consolidar o sistema banalizado da dissuasão que está no coração do media, da violência sem conseqüências que reina em todo o mundo, do dispositivo aleatório de todas as escolhas que nos são feitas. 47
O problema político está morto, só restam os simulacros de conflitos e de questão cuidadosamente circunscritos. 49
É que se a lei, com a sua aura de transgressão, a ordem, com a sua aura de violência, drenassem ainda um imaginário perverso, a norma, essa, fixa, fascina, sidera e faz involuir todo o imaginário. 50
A história: um cenário retro
Num período da história violenta e actual [...], é o mito que invade o cinema como conteúdo imaginário. É a idade de ouro das grandes ressurreições despóticas e lendárias. O mito, expulso do real pela violência da história, encontra refúgio no cinema. 59
A história é o nosso referencial perdido, isto é, o nosso mito. É a esse título que se faz a rendição dos mitos o ecrã. A ilusão seria regozijarmo-nos com esta “tomada de consciência da história pelo cinema”. Como nos regozijamos com a “entrada da política na universidade”. É o mesmo mal-entendido, a mesma mistificação. 59
A política que entra na universidade é a que sai da história, é uma política retro, esvaziada da sua substancia e legalizada no seu exercício superficial, zona de jogo e terreno de aventura, essa política é como a sexualidade ou a formação permanente [...]: liberalização a título póstumo. 59-60
Enquanto tantas gerações e singularmente a última, viveram na peugada da história, na perspectiva, eufórica ou catastrófica, de uma revolução – hoje tem-se a impressão de que a história se retirou, deixando atrás de si uma nebulosa indiferente, atravessada por fluxos (?), mas esvaziada das suas referências. 60
[...] a história fetichizada será de preferência a imediatamente anterior à nossa era “irreferencial”. 61
A neofiguração é uma invocação da semelhança, mas ao mesmo tempo a prova flagrante do desaparecimento dos objectos na sua própria representação: hiper-real. 62
O cinema e sua trajectória: do mais fantástico ou mítico ao realístico e à hiper-realística. 64
O cinema plagia-se, recopia-se, refaz os seus clássicos, retroactiva os mitos originais, refaz o mundo mais perfeito que o mundo de origem, etc.: tudo isto é lógico, o cinema está fascinado consigo próprio como objecto perdido tal como está (e nós) estamos fascinados pelo real como real em dissipação. O cinema e o imaginário (romanesco, mítico, irrealidade incluindo o uso delirante da sua própria técnica) tinham outrora uma relação viva, dialéctica, plena, dramática. 64-65
A história era um mito forte, talvez o último grande mito, a par do inconsciente. Era um mito que subtendia ao mesmo tempo a possibilidade de um encantamento “objectivo” dos acontecimentos e das causas, e a possibilidade de um encadeamento narratio do discurso. A era da história, se se pode dizer, é também a era do romance. É esse carácter fabuloso, a que parece perder-se cada vez mais. 65
A fotografia e o cinema contribuíram largamente para secularizar a história, para a fixar na sua forma visível, “objectiva”, à custa dos mitos que a percorriam. 65
Holocausto
O esquecimento da exterminação faz parte da exterminação, pois o é também da memória, da história, do social, etc. 67
Esse esquecimento é ainda demasiado perigoso, é preciso apagá-lo por uma memória artificial (hoje em dia, por toda a parte, são as memórias artificiais que apagam a memória dos homens, que apagam os homens da sua própria memória). 67
O que ninguém quer compreender é que o Holocausto é, em primeiro lugar (e exclusivamente) um acontecimento televisivo. 68
A partir daí, seria preciso falar da luz fria da televisão, por que é que ela é inofensiva para a imaginação (incluindo a das crianças) pela razão de já não veicular nenhum imaginário e isto pela simples razão que não é mais que uma imagem. 69
Opô-la ao cinema dotado ainda (mas cada vez menos porque cada vez mais contaminado pela televisão) de um intenso imaginário – porque o cinema é uma imagem. Isto é, não apenas um ecrã e uma forma visual, mas um mito, uma coisa que ainda tem a ver com o duplo, o fantasma, o espelho, o sonho, etc. 69
China Syndrom
A questão fundamental está ao nível da televisão e da informação. Tal como a exterminação dos judeus desaparecida por detrás do acontecimento televisivo de Holocausto – tendo-se o médium frio da televisão substituído ao sistema também a Síndrome da China é um belo exemplo da supremacia do acontecimento nuclear que, esse, continua a ser improvável e, de certa maneira, imaginário. 71
A televisão é ela também um processo nuclear em cadeia, mas implosivo: arrefece e neutraliza o sentido e a energia dos acontecimentos. 71-72
Com que outra coisa sonham os media senão com ressuscitar o acontecimento pela sua simples presença? Todos o deploram mas todos estão secretamente fascinados com essa eventualidade. Essa é a lógica dos simulacros, já não é a predestinação divina, é a precessão dos modelos, mas é igualmente inexorável. E é por isso que os acontecimentos já não têm sentido: não é que sejam insignificantes em si próprios, é que foram precedidos pelo modelo, com o qual o seu processo mais não faz que coincidir. 74
Ora é a simulação que é eficaz, nunca o real. A simulação de catástrofe nuclear é o meio estratégico desta empresa genérica e universal de dissuasão: adestrar os povos na ideologia e na disciplina da segurança absoluta – adestrá-lo na metafísica da fissão e da fissura. 75
Apocalypse Now
Coppola faz isso mesmo: testar o poder de intervenção do cinema, testar o impacte de um cinema que se tornou numa máquina desmedida de efeitos especiais. Neste sentido o seu filme é, ainda assim, de facto, o prolongamento da guerra por outros meios, o remate desta guerra inacabada e a sua apoteose. A guerra faz-se filme e o filme faz-se guerra, ambos se juntam pela sua efusão comum na técnica. 77
O efeito Beaubourg
Tudo à volta do bairro não é mais que um verniz – limpeza da fachada, desinfecção, design snob e higiênico – mas sobretudo mentalmente: é uma máquina de produzir vazio. 81
De pé em movimento, as pessoas afectam um comportamento cool*, mais subtil, muito design, adaptado à “estrutura” de um espaço “moderno”. 82
Este espaço de dissuasão, articulado sobre a ideologia de visibilidade, de transparência, de polivalência, de consenso e de contacto, é virtualmente hoje em dia o das relações sociais. 83
A partir de hoje a única verdadeira prática cultural, a das massas, a nossa (já não há diferença) é uma prática manipulatória, aleatória, labiríntica de signos e que já não faz sentido. 86
Beaubourg não é mais que um imenso trabalho de transmutação dessa famosa cultura tradicional do sentido para a categoria aleatória dos signos, para uma categoria de simulacros (a terceira) perfeitamente homogénea à dos fluxos e dos tubos da fachada. 86
O mal-entendido é, pois, total quando se denuncia Beaubourg como uma mistificação cultural de massas. As massas, essas, precipitam-se para lá para gozar essa morte, essa decepção, essa prostituição operacional de uma cultura por fim verdadeiramente liquidada, incluindo toda a contracultura que não é senão a sua apoteose. 87
[...] as próprias massas que põem fim à cultura de massas. 88
Muito além das instituições tradicionais do capital, do hipermercado ou Beaubourg “hipermercado da cultura” está já o modelo de toda forma futura de socialização controlada: retotalização num espaço-tempo homogéneo de todas as funções dispersas, do corpo e da vida social. 89
Aqui elabora-se a massa crítica para além da qual a mercadoria se torna hipermercadoria, e a cultura hipercultura – isto é, já não ligada a trocas distintas ou a necessidades determinadas, mas a uma espécie de universo sinalético total, ou de circuito integrado percorrido de um lado ao outro, por um impulso, trânsito incessante de escolhas, de leituras, de referências, de arcas, de decodificação. 89
[...] é isso que se vem aprender a Beaubourg: a hiper-realidade da cultura. 90
As massas como produto final de toda a socialidade e pondo fim definitivo à socialidade, pois estas massas que nos querem fazer crer serem o social, são pelo contrário o lugar de implosão do social. As massas são a esfera cada vez mais densa onde vem implodir todo o social e onde vêm devorar-se num processo de simulação ininterrupto. 90
A massa é foco de inércia e daí foco de uma violência completamente nova, inexplicável e diferente da violência explosiva. 91
As pessoas têm vontade de tomar tudo, pilhar tudo, comer tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender não as afecta. O único afecto maciço é o da manipulação. Os organizadores (e os artistas e os intelectuais) estão assustados com esta veleidade incontrolável, pois nunca esperam senão a aprendizagem das massas ao espetáculo da cultura. 92
Pânico ao retardador sem móbil externo. É a violência interna a um conjunto saturado. A implosão. 93
Beaubourg não pode sequer arder, tudo está previsto. O incêndio, a explosão, a destruição já não são a alternativa imaginária a este tipo. É a implosão a forma de abolição do mundo “quarternário”, cibernético e combinatório. 93
Talvez as grandes metrópoles – com certeza elas, se é que esta hipótese tem algum sentido – se tenham tornado locais de eleição de implosão neste sentido, de absorção e de reabsorção do próprio social cuja idade de outro, contemporânea do duplo conceito de capital e de revolução, está sem dúvida ultrapassada. 96
Hipermercado e hipermercadoria
Os circuitos de televisão anti-roubo fazem também eles próprios parte de cenário de simulacros. 98
O hipermercado é já, para além da fábrica e das instituições tradicionais do capital, o modelo de toda a forma futura de socialização controlada: retotalização num espaço-tempo homogéneo de todas as funções dispersas do corpo e da vida social [...]; retranscrição de todos os fluxos contraditórios em termos de circuito integrados; espaço-tempo de toda uma simulação operacional da vida social, de toda uma estrutura de habitat e de tráfego. 99
A forma “hipermercado” pode assim ajudar a compreender o que se passa com o fim da modernidade. 100
A cidade, mesmo moderna, já não o absorve. É ele que estabelece uma órbita sobre o qual se move a aglomeração. 100
Implosão do sentido nos media
Estamos num universo em que existe cada vez mais informações e cada vez menos sentido. 103
Está dessocializado, ou é virtualmente associal, aquele que está subexposto aos media. 104
A informação é dada como criadora de comunicação, e apesar do desperdício ser enorme, um consenso geral pretende que existe, contudo, no total, um excesso de sentido, que se redistribui em todos os interstícios do social – assim como um consenso pretendo que a produção material, apesar dos seus disfuncionamentos e das suas irracionalidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza e de finalidade social. 104
A informação devora os seus próprios conteúdos. Devora a comunicação e o social. E isto por dois motivos. 105
1- Em vez de fazer comunicar, esgota-se na encenação da comunicação. 105
É inútil interrogarmo-nos se é a perda da comunicação que induz esta sobrevalorização no simulacro ou se é o simulacro que está primeiro, com fins dissuasivos, os de curto-circuitar antecipadamente toda a possibilidade de comunicação (precessão do modelo que põe fim ao real). É inútil interrogarmo-nos sobre qual é o primeiro termo, não há, é um processo circular – o da simulação, o do hiper-real. Hiper-realidade da comunicação e do sentido. Mais real que o real, é assim que se anula o real. 105
Assim, tanto a comunicação como o social funcionaram em circuito fechado, como um logro – ao qual se liga a força de um mito. A crença, a fé na informação agarra-se a esta prova tautológica que o sistema dá de si próprio ao redobrar nos signos uma realidade impossível de encontrar. 105
O mito existe mas há que evitar acreditar que as pessoas crêem nele: é essa a armadilha do pensamento crítico, que só pode exercer-se partindo de um pressuposto de ingenuidade e de estupidez das massas. 106
Assim, os media são produtores não da socialização mas do seu contrário, implosão da sociedade de massa. 106
Sem mensagem, também o médium cai na indiferença característica de todos os nossos grandes sistemas de juízo e de valor. Um único modelo, cuja eficácia é imediata, gera simultaneamente a mensagem, o médium e o “real”. 108
Numa palavra, Medium is message não significa apenas o fim da mensagem mas também o fim do médium. Já não há media no sentido literal do termo (refiro-me sobretudo aos medi electrónicos de massa) – isto é, instância mediadora de uma realidade para a outra, de um estado do real para outro. Nem nos conteúdos, nem na forma.
É inútil sonhar com uma revolução pela forma, já que medium e real são a partir de agora uma nebulosa indecifrável na sua verdade. 108
Para além do sentido, há o fascínio, que resulta da neutralização e da implosão do sentido. Para além do horizonte do social há as massas, que resultam da neutralização e da implosão do social. 109
Os mass media estão ao lado do poder da manipulação das massas ou estão ao lado das massas na liquidação do sentido, na violência exercida contra o sentido e o fascínio? 109-110
Os media carregam consigo o sentido e o contra-sentido, manipulam em todos os sentidos ao mesmo tempo, nada pode controlar este processo, veiculam a simulação interna ao sistema e a simulação destruidora do sistema, segundo uma lógica absolutamente moebiana e circular – e está bem assim. Não há alternativa, não há resolução lógica. 110
À exigência de ser sujeito opõe, de maneira igualmente obstinada e eficaz, uma resistência de objecto, isto é, exactamente o oposto: infantilismo, hiperconformismo, dependência total, passividade, idiotia. Nenhuma das suas estratégias tem mais valor objectivo que a outra. 110
A resistência estratégica, pois, é de recusa de sentido e de recusa de palavra – ou da simulação hiperconformista aos próprios mecanismos do sistema, que é uma forma de recusa e de não aceitação. É o que fazem as massas: remetem para o sistema a sua própria lógica reduplicando-a, devolvem, como um espelho, o sentido sem o absorver. 111
Publicidade absoluta, publicidade zero
O que estamos a viver é a absorção de todos os modos de expressão virtuais no da publicidade. Todas as formas culturais originais, todas as linguagens determinadas absorvem-se neste porque não tem profundidade, é instantâneo e instantaneamente esquecido. 113
Todas as formas actuais de actividades tendem para a publicidade, e na sua maior parte esgotam-se aí. Não forçosamente na publicidade nominal, a que se produz como tal – mas a forma publicitária, a de um modo operacional simplificado, vagamente sedutor, vagamente consensual. 113
Publicidade e propaganda adquirem toda a sua dimensão a partir da Revolução de Outubro e da crise mundial de 29. Ambas as linguagens de massa, saídas da produção de massa ou de idéias ou de mercadorias, e os seus registros, ao princípio separados, tendem a aproximar-se progressivamente. A propaganda faz-se marketing e merchandising de idéia-força, de homens políticos e de partidos com a sua “imagem de marca”. 114
De destino histórico, o próprio social caiu nas fileiras de uma empresa coletiva que assegura a sua publicidade em todas as direções. 114
O social como cenário de que somos o público enlouquecido. 115
Assim, toda a forma publicitária impôs-se e desenvolveu-se à custa de todas as linguagens, como retórica cada vez mais neutra, equivalente, sem afectos, como “nebulosa assintáctica”, diria Yves Stourdzé, que nos envolve em todas as partes [...]. 115
Não é que as pessoas já não acreditem nela ou a tenham aceitado como rotina. É que, se ela fascinava por este poder de simplificação de todas as linguagens, este poder de simplificação de todas as linguagens, este poder é-lhe hoje subtraído por um outro tipo de linguagem ainda mais simplificado, e, logo, mais operacional: as linguagens informáticas. 115
A “paixão” publicitária deslocou-se para os computadores e para a miniaturização informática da vida quotidiana. 116
O aspecto actualmente mais interessante da publicidade é o seu desaparecimento, a sua diluição como forma específica, ou como medium, muito simplesmente. Já não é (alguma vez foi?) um meio de comunicação ou de informação. 116
Se num dado momento a mercadoria era a sua própria publicidade (não havia outra), hoje e publicidade é a sua própria mercadoria. 116-117
Vai, pois, poder fazer-se publicidade para o trabalho, a alegria de encontrar um trabalho, como vai poder fazer-se publicidade para o social. E a verdadeira publicidade está hoje no design do social, na exaltação do social sob todas as suas formas, no apelo insistente, obstinado a um social cuja necessidade se faz rudemente sentir. 117
Não é por acaso que a publicidade, depois de ter veiculado durante muito tempo um ultimato implícito de tipo econômico, dizendo e repetindo no fundo incansavelmente: “Compro, consumo, gozo”, repete hoje sob todas as formas: “Voto, participo, estou presente, isto diz-me respeito” – espelho de uma zombaria paradoxal, espelho da indiferença de todo o significado público. 118
A publicidade, pois, tal como a informação: destruidora de intensidades, acelerador de inércia. Veja-se como todos os artifícios do sentido e do não sentido aí estão repetidos com lassidão, como todos os procedimentos, todos os dispositivos da linguagem da comunicação [...]. 119
Clone story
De todas as próteses que marcam a história do corpo, o duplo é sem dúvida a mais antiga. Mas o duplo não é justamente uma prótese: é uma figura imaginária que, como a alma, a sombra, a imagem no espelho persegue o sujeito como o seu outro, que faz com que seja ao mesmo tempo ele próprio e nunca se pareça consigo, que o persegue como uma morte subtil e sempre conjurada. Contudo, nem sempre é assim: quando o duplo se materializa, quando se torna visível, significa uma morte iminente. 123
Enquanto que a clonagem abole radicalmente a Mãe, mas do mesmo modo o Pai, a completa união de seus genes, a imbricação das suas diferenças, mas sobre tudo o acto dual que é o engendramento. O cloneur não se engendra: Ele brota de cada um de seus segmentos. 125
A clonagem também não conserva nada, pela mesma razão, do sonho imemorial e narcisista de projecção do sujeito no seu alter ego ideal, pois esta projecção passa ainda por uma imagem: a imagem, no espelho, onde o sujeito se aliena para se reencontrar, ou a imagem sedutora e mortal onde o sujeito se vê para aí morrer. 125-126
As próteses da era industrial são ainda externas, exotécnicas, as que conhecemos ramificaram-se e interiorizaram-se: esotécnicas. Estamos na era das tecnologias moles, software genético e mental. 129
Hologramas
É a fantasia de captar a realidade ao vivo que continua – desde Narciso debruçado sobre a sua fonte. Surpreender o real a fim de imobilizar, suspender o real no mesmo momento que o seu duplo. 133
No holograma é a alma imaginária do duplo que é, como na história dos clones, perseguida sem piedade. A semelhança é um sonho e deve continuar a sê-lo, para que possa existir a ilusão mínima e uma cena do imaginário. 134
O holograma, imagem perfeita e fim do imaginário. Ou antes, já não é de todo uma imagem – o verdadeiro medium é o laser, luz concentrada, quinta-essenciada, que já não é uma luz abstrata e de simulação. 135
Em resumo, não existe real: a terceira dimensão não é mais que o imaginário de um mundo a duas dimensões... Escalada na produção de um real cada vez mais real por adição de dimensões sucessivas. Mas exaltação por conseqüência do movimento inverso: só é verdadeiro, só é verdadeiramente sedutor o que joga com uma dimensão a menos. 136
Nada se parece e a reprodução holográfica, como toda a veleidade de síntese ou de ressurreição exacta do real [...], já não é real, já é hiper-real. 136
O real, o objecto real é suposto ser igual a si próprio, é suposto parecer-se como um rosto a si próprio no espelho – e esta semelhança virtual é com efeito a única definição do real – e todas as tentativas, entre as quais a holográfica, que se apóiam nela, não podem deixar de errar o seu objecto, porque não têm em conta a sua sombra [...], essa face escondida onde o objecto se afunda, do seu segredo. Ela salta literalmente sobre sua sombra, e mergulha, para aí se perder ela própria, na transparência. 138
Crash
Na perspectiva clássica (mesmo cibernética), a tecnologia é um prolongamento do corpo. É a sofisticação funcional de um organismo humano, que lhe permite igualar-se à natureza e investir contra ela triunfalmente. 139
A técnica nunca é captada senão no acidente (de automóvel), isto é, na violência feita a si própria e na violência feita ao corpo. 140
Outro ponto comum: em Crash não se trata de signos acidentais que apenas pertenceriam às margens do sistema. 141
Já não está à margem, está no coração. Já não é a excepção de uma racionalidade triunfal, tornou-se a Regra, devorou a Regra. Já nem sequer é a “parte maldita”, a que é concedida ao destino pelo próprio sistema, e incluída no seu cálculo geral. Tudo está invertido. E o Acidente que dá forma à vida, é ele, insensato, que é o sexo da vida. 141
Também uma, a máquina de Kafka, é ainda puritana, repressiva, “maquina significante” diria Deleuze, enquanto que a tecnologia de Crash é resplandecente, sedutora, ou baça e inocente. 142
Cada marca, cada traço, cada cicatriz deixada sobre o corpo é como uma invaginação artificial, tal como as escarificações dos selvagens, as quais são sempre uma resposta veemente à ausência de corpo. Só o corpo ferido simbolicamente existe – para si e para os outros – o “desejo” “sexual” nunca é senão esta possibilidade que os corpos têm de misturar e de trocar os seus signos. 143
O sexo é apenas a rarefacção de uma pulsão chamada desejo sobre zonas preparadas antecipadamente. 143
Em Crash tudo é hiperfuncional, porque a circulação e o acidente, a técnica e a morte, o sexo e a simulação são como uma só grande máquina síncrona. É o mesmo universo que o hipermercado, onde a mercadoria se torna “hipermercado”, isto é, sempre já tomada ela também, e todo o ambiente com ela, nas figuras incessantes da circulação. 148
Poucos livros, poucos filmes atingem esta resolução de toda a finalidade ou negatividade crítica, este esplendor baço da banalidade ou da violência. Nashville, Laranja Mecânica. 149
Simulacros e ficção científica
Três categorias de simulacros:
- simulacros naturais, naturalistas, baseados na imagem, na imitação e no fingimento, harmoniosos, optimistas e que visam a restituição ou a instituição ideal de uma natureza à imagem de Deus, 151
- simulacros produtivos, produtivistas, baseados na energia, na força, na sua materialização pela máquina e em todo o sistema de produção – objectivo prometiano de uma mundialização e de uma expansão contínua, de uma libertação de energia indefinida (o desejo faz parte das utopias relativas a esta categoria de simulacros),
- simulacro de simulação, baseados na informação, no modelo, no jogo cibernético – operacionalidade total, hiper-realidade, objectivo de controle total.
À primeira categoria corresponde o imaginário da utopia. À segunda a ficção científica propriamente dita. À terceira corresponde – haverá ainda um imaginário que responda a esta categoria? A resposta provável é que o bom velho imaginário da ficção científica morreu e que alguma outra coisa está a surgir. 152
Não há real, não há imaginário senão a uma certa distância em benefício exclusivo do modelo? Ora, de uma categoria de simulacros a outra, a tendência é bem a de uma reabsorção desta distância, deste desvio que dá lugar a uma projecção idela ou crítica [...]. 152
Os modelos já não constituem uma transcendência ou uma projecção, já não constituem um imaginário relativamente ao real, são eles próprios antecipação do real, e não dão, pois, lugar a nenhum tipo de antecipação ficcional – são imanentes, e não criam, pois, nenhuma espécie de transcendência imaginária. 152
A realidade poderia ultrapassar a ficção: seria o sinal mais seguro de uma sobrevalorização possível do imaginário. Mas o real não poderia ultrapassar o modelo, do qual é apenas o álibi. 153
O imaginário era o álibi do real, num mundo dominado pelo princípio de realidade. Hoje em dia, é o real que se torna álibi do modelo, num universo regido pelo princípio de simulação. 153
[...] um mercado universal, não somente das mercadorias, mas dos valores, dos signos, dos modelos, que já não dá lugar ao imaginário [...]. 153
Quando um sistema atinge os seus próprios limites e se satura, produz-se uma reversão – tem lugar outra coisa, também no imaginário. 154
Já não é possível partir do real e fabricar o irreal, o imaginário a partir dos dados do real. O processo será antes o inverso: será o de criar situações descentradas, modelos de simulação e de arranjar maneira de lhes dar as cores do real, do banal, do vivido, de reinventar o real como ficção, precisamente porque ele desapareceu da nossa vida. 154-155
A ficção científica já não seria, neste sentido, um romanesco em expansão com toda a liberdade e a “ingenuidade” que lhe dava o encanto da descoberta, antes evoluindo implosivamente, à semelhança da nossa concepção actual do universo, procurando revitalizar, reactualizar, requotidianizar fragmentos de simulação, fragmentos dessa simulação universal em que se tornou, para nós, o mundo dito “real”. 155
[...] nem possível, nem impossível, nem real, nem irreal: hiper-real [...]. 155
Os animais: território e metamorfoses
“Há que constatar de facto que os animais de criação sofrem psiquicamente ... Tornar-se necessária uma zoopsiquiatria... O psiquismo de frustação represente um obstáculo ao desenvolvimento normal”. 161
Outrora, os animais tiveram um carácter mais sagrado, mais divino que os homens. Não há sequer reino “humano” nos primitivos, e durante muito tempo a ordem animal é a ordem de referência. Só o animal é digno de ser sacrificado, enquanto deus, o sacrifício do homem só vem depois, segundo uma ordem degradada. 165
Seja como for, os animais sempre tiveram, até nós, uma nobreza divina ou sacrificial de que todas as mitologias dão conta. 165
É a reabsorção de toda a violência em relação a eles que constitui hoje em dia a monstruosidade dos animais. À violência do sacrifício, que é a da “intimidade” (Bataille), sucedeu a violência sentimental ou experimental, que é a da distância. 166
Os animais, como os mortos, e como tantos outros, seguiram este processo ininterrupto de anexação por exterminação, que consiste em liquidar e depois em fazer falar as espécies desaparecidas, em fazê-las confessar o seu desaparecimento. Fazer falar os animais, como se fez falar os loucos, as crianças, o sexo (Foucault). 167
Os animais não têm inconsciente, por que têm um território. Os homens não têm um inconsciente senão desde que já não têm território. 173
O resto
Quando se retira tudo, fica nada. É falso. 175
A equação do tudo e do nada, a subtração do resto, é falsa de uma ponta a outra. 175
O resto remete assim muito mais para uma participação clara de dois termos localizados, para uma estrutura giratória e reversível, estrutura de reversão sempre iminente, em que não se sabe nunca qual é o resto do outro. 176
Designados como “residuais” no horizonte do social, passam, por isso mesmo, sob a sua jurisdição e estão destinados a encontrar o seu lugar numa socialidade alargada. É sobre este resto que a máquina social se relança e encontra uma nova energia. Mas que é que acontece quando tudo é apagado, quando tudo é socializado? Então a máquina pára, a dinâmica investe-se, e é todo o sistema social que se torna resíduo. 177
A impossibilidade de determinar o que é o resto do outro caracteriza a fase de simulação e de agonia dos sistemas distintivos, fase em que tudo se torna resto e residual. 177
Sexo e morte são os dois grandes temas reconhecidos pela sua capacidade de desencadear a ambivalência e o riso. Mas o resto é o terceiro, e talvez o único, os outros dois juntam-se-lhe como à própria figura da reversibilidade. 177
Mas quando tudo é recalcado já nada o é. Não estamos longe desse ponto absoluto do recalcamento em que os próprios stocks se desfazem, em que os stocks de fantasmas se desmoronam. Todo o imaginário do stock, da energia e de tudo o que dela resta, vem-nos do recalcamento. 180
O cadáver em espiral
A universidade é deliqüescente: não funcional no plano social do mercado e do emprego, sem substância cultural nem finalidade de saber. 184
Numa instituição a partir de agora flutuante, sem conteúdo de saber, sem estrutura de poder [...] a irrupção ofensiva é impossível. 183-184
O poder (ou o que ocupa o seu lugar) já não acredita na Universidade. No fundo sabe que ela não é mais que uma zona de alojamento e de vigilância para todo um grupo etário não tendo, pois, senão de seleccionar – encontrará a sua elite noutro sítio, ou de outra maneira. 184
O desafio que o capital, no seu delírio, nos lança – liquidando sem vergonha a lei do lucro, a mais-valia, as finalidades produtivas, as estruturas de poder e voltando a encontrar no termo do seu processo a imoralidade profunda (mas também a sedução) dos rituais primitivos de destruição, esse desafio, é preciso aceitá-lo numa sobrevalorização insensata. 187
Cercados pelo simulacro do valor e do fantasma do capital e do poder, estamos bem mais desarmados e impotentes que cercados pela lei do valor e da mercadoria, já que o sistema se mostrou capaz de integrar a sua própria morte, e que a responsabilidade respectiva nos é retirada e, logo, o problema da nossa própria vida. 188
Desafio ou ciência imaginária, só uma patafísica dos simulacros pode fazer-nos sair da estratégia de simulacro do sistema e do impasse de morte em que nos encerra. 188-189
O último tango do valor
A troca de signos [...] na Universidade, entre “docentes” e “discentes” já não é, desde há um certo tempo, mais que um conluio acompanhado da amargura da indiferença [...], um simulacro acompanhado de um psicodrama [...]. Neste sentido, a Universidade continua a ser o lugar de uma iniciação desesperada à forma vazia do valor, e os que aí vivem desde há alguns anos conhecem esse trabalho estranho, o verdadeiro desespero do não trabalho, do não saber. 192
O universo da simulação é transreal e transfinito: já nenhuma prova de realidade lhe virá pôr fim – só o afundamento total e o deslizar de terreno, que continua a ser a nossa mais louca esperança. 194
Sobre o niilismo
O niilismo é hoje em dia o da transparência, e é de alguma maneira mais radical , mais crucial que nas formas anteriores e históricas, pois esta transparência, esta flutuação é indissoluvelmente a do sistema, e a de toda a teoria que pretende ainda analisá-la. 195
(Deus não morreu, tornou-se hiper-real). 195
Surrealismo dadaísmo, o absurdo, o niilismo político, são a sua segunda grande manifestação, que corresponde à destruição da ordem do sentido. 196
Melancólicos e fascinados, tal é a nossa situação geral numa era de transparência involuntária. 197
A verdadeira revolução do século XIX, da modernidade, é a destruição radical das aparências, o desencantamento do mundo e o seu abandono à violência da interpretação e da história. 197
Constato, aceito, assumo, analiso a segunda revolução, a do século XX, a da pós-modernidade, que é o imenso processo de destruição do sentido, igual à destruição anterior das aparências. O que pelo sentido mata, pelo sentido morre. 197
Se ser niilista é privilegiar este ponto de inércia e análise desta irreversibilidade dos sistemas até um ponto de não retorno, então eu sou niilista. 198
Se ser niilista é estar obcecado pelo modo de desaparecimento, e já não pelo modo de produção, então sou niilista. Desaparecimento, ocultamento, implosão, Fúria desVerschwinders. 198-199
Em rigor, já não é tanto niilismo: no desaparecimento, na forma desértica, aleatória e indiferente, mítica que constitui ainda a força do niilismo, radicalidade, recusa mítica, antecipação dramática. 199
Se ser niilista é levar, até o limite insuportável dos sistemas hegemônicos, este vestígio de irrisão e de violência, este desafio ao qual o sistema é intimado a responder pela sua própria morte, então eu sou terrorista e niilista em teoria, como outros o são pelas armas. A violência teórica, não a verdade, é o único recurso que nos resta. 200
Estamos na era dos acontecimentos sem conseqüência (e das teorias sem conseqüência). 201
Já não há esperança para o sentido. E sem dúvida que está bem assim: o sentido é mortal. 201

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